segunda-feira, dezembro 24, 2007

Zimbabué - A Luz de Natal na África

ZIMBABWE – A LUZ DE NATAL NA ÁFRICA*

Olhai, senhor ao povo Africano,
Semeando nesta Noite de Natal,
A caridade e a benevolência,
Preservando a vida e suas famílias,

Distanciando a fome e a sede,
Dos grandes massacres econômicos,
Resguardando sob a tua luz celestial,
Os filhos da mãe África.

Assegure aos teus filhos zimbabuenses,
Que fogem dos desastres econômicos,
Imigrantes desprotegidos sem labor,
Neste Natal, alivie com tua misericórdia,

Nossos irmãos zimbabuenses merecem,
A tua acolhida no seio da mãe pátria,
Com acesso e garantia de uma vida feliz,
Fortaleça! O Senhor Deus feito menino,

O manto sagrado em seu povo africano,
Não deixai os homens, mulheres e crianças,
Nesta gloriosa e louvável Noite de Natal,
No desespero de uma guerra econômica.

Veneras os frágeis zimbabuenses queridos,
Vítimas dos fracassos e ganâncias materiais,
Celebras na mente daquele faraó, a caridade,
Enfeitando o governo num estábulo fraterno.

Olhai senhor ao povo Africano!
Derramai no Zimbábue a paz,
Nesta Noite de Natal é Feliz,
E será Feliz pela compaixão divina,
Reluzindo sem cessar novas esperanças.

FELIZ NATAL

*Erasmo Shallkytton*
*(poeta e contista brasileiro; heterónimo de Erasmo José Lopes Costa; publicado inicialmente no Pululu e aqui)

domingo, dezembro 23, 2007

Natal



Natal*

Já não sei dizer Natal como sabia,
quando meu Natal, em minha aldeia,
era um presépio de musgo e de areia
e um menino adorando o Deus menino.

A família inteira, sentada ao borralho,
fazendo horas para a missa do galo
nessa noite fria cujo fogo nos aquecia
e nos dava alento para o ano inteiro.

Vou reaprender a dizer Natal, este Natal,
para que possa voltar a ser
alma de pássaro criança,
nestas memórias de infância.

Para que Deus me dê
nova estrela de Belém
que nos leve ao mais além.

Mas serão precisos muitos desses dias
para que, mais uma vez, possa nascer,
em figura humana, o meu Messias.

*José Adelino Maltez*
*(politólogo, ensaísta e poeta português; do livro de poesia“
Sphera, Spera, Sperança”)

terça-feira, dezembro 11, 2007

E Eu sou Eu

"Sem título"

E Eu sou Eu*

Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu.

Parede, 3 de Fevereiro de 1996

*Delmar Maia Gonçalves*
*(poeta moçambicano)

A Universalidade do Crente

"Universo"
(Desenho de
Deko)

A Universalidade do Crente*

Sou Cristão
Vou a Roma ou a Belém
Vou à Igreja
Ajoelho-me e oro
Leio a Bíblia Sagrada
Invoco Jesus Cristo
Rezo a Deus
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Muçulmano
Vou à Meca ou Medina
Vou à Mesquita
Leio o Alcorão
Oro
Invoco Muahmmad
Rezo a Allah
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Judeu
Vou à Telavive ou Jerusalém
Vou à Sinagoga
Leio o Torá
Oro
Faço a Tahanum
Invoco David e Salomão
Rezo a Adona
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Hindu
Vou à Benares ou ao Ganges
Vou ao Templo
Leio o Gita
Medito e oro
Purifico-me
Invoco Krishna
Rezo a Om e Brahma
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou homem global
Crente de deus
E estou
Em sua busca.

Madorna/Parede, 29 de Outubro de 1994

*Delmar Maia Gonçalves*
*(poeta moçambicano)

A minha Casa

"Caminho de Casa"
(Tela de
José G. Pereira Neto)

A minha Casa*

A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das malambas
É fácil de localizar concerteza,

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!

