sexta-feira, fevereiro 03, 2006

(Fábula) O rio da nossa terra

(Rio Cubal, Quicombo, um dos belos rios de Angola)

O rio da nossa terra*
Ah! Este Kiaposse! Vem de milénios, vem do instante, primeiro do paraíso artefacto da criação no Génesis mais remoto madrugada, cristal, perfume imperturbável ao pecado original sendo-se hoje.
Reversível tempo no irreversível voluntário nas eidéticas imagens suas serena mensageiro agorinda consciente na fantasia em alvoroço para lá dum apocalipse ou para juízo final fecundando nas marés de pereniternidade!
O Kiaposse é um rio, na verdade, o Kiaposse é um rio verdadeiro, flor nascente no espelho da imaginação, até passa por baixo duma ponte frufrulhando alados horizontes macios, num ritmo de confiança.
É um rio como muitos pequenos, massembando nos rochedos mui penados, mas é um rio
(Pois então!)
É um rio.
As lavadeiras que lavam roupa
(Ah! Quem dera lavar da memória todas as brumas!) nivelam as águas pelos tornozelos de leves pulseiras de espuma.
As procelas são mansidão de luar, ou sumaúmento olhar de crianças, menininha, canto dolente de fucumbas e volúpias de beijos de caxexe.
Não se lhe conhece enchente, inundação torrente, resmungarulhos bravios transbordar de impetuosidades nem enxurradas turbilhonantes mas é um rio, um rio
O Kiaposse é um rio
(Pois então!)
é um rio.
Ali
A lua diluta, ténues feitiços que são amores, (ai amores!) fluidos de quiandas de bondosas bondades.
Tem dentro o inteiro-vivo do Golungo natural, natureza de ser rio na vida que a vida devém rio, vida e mistério, nasce no Golungo na sua modéstia disfarça-se noutros para chegar ao mar e chega, e vai longe, tão longe que esfuma em nenhum a noção de longe e quando chega à Europa ou à América. Coitados!
Chama-se Oceano Atlântico.
Elizinho, inteligente, sorri do mundo e corre lento indiferente no Golungo.

* Fábula angolana de autor desconhecido e retirado daqui.

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