segunda-feira, janeiro 02, 2006

Um Rio

(Rio Cunene)
UM RIO*

Eis que nasce a criança,
gerada em noite de inverno.
O progenitor, um céu nebuloso
a terra, a mãe extremosa.
Rompe-se a bolsa;
e eis que rola,
serpenteia,
doce,
silenciosamente
pelas agruras da encosta da vida.
Cresce,
alarga-se,
varre,
sulca.
Para ela não há entulhos,
nem prisões ou grilhetas.
É criança !
traquina,
cresce,
corre;
vai crescendo
vai alargando.
Serena, torna-se adulta,
não vê perigos,
mas vai brigando.
Não é arredia,
mas vai-se afastando,
alagando,
quem
à volta dela vive.
Sulca,
corre,
desliza.
E eis que a criança,
tão traquina ela era,
adulta,
responsável,
se torna.
Desaguando
na multidão,
azul ou verde,
no meio de uma alva bruma.
Repousa,
descansa no remanso
de um cristalino,
e vivo mar;
em breve,
um belo dia,
num verão,
quente,
muito quente,
em fina gotas
ao céu,
vai tornar.
*Lobitino Almeida N'gola*
*Lisboa, Novembro de 1984

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