Glossário:
Becos: ruelas tipicas dos musseques, dos bairros pobres
Kambas: amigos
Malambas: tristezas, amarguras, conversas, palavras
Kaporroto: bebida caseira angolana
Kimbombo: bebida caseira angolana


*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra “Fúria do Mar”; retirado
daqui)

Conversas com um Kamba

"Amigos"
(Tela de
Rui Cabrita)

Conversas com um Kamba*

Outro dia vi-te, algures num canto qualquer
Falavas asneiras
E baboseiras
À mistura
Pensei, talvez loucura
Bem me lembro, vi-te num dia qualquer a não esquecer

Falavas amargurado e revoltado
De coisas que se pensam
E não se falam
Falavas amargurado
E sonhavas com um passado há muito enterrado
Com um passado há muito passado!

Falavas também de um futuro que nunca existiu
Um futuro com que sonhaste um dia
Um futuro utopia
Que até se cansou e desistiu
De ser o futuro adiado
Cansou e desistiu de ser o futuro abortado!

E te revoltavas com a dor vinda dos outros
Pois como sonhador
Já não sentias a tua dor
Mas era a dor dos outros que te afligia
Era a dor dos outros que te atingia
E te revoltavas com a dor vinda dos nossos

Falavas destas coisas, amargurado
Falavas de futuros doutores
Futuros pensadores
Nas ruas feitos ambulantes
Torrados por raios de sol escaldantes
Torrados por porretes de fiscais malvados!

Falavas também a amargura, das tuas manas bonitas
Das tuas manas feitas prostitutas
Feitas kitatas
Numa qualquer esquina da Mutamba
Vindas dos musseques do Cazenga, Rangel, Samba…
Falavas destas coisas meu kamba

Depois lastimaste o estado das estradas
Gerações e gerações de buracos
A prosperarem
Gerações e gerações de crateras a se multiplicarem
E a imundice dos musseques e seus becos
E das suas gentes cansadas!

Depois meu amigo, não mais ouvi de ti
Não mais te vi numa qualquer esquina de Luanda
Ou mesmo desta Angola
Desta terra bela
Depois, recebi uma missiva em que dizias lacónico, “parti
E sou um frustrado fora da banda!”

Glossário:
Kamba: amigo, companheiro

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra "Os Meus Pés Descalços";
daqui)

terça-feira, outubro 30, 2007

Contos da vida real 10: A Efémera Árvore

"Imbondeiro de Angola"
(Foto de
Paulo Arroteia)

A Efémera Árvore*

Qual é a diferença que existe entre um especulador imobiliário e um tubarão?
Nenhuma, são imprevisíveis.
Tinha talvez vinte anos quando a despediram da vida. Era muito atraente, oferecia, tinha ainda muitos promissores frutos proeminentes em frente. Cheios e cheia de saúde e assim morrer tão prematuramente… os frutos saborosos com que nos deliciava e a sua sombra, a frescura terminaram no reino inglório do lixo.
Era uma árvore, uma mangueira altiva e muito orgulhosa, nunca se deitava e não se cansava de viver sempre em pé. Convivia, participava, acompanhava as nossas vidas. Fincou raízes nas traseiras de três prédios, num grande largo que a juventude utilizava para disputar campeonatos de futebol. Junto dela vivia um homem de idade avançada, numa modesta habitação, e porque a saúde lhe desistia contactou um general para a sua venda. Feito o negócio, ainda se sentia o frio das notas bancárias e já alguns militares, mais um arquitecto, e um engenheiro começam a rodear a mangueira. Com curiosidade, olham-na de cima a baixo. Depois faíscam-na como inimiga, soldados trepam-na, e a rir como a festejar grande vitória contra um inimigo poderoso, tratam de esquartejar primeiro os seus ramos mais pesados, mais volumosos. A árvore rapidamente sente o fim aproximar-se, e entre suspiros e lamentos, gritos silenciosos, como só as árvores fazem, sons que os seres humanos não ouvem, não querem ouvir.
E a árvore continua a resistir ao assédio. Heroicamente resiste a cada golpe que sem piedade lhe assestam os seus inimigos poderosos. Já estava quase careca, desnuda. Creio que se sentia muito envergonhada, da sua nudez. Restava apenas o tronco que teimosamente insistia em estar ligado à Terra Mãe, aquela que a viu nascer. E a Terra sentia-se ferida. E num ronco descomunal surgiu uma fera de metal, que lançava fumo por todos os lados, como um dragão invencível… e com uma pá de aço, mergulhou nas entranhas da Terra e retirou as raízes, o esqueleto, o pouco que restava da pobre árvore, deixando lá uma cratera, o que alegrou os militares, habituados aos despojos no campo de batalha.
Depois, entre o tilintar de copos de bebida, o general, os seus soldados, o arquitecto e o engenheiro, beberam à saúde de mais um inimigo aniquilado. A seguir veio a niveladora, nivelou a terra, apagou os vestígios da descomunal batalha. Seguiu-se outra máquina que despejou cimento e areia. Os tijolos e demais materiais já aguardavam para iniciar mais uma obra da especulação imobiliária. Passados poucos dias já ninguém se lembrava que ali existiu uma árvore, uma mangueira. No seu lugar cresceria mais uma árvore de cimento e areia.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Outubro de 2007)

