Quarta-feira, Março 21, 2012

Dia Mundial da Poesia: “Algures”

"Palavras"
(retirado da Internet)
(retirado da Internet)


Algures*

São inúteis as palavras
Porque nascerão num outro dia
Entre a manhã e a noite abrupta
Algures momentaneamente
Silenciosas, vagamente
Dilaceradas
De inutilidade…

*Maria Paula Raposo*
*(poetisa portuguesa, retirado da II Antologia de Poetas Lusófonos)

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Isto

“Isto ou aquilo, 2”
(Fotomontagem de Dobroslav Foll)

Isto*

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



*Fernando Pessoa*
*(poeta português)

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Batuque Mukongo – canto 2

“child rain, dance, dancing, girl, rain”
(Foto Favim.com; daqui)

Canto 2*

Fui criança da chuva
em terras de esperança
fui chuva criança
pela mão da minha avó
escura
como o breu envolvente
da miséria de um povo
sem caminho nem vau
no rio grande
por onde subiu a nau
de velas insufladas
ao anúncio dos ngoma
dos chingufu
dos tambores surdos
e do ulular rítmico
no queixume das sereias
coladas à morte pegajosa
penetrando silenciosa
as rugas dos desejos impossíveis
como visgo escorregadio
no casco das árvores milenares crescidas a esmo.

*Manuel Fragata de Morais*
*(Canto do livro de poemas “Batuque Mukongo”, editado sob chancela da UEA
)

Estou No Meu Caminho

“Sandilar”
(Foto de Misha Gordin)

Estou No Meu Caminho*

Estou No meu caminho
Somente no meu caminho e nada mais
Correndo na velocidade de um míssil
Quilómetros infinitos a hora

Não quero moscas ao pé de mim
Pois não tenho açúcar para vos alimentar
Não quero falsas promessas e profecias
Porque não vou acreditar

Estou No Meu Caminho

Caminhando em linhas tortas
Mas sabendo direito aonde
Tenciono chegar
Não se aproxime muito
O Caminho é meu
E muito meu
Cada um no seu caminho
Todos atrás do troféu

Afaste do meu caminho
A maldição da inveja
Que herdaste dos teus presentes
E jogaste fora o amor herdado dos teus ancestrais

Estou No Meu Caminho

Distante de tudo e de todos
Que queiram aplaudir as minhas
Vitórias ilusórias

Em busca da liberdade infinita
Que tem o pássaro
Do sorriso ardente que tem
O sol e do Caminhar sem destino
Que tem o percurso dos rios

Estou No Meu Caminho…

*Sandro Feijó*
*(Poeta Universal; poeta angolano, 24 Agosto 2011)

Sábado, Dezembro 03, 2011

Lamento de um Povo

"Corpo nu de muher"

(Tela de desconhecido, retirado daqui)

Lamento de um Povo*

Pátria nossa sacrificada por ambições e traições
Desenfreados em busca das tuas riquezas
Provocando entre os teus filhos a miséria, a morte
E destruição descontroladas
Dum futuro que não aconteceu

Torrão pátrio...jamais ouvimos
O chilrear dos passarinhos, o cantar das cigarras
O murmúrio das cascatas, o silêncio dos regatos
O sibilar forte dos ventos nas anharas,
Nos sertões e florestas verdejantes,
Não olfatamos o cheiro acre dos teus frutos silvestres,
E apetitosos, o tamborilar das tuas chuvas generosas,
Nos telhados dos zincos dos muceques. Oh! Já não!

Ouvimos sim, ribombar dos trovões
Enfurecidos lançando os seus clarões, rasgando o céu
E o Sol com o seu brilho entristecido,
Contemplamos sim os nossos regatos, rios e cachoeiras
Tingidos de sangue inocente de filhos teus,
Que esperam e desesperam nesta Pátria nossa
O prometido que lhes foi recusado.

E lá longe escutamos os tantãs
Dos nossos Antepassados,
Soando seus lamentos de desespero
De angústia e choros de seus filhos amados

Gente amargurada que sofre, mas que tem petróleo
Café, diamantes, muamba, mufete, kissangi e
Tradições, mas sem Paz e continua pobre.

*José Emil Becker*
*(Poeta Angolano, retirado, com a devida vénia, do Facebook)

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Contei meus anos...

"Volúpia I”

"Volúpia I”
(Eunice Maia, daqui)


Contei meus anos... *

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

*Mário de Andrade*
*(poeta angolano esquecido (1893-1945)poeta angolano esquecido (1893-1945)