domingo, novembro 26, 2006

Calçada do Cordeal

“Sem título”
(Tela de
Mário Cesariny na exposição “Arte Lisboa”)

Calçada do Cordeal*

Pequeno tambor orgia modesta
o lago tranquilo a descoloração
tintura de brancos e verdes floresta
o lago tranquilo a prostituição
candura doçura nos olhos em festa
mão no coração

A bola de vidro rola vis-a-vis
com as flores que altas são no jardim.
Há justos e réprobos porque o Senhor quis
vingar-se de nós porque sim.

*Mário Cesariny*
*(poeta e pintor português [1923-26/Nov/2006]; poema retirado
daqui e pintura daqui)

sexta-feira, novembro 24, 2006

Entre as dunas da cidade

“Mulher sentada”
(Desenho de José Redinha*)


Entre as dunas da cidade*

Leve mulher, vapor de água, colibri suspenso
no céu da minha boca, desde quando
beijas assim a flor selvagem do destino?

Frágil mulher, o mito que despertas
no meu peito abre caminho
rasgando a carne a golpes de paixão

E é essa dor que dói e não consinto
que deus algum venha apaziguar
que faz da tua noite a minha lua

Mmulher de areia, queria ser vento
voar baixinho e levantar tua saia
para arder entre as dunas da cidade.

*José Luís Mendonça*
*(poeta angolano; poema e desenho do livro “Logarítimos da alma, poemas de aMar”

Evasão Impossível

“Cela”
(Foto McMuza “
daqui”)

Evasão Impossível*

Minhas palavras são grades
DA MINHA CELA
onde vivo encarcerada
sem farda listrada
sem número,
sem grilhetas
desde que vivo este amor

minhas noites são brancas,
encompridadas,
silenciosas, sem tranquilidade
desespero e estremeço as grades
em busca estéril de libertação

Meus gritos já roucos
Feitos ecos
Nos teus tímpanos recheados de seixos,
Volto a escutar
Angustiadamente...

Os teus dedos,
Feitos lima
(Por compaixão?...por amor?....)
desgastaram-se nas grades
insubmissos, silenciando-se
impotentes, vencidos...

O destino cínico, imutável
condenou-me a fazer versos
para ninguém,
multiplicando dia-a-dia
as grades da minha cela.

*Suzete Madeira*
*(moçambicana; poema inédito, Novembro-2006)

Soltar é urgente

“Nevoeiro nocturno em Bellwether Farm”
(Foto de
Lady Farrier)

Soltar é urgente*

Urgente subir levitar
banir nevoeiros cadentes
de códigos
....................................velhos tão nossos.

Urgente entranhar a manhã
no verbo soltar-lhe um pedreiro
na luz
............................arrumar os destroços.

Neste hoje com séculos dentro
o pão já madruga amassando
as lêvedas fomes que escorrem
..................................................dos olhos.

*Fernando Alvarenga*
*(poeta português, poema do livro “Meus cantos de ainda”)

Kianda

“Sem título”
(Tela de Arlette Marques*)


Kianda*

Minha senhora sereia
Dona das águas
Jovem rainha zangada
Com pescador
Na dor.

Come do pão dos meus filhos
Bebe do meu vinho
E deixa-te enfeitar
Com a minha rede sem peixe.

Meu rendilhado
Está consertado
A chama do mar
É teu abraço
Minha rede dorme na areia
A chama apagada da casa
É minha fome.

*Filipe Zau*
*(poeta e investigador angolano; imagem e poema do livro “Encanto do mar que eu canto”)

segunda-feira, novembro 20, 2006

Nação Macua

“Mulher macua”
(Tela de
Patricio Serendero)