Testamento

"Noiva Muíla"
(Tela de Toia Neuparth)


Testamento*

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo,
oferece-o àquele amigo
que não acredita em deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

*Alda Lara*
*(poeta angolana; poema publicado incialmente no “ABC – Diário de Luanda” e retirado da Antologia Poética Angolana I, col. Imbondeiro, 1963)

Poema

"Rapariga Mucubal"
(Tela de Toia Neuparth)


Poema*

Eis-nos aqui no caminho
Traçado por nossa mão.
Cada braço traz o punho
e cada punho um punhal.
Bandoleiros na vida,
vida errante era o destino!
Nas costas nasceram traços
da vida dura sem pão.
Rugas dos covais da vida
cemitérios da ilusão!...
Mortos, mortos, mas com vida
quase á beira do chão.
Quase à beira do chão
rastejantes, vermes, podres!...
Pobre miséria do mundo
só o dinheiro é patrão.
Só o dinheiro é patrão
dos vermes sujos do chão
Cada verme traz um punho
com uma faca na mão.


*Alexandre Dáskalos*
*(poeta angolano (1924-1962), poema inicialmente publicado no “ABC – Diário de Angola” e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)

Aspiração

"Bicicleta"
(Tela de Nadir Pessoa, daqui)

Aspiração*

Nesta flor sem fruto que aspiramos
Eu vejo coisas que ninguém descobre:
Vejo a raiz, o caule, os ramos
Vejo até o sulfato de cobre.

E vejo coisas que ninguém mais vê:
Vejo a flor a desenhar-se em fruto
E quer ela o dê ou o não dê
É esse o fim por que luto.

*Antero de Abreu*
*(poeta angolano; poema retirado da Antologia Poética Angolana I, col. Imbondeiro, 1963)

sábado, outubro 20, 2007

Verso e reverso

"Verso e reverso"
(Foto de
Goga, Junho de 2007)

Verso e reverso*

Estão comprometidos com o sangue
o verso e o reverso desta medalha:
desfaz-se em palavras
o tempo de esperar tempo melhor
faz-se com nosso fôlego e nossa força
não importa morrer
veneno que brilhou no espaço
importa abrir a raiz
a dor de uma bala atravessando o cérebro
sem mais nenhuma palavra a dizer.

*Álvaro Alves de Faria*
*(poeta brasileiro
homenageado no X Encontro de Poesia Ibero-americana, em Salamanca; poema do livro "Em Legítima Defesa"; retirado daqui)

segunda-feira, outubro 15, 2007

O Livro de Job

"Sem título"
(Tela de Gracinda Candeias, 1990; imagem
daqui)

O LIVRO DE JOB*

Conheci o Job na fazenda dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu rei. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos maldosos. Proliferou sete filhos e três filhas e cabeças de gado aos milhares, e muita gente para o servir. Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu rei, como prova de gratidão, vassalagem.
Um dia o rei visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece um general. O rei pergunta-lhe:
- Donde vem?
O general respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o rei ao general.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta as pessoas maldosas.
Respondeu o general ao rei.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu rei concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado e as suas terras não param de aumentar, graças ao rei. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o rei e demais nobres.
Disse o rei ao general.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já expropriaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O general fez a saudação militar e saiu da presença do rei.
Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do general chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.
Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram tudo. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos três pelotões. Roubaram tudo. Só eu escapei.
Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, veio um tufão que arrastou a casa e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.
Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, e rapou o cabelo porque era moda. Atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros expropriados. Trabalhamos nas nossas terras, o general chega, e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do rei!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o rei.
Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo rei. O general estava presente. Então o rei disse ao general:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?
O general respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o rei ao general:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O general respondeu ao rei:
- A vitória é incerta. A generalização da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Ainda não sabemos como isto vai acabar.
O rei disse ao general:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratarei disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.
O general baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do rei desaparecer no céu, mandou alguns dos seus homens de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem. O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos da madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do rei? Depois do que o general dele te fez? És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar de o general me roubar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao rei.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!
E chegaram alguns amigos que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes roubaram tudo o que tinham. Que o mal era geral. Trabalhar de verdade não era possível, porque roubar é fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.
Apareceram alguns grupos de esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar na terra, porque depois vem um general e fica com ela. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso, e a terra abandona-se. Fica para acampamento de refugiados. As trevas dominam este reino. O rei está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas, que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra contamina-se, nunca mais nela nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores, que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.
E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Ainda me sobrou um tocador de CD portátil. Escutarei umas músicas e dançarei uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário? Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas ficam destruídas. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.
E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida, ainda crê que é um dom divino do rei do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida, e reza para que o seu comandante real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… vou apanhar um bocado de capim e fazer uma casota. Uns nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir, tenho que safar-me. O rei disse que não me abandonaria, mas já estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem no seu reino. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam de ser perturbados, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei, e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um reino maior que o reino. Maior que muitos reinos. Aqui não há pequenos, só grandes. E quem tenta lá entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.
E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes, que depois de encontrados ficam ocultos. As minas são propriedade real, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocar as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e roubar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. Só o oculto permanece, e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre à espreita. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque uma maldita rádio e jornais democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.
O Super-ministro do rei foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente!? Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no rei? Milhões confiaram nele, e vê como estão. A morrerem à fome!.. o rei disse que tens que esperar mais trinta anos para saíres da miséria… creio que o rei depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.
Entretanto o Super-ministro deu parecer aos arquitectos e engenheiros que construíam um bruto condomínio nas terras, que já não eram de Job. Serviria para alegrar, para lazer da nobreza. Para passarem brutos fins-de-semana, na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.
Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Super-ministro continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.
- A questão fundamental da vida é a grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Dá muita satisfação a quem o possui, e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais, até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.
O Super-ministro vai ao Hummer, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job.
- Sabes Job… o nosso reino é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende, ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite, e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!
Perto, talvez apelando aos antepassados, cantando a sua desdita, a negra-bantu demonstra, desmonta as coxas muito salientes, e os seios fartos, muito dissidentes, que equidistantes bamboleiam, falantes. O Super-ministro regozija-se com a beleza natural, espontânea da bantu.
- Job… explicar estas coisas não é nada fácil… tornámo-nos mais puros e justos que o Criador. Já não confiamos em ninguém. Nem em nós confiamos… tornámo-nos num metal cheio de ferrugem, com os alicerces a desabar a todo o momento. Resta-nos ainda o pó para respirar. Vivemos num imenso holocausto, e há felicidade nisso. Vivemos os últimos dias das tormentas tecnológicas, das promessas… que finalmente o ser humano alcançaria o bem-estar e a felicidade eternos. As desgraças atingiram tal dimensão que os meios existentes já não satisfazem a demanda. Inventámos uma sociedade onde só existe a ira e a loucura. Tentamos lançar raízes, mas as águas sobem e não as deixam viver. Chegam com tal força que despedaçam tudo o que encontram pelo caminho. E não há quem nos livre. Depois vêm os famintos… o instinto de sobrevivência que os transforma em salteadores, predadores. E da terra não vem mais trabalho, porque dela só resta pó. E sem trabalho que fará o homem? Espera que a fome chame a morte. Esta vem e anuncia a agonia. E quem se salvará? É por isso que necessitamos do nosso rei, de alguém que nos dirija. Só ele entende os nossos anseios e faz obras para nos contentar. Se a chuva é demais a culpa não é dele. Também não é culpado pela inundação dos campos. Quando isso acontecer procurem um lugar alto para se salvarem. Estendam as mãos e aguardem, que alguma coisa virá. Porque será que os ricos são ignorantes, e os pobres sempre sábios? Porque na pobreza se aprende a viver, e na riqueza se aprende a destruir. O pobre conhece as veredas da escuridão, e o rico nela anda às apalpadelas, sempre com a espada preparada para matar. O pobre vive na esperança, o rico vive no desespero. O pobre vive com medo dos castigos do nosso rei, e nós os ricos, recebemos prémios. Não dá ir na conversa das ideologias políticas, e nos aventureiros que são muitos. É por isso que ficamos sem nada. Talvez esses da ajuda da paz te arranjem um bocado de sabão, óleo, e arroz. Como o Mal está em todo o lado, eles também podem ajudar com qualquer coisa. Seja como for, nunca te desvies do Mal. Ele está no nosso coração. Vamos prolongar a vida das pessoas até às eleições. Depois podem correr como entenderem… da fome claro!
Job, ficou horas astronómicas, canónicas, a fitar o infinito cosmogónico. Job, sentiu eclipsar-se, não conseguia explicar-se o porquê do aparecimento do Homem na Terra. O porquê de tanta trama que tal criatura produz tanto drama. Job, ficou com a cabeça em pantanas, no Paleozóico, não conseguia discorrer o pântano do comportamento andróide. Conseguiu absorver o álefe das borrascas humanas, e tocou o céu.
- Os amigos são como as ondas do mar. Quando chegam abraçam-nos, quando vão… não voltam mais. São como corvos que aguardam pacientes… como as silenciosas pirâmides egípcias. No alto dos seus templos esperam pela colheita de quem plantou. Posso firmar que a história da humanidade, é a história de quadrilhas selvagens bem organizadas.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Junho de 2007)