Nação Macua*

Todos os meus amigos sabem que nasci na Zambézia e que sou macua. Gosto muito desta minha condição.
Sou macua, pertenço a nação macua e gosto de o ser, sinceramente identifico-me completamente com as gentes desta nação, com o lugar, com os costumes, com o comer, com o viver; enfim Sou macua porque me sinto macua.
Incrivelmente hoje, ao receber uma chamada telefónica um amigo me disse: Estou na tua terra e chove aqui a cântaros. Fique radiante, tão radiante que repeti o que acabara de ouvir. Aí é? Está a Chover na minha terra?
Imediatamente obtive a seguinte resposta: Tua terra não, vives tantos anos fora daqui que já não pertences a este lugar.
Senti pela primeira vez que a nossa terra está enraizada em nós; é algo que trazemos num lugar recôndito mas sublime do nosso Eu. É que quando o meu amigo referiu que eu já não era filha da nação macua e já não pertencia mais aquele lugar, senti uma tão grande necessidade de reafirmar as minhas raízes macuas. E fi-lo veementemente: ao lhe ter dito que vivo em Maputo há mais de 20 anos, mas nada tenho haver com este lugar, nem com as suas gentes, nem com os seus costumes.
Disse-lhe que a minha terra é muito bonita igualmente as mulheres são muito bonitas, referi que na nação macua, as mulheres não são “loboladas” (dote pago pelos homens aos familiares da noiva para casar com uma mulher no sul de Moçambique) e os homens da minha nação, da (nação macua) são circuncidados e tem obrigatoriamente um rádio transístor, uma machamba (lavra) para a subsistência da família, sabem caçar, pescar, e partilhar.
Na nação macua Munherar (vergar a coluna e arrastar as duas mãos no chão em direcção ao velho, até que este a boa maneira macua te diga, fica a vontade) mas antes te pergunta pela tua família, pelo teu casamento, pela colheita e só então agradece o teu gesto e pede desculpa e insistentemente te diz põe-te bem. Fica a vontade, não é preciso estar assim.
Algumas pessoas em alguns lugares (nações) chamam a isso de "velhos e bons tempos", mas honestamente creio que esta bondade é produzida pela severidade experimentada! Quase todos passámos por dificuldades financeiras e a manutenção do básico da vida requer trabalho constantemente. Essa experiência comum produz dentro de grande parte da minha nação um senso de empatia de uns para com os outros. A polidez e a gentileza são muito mais comuns; os direitos da outra pessoa são grandemente respeitados. E, falando de respeito, as mulheres são consideradas damas. Os homens moderam o seu vocabulário quando vêem mulheres por perto e procuram ser cavalheiros, afastando-se ligeiramente do caminho como gesto de respeito ao encontrá-las na estrada, abrindo alas e cedendo lugares nas esteiras para que elas se sentem. Hoje, essas atitudes de cortesia são consideradas anacrónicas, se eu, esquecer que os tempos são outros e me atrever a esperar que me abras a porta ficarei plantada na espera. Perdoa-me amor, pensei que fosses um cavalheiro! Condescendência. Esta é uma palavra que seguramente é de difícil compreensão nos dias de hoje. Estamos muito atarefados correndo atrás das nossas ambições de ter dois carros (ou mais) na garagem e uma antena de TV que capte sinais de satélite! Se entrarem ladrões na casa do vizinho e fizerem uma limpeza lá - é problema deles. Acredita se quiseres, houve um tempo - não tão longe assim - quando as pessoas se respeitavam e se valorizavam. Fazíamos Qualquer sacrifício para nos ajudarmos em casos de necessidade. Hoje, ninguém está muito preocupado com os outros – estejamos bem ou mal! Ser mesquinho hoje é uma virtude, como resultado, poucas pessoas agora param para considerar o quanto Deus tem nos abençoado. Temos muito mais tempo livre do que tinham os nossos pais, proporcionado pelas novas tecnologias! Entretanto, em vez de aproveitá-lo, redobramos nossos esforços trabalhando em horas extraordinárias para ganharmos mais e podermos gastar mais! Uma pessoa famosa, cujo nome não me lembro, disse: "Não há esperança para o homem que já está satisfeito". Isso bem poderia ser o lema em algumas nações hoje. Corremos de um lado para outro, parecendo formigas que tiveram o seu formigueiro destruído, muitos privando-se do sono e outros voando no "piloto-automático" para decidir o que vão comprar a seguir. Poucos parecem satisfeitos com o que já têm e estão literalmente enlouquecendo e tentando adquirir tudo. Vês algo errado neste quadro? A revelação é que estamos no caminho para a destruição.