Vento

"movimento, aite, tormenta, inmensidad, desasoguiego"
(Tela de
Judit González Barcina)

Vento*

Quando nascemos somos comunistas, mais tarde optamos, somos socialistas, finalmente damo-nos conta, somos neoliberalistas.
A essência do germinar das lápides estiradas, atiradas ao abandono. Reencontradas nas cavernosas, cavernas escusas, depois iluminadas pela alta voltagem inofensiva do sublime amor.
A história humana é o calvário, purgatório, martírio do amor da proporção divina nas listras zebrais, equilibradas entre o amar e viver Condenámo-nos à nascença a amar, mas recusamos, teimamos em odiar Não é ser, é ter alguém para confiar, divino em que acreditar Temos que apreender a dizer não, a este faz-tudo de amar clonado em vão. Evitemos que os vendedores revendam o ardor da paixão. Não podemos resumir esta contenda nos gestos augurais das vestais continentais.
As plantas ondulam porque amam o vento. Se este faltasse, o ódio reinaugurar-se-ia de verde amarelecido.
As asas do estímulo vivencial, são código genético desconhecido, que nos faz voar, perfumar, o aroma para amar. E quem isto ousar proibir, será proibido. Os sensores do amor quando activados ficam desordenados. No futuro serão bloqueados, porque perigarão os instrumentos sensíveis das naves interplanetárias. Será imaginado, recriado um longínquo planeta amoroso, para amantes eternos. Os circuitos do amor desafiam as leis e a velocidade física. Não há, não haverá máquina que calibre a sua invisível intensidade. Porém, ele esforça-se e tem mais que força, perenidade para viajar pelo infinito do Universo. Deixai que os sedentos bebam da sua água pura, para que a impureza da poluição das águas não cause pandemias, e aconteça a sua extinção. Apenas um minuto de imensidão amorosa, vale milhões de anos planetários. Para quê lutar, se estamos sempre presos nos tentáculos das areias movediças, acariciantes, desse eterno sentimento. Tudo se extingue, parece em vão, o amor não! O amor tem muitas pernas, mas quatro estão sempre presentes: duas femininas, e duas masculinas. O útero da deusa mãe aguarda o seu convidado, e os pés dos amantes movem a escala Richter.
Promete que amarás o amor, e nunca te cansarás da sua tentação. A diferença que existe entre o rico e o pobre, é que o pobre é rico de amor. E o rico vive na pobreza espiritual à procura do amor. A plenitude virá quando soarem as badaladas cardíacas, rítmicas do relógio bioquímico do nosso coração. Não haverá tormenta que nos domine, que nos separe, porque estamos acorrentados, desmaiados nesse sem sentido, perdidos nos outros sentidos.
Que sejam santificados os mártires do amor, e que nos próximos tempos um salmo planetário seja cantado na cosmologia. E dos suicidas infelizes apenas porque amaram… serão edificadas estátuas de beijos com luz estelar aos viajantes espaciais com a inscrição:
AOS INFELIZES DO AMOR TERRENO QUE APENAS AMARAM.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Agosto2007)

segunda-feira, setembro 24, 2007

Pólvora

"Bromélia"

Pólvora*

Casa nova
mobília em caixas de papelão
ainda empilhadas na sala
Displicentemente você me pergunta:
“aonde boto a T.V.?”
Inadvertidamente eu respondo:
“no lado zen da vida”
Pra que!


*Cláudio Portella*
*(poeta brasileiro; poema retirado
daqui)

terça-feira, setembro 18, 2007

Recordo

"Sem título"
(Tela do angolano Álvaro Macieira)

.Recordo*

Recordo
aquela terra africana,
rica e esplendorosa
gigante e formosa.

Recordo
esta terra angolana.
Seus filhos,
hoje chagados,
outrora
felizes e quase unidos!

. Recordo
aquelas matas paradisíacas
e luxuriantes.
Os rios caudalosos,
torturantes
de belas margens floridas!

. Recordo
aquelas quintas e fazendas
roças e quimbos,
os cafezais,
e os bananais!

Recordo
aquelas tortuosas picadas
ombreando belas e serpenteantes estradas,
o rico mar,
verde-azulado e límpido
desfazendo-se em espuma
nos belos e quentes areais
das praias onde me desfiz!

Recordo
o contraste habitacional
que me fez pessoa de consciência.
As magníficas sanzalas,
por onde passei;
os quase indignos mas honrosos musseques,
por onde me desencontrei;
os arborizados bairros coloniais,
onde morei!

Recordo
aquela terra africana
que,
do mar à fronteira leste,
de Cabinda ao Cunene,
suas matas,
pântanos,
a todos nós,
sempre e sempre desafiava!

Recordo… Recordo

Recordo
e não quero deixar de recordar
de a amar,
de a desejar,
mesmo que alguns,
ínscios,
tudo façam e tudo orquestrem
para nos olvidar,
para nos calar!

Recordo… Recordo

*Lobitino Almeida N'gola
Lisboa, 1980.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Contos da vida real 9: A Luz da Minha Rua

"Luz banhando Ombaka"
(Foto de uma esplanada de Benguela; foto©
aNa)

A Luz da Minha Rua*

Aqui, na minha rua - Rua 12, no antigamente chamado Musseque dos Embondeiros - de luz, nunca houve razão de queixa. Vem de um lado, fraquinha e própria para alumiar mortos, vai do outro, numa de arrebenta geleiras capaz de torrar vivos
Antes do Natal - de todos os natais - a luz começa a soluçar: dá e não dá, acende e não acende, foge de dia e volta lá muito pela madrugada. Ou é da emoção das prendas, do nervosismo das festas, ou do cansaço das compras. De qualquer modo: melhor que muitos estamos nós, que de luz que se quer luz, não a têm, nem de noite, nem de dia.
O que a gente está, é mal habituada. Esquecemo-nos da nossa infância: do calor a bater no zinco, a torrar a cama da noite e do candeeiro a petróleo. Esquecemo-nos, principalmente, do céu. Do tempo em que a escola ensinava até a estrela Polar que só havia na Europa e a outra, que morava aqui, e se chamava Cruzeiro do Sul.
Ainda houve quem, deitando postes abaixo, nos tentasse reabituar à beleza dos céus nocturnos e acabou por obrigar esta luz-menina à vida pouco recomendável que hoje leva: dia e noite folgando em casa de gente rica, chega à nossa rua bêbada de sono, pelas duas ou três da madrugada e dorme o dia inteiro.
É uma luz que anda na vida a tropeçar na sua própria escuridão. Uma luz que nunca mais dá à luz, uma luz m´baka, sem filho nem gravidez. Uma luz doente, magra e amarela, com uma hepatite daquelas, que quando se chamava icterícia só se curava com burututo e chá de barbas de milho. Será que temos mesmo de começar a lavar a nossa luz, a luz da nossa rua, com burututo e barbas de milho?
Enquanto lava e não lava é como dizem os antigos: "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer". O que cresce a quem se deita cedo, não sei, mas sei como os namorados se namoram mais namorativmente nesta escuridão em que estamos.
Talvez por isso, ande o pai da rapariga pela rua aos tiros, porque quer matar o rapaz (mas não mata, senão fica sem o genro) e acabem todos amigos, numa festa de casamento daquelas antigas. Não como as de antigamente, que eram assim: "comer até rebentar e o que sobra deita fora", mas das antigas de agora, onde o que ainda não sobrou, já está a ir rapidamente no deita a dentro dos sacos de plástico.
A luz da minha rua é assim: às vezes vem, às vezes não vem. Quando vem, a gente agora nem vê os buracos, porque o Senhor Governador mandou alisar a rua, quando não vem, quem ainda lembra a geografia do céu, pode deleitar-se no escuro com o cruzeiro do sul.