*Suzete Madeira*
*(Poetisa e contista da nova vaga moçambicana)



conto moçambicano 3: O Baú de Joana

“Baú-Cofre”
(Peça do séc. XVII, em madeira e ferro;
Brasil)

O baú de Joana*

Jordão casou-se com Joana e no dia do casamento Joana levou para sua casa nova um grande baú, e pediu para que Jordão respeitasse a sua individualidade e nunca abrisse o baú.
Durante 50 anos de casamento, apesar da curiosidade, Jordão nunca abriu o baú.
Na comemoração dos 50 anos, Jordão não aguentou e perguntou para Joana o que tinha dentro daquele baú.
Ela então resolveu mostrar para ele o baú. Ao abrir, Jordão viu U$60.000,00 e quatro mazambana do “reino”.
Curioso, ele perguntou por que as mazambana?
E ela então confessou:
"Toda vez que te traí coloquei uma zambana no baú". Jordão, no primeiro momento ficou chocado, mas, depois de meditar, disse para si mesmo: "Até que posso perdoar... quatro mazambana em cinquenta anos, significam uma traição a cada 12,5 anos".
Então ele perguntou o que significavam os 60 mil dólares. Foi quando ela disse:
"TODA VEZ QUE O BAÚ ENCHIA DE ZAMBANA, EU VENDIA".

«Mini – GLOSSÁRIO»
(Ma)zambana: Batata em 2 Idiomas de Moçambique: xi-Ronga (xidzônga) língua original do grande caMpfumo / maPutso (circa 1400 /1500 d.C) –, zambana (singular) = batata "europeia"; prefixo MA para o plural; em emakhuwa padrão de Muhipiti / Nampula: batata
Mazambana do "reino": batatas "europeias"
.
*João Craveirinha*
*(Poeta, contista e artista plástico moçambicano; Um dos textos do livro “Rir faz bem à saúde” a editar brevemente)

terça-feira, novembro 14, 2006

Canto para Angola

"Em tempos de paz"
(Acrílico sem tela,
João Inglês, 1991)

Canto para Angola*

Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.

Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios dos velhos e meninos.

Será o canto do pescador
com todos os sons dos mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.

Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitoka e da Diamang.

Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.
(Assim se fez madrugada)

*Joffre Rocha*
*(poeta angolano; poesia publicada no Tantã Cultural, nº 234, 9/15-Nov-2006)

sábado, novembro 04, 2006

A casa dos 50!!!

"O Parto"
(Tela de Raul Indipwo)
.
A casa dos 50!!!*

Que início de Outono
tão chuvoso,
quase invernoso!
Mas hoje
um lindo dia nasceu.
Olha as crianças que lá fora
brincam!

Está um lindo dia!

Os cães correm,
os pássaros chilreiam
os gatos à janela espreitam
enquanto as crianças,
lá fora,
brincam,
correm,
cabriolam!

Está um lindo dia!

Outubro já lá vai,
entrando um Novembro ofertante
de um São Martinho estival,
antes de um Dezembro
nos jubilar com o Natal,
de Janeiro, o Inverno nos enfadar
e Fevereiro, o Carnaval nos sambar.

Mas até lá,
está um lindo dia!

As pessoas no jardim descansam,
as notícias põem em dia,
os livros devoram,
enquanto isso, as crianças lançam alegria.

Foi um início de Outono tristonho,
quase invernoso;
preparando o tempo,
a hora,
o móbil,
no adubar da metade da vida,
da idade da razão,
aquela segunda idade,
que em Novembro,
inexoravelmente,
e de forma ignóbil,
se apresta
para me consagrar.

E até lá…
Está um lindo dia!!!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(feito em Lisboa, 30/Out/2006 para o dia de hoje que, por acaso, celebra os 50 anos de vida)