*Dario de Melo*
*(Contista angolano, há quem considere o pai do moderno conto angolano; texto retirado
daqui; 'Ombaka' ou 'Mombaka' ou 'M'Baka' ou 'Benguela' é a terra natal do autor)

terça-feira, setembro 04, 2007

Para ti

"I ♥ I Go"
(Tela em acrílico com colagem;
Mary Lou Zelazny, 2006)

Para ti*

O tempo passa
A vida acontece
A distância separa
As crianças crescem
O amor diminui
Os corações quebram-se
As carreiras terminam
Os trabalhos vêm e vão
Os colegas esquecem-se dos favores
Peço-te para vires, respondes que vens mais tarde
Queria que estivesses sempre lá
Não importa por quanto tempo...
Nem qual é a distancia
Tu nunca estás a mais...
Preciso que estejas lá
Pelos teus caminhos, sejam quais forem, estarei sempre lá,
Puxando por ti, alegrando-te, orando por ti, intervindo, esperando de braços abertos até
ao fim da tua caminhada.
Às vezes quebrarei as regras
Caminhando ao teu lado
Levando-te ao colo.
O mundo não será o mesmo se estiveres sempre lá
E nós também não
Quando decidi enfrentar o teu mundo
Não tinha ideia dos desafios, dos duelos, nem das alegrias incríveis que ia encontrar
Nem sabia do quanto iria precisar de ti.

*Suzete Madeira*
*(poeta moçambicana; poema inédito, 31/Agosto
/2007)

sábado, agosto 25, 2007

Que belo é amar

"The embrace"
(Tela de
Pablo Picasso(1881-1973), de 1970)

Que belo é amar*

Que belo é amar
quando se ama a dois,
triste é acabar
e sofrer o que vem depois.

Mesmo sem alarde
ele toca toda a gente,
é esse fogo que arde
e essa dor que não se sente.

Fecunda a loucura
no horizonte de um beijo,
toda a gente o procura
como único desejo.

É a fonte da vida,
da morte e do além.
Em sua guarida
somos sempre alguém.

Encontramo-lo no cemitério
onde o ódio jaz.
É sempre um belo mistério
que nos ama e dá paz.

Renasce no dia a dia
e é incólume ao mal.
Por renascer em cada poesia
é eterno, é imortal.

*Orlando Castro*
*( jornalista, poeta e contista angolano-português; poema inicialmente publicado
aqui)

sexta-feira, agosto 24, 2007

Conto angolano 6: A Sexa e o Bâmbi

"Amizade"
(Tela de Pablo Picasso; penso estar no Museu Hermitage, SanPetersburg)


A Sexa e o Bâmbi*

Amigo Sexa**, em testemunho de amizade, convidou o compadre Bâmbi** a um passeio a sua terra. Dias depois, amigo Bâmbi, para experimentar a cordialidade de amigo Sexa, confidencia-lhe:
- Sabes? Gosto muito da tua irmã!
- Se gostas dela, espera, que eu te preparo as conversas.
Amigo Sexa transmitiu a revelação à família. A rapariga anuiu. E amigo Bâmbi passou a namorá-la.
Mais uns dias volvidos, amigo Sexa anunciou ao amigo a abalada, tinha de retomar o serviço. Amigo Bâmbi, para provar novamente a estima a casa, finge-se doente. O amigo adia a partida.
Amigo Bâmbi continua sem se levantar. Consultam-se quimbandas. Mas todos declaram que aquilo não era doença, antes um fingimento.
- É compadre, tu afinal não tens nada! Vamo-nos embora! – Roga-lhe amigo Sexa.
Amigo Bâmbi suspira:
- Estou envergonhado compadre!
Daí a dias, fazia-se morto. Amigo Sexa prepara-se para arranjar uma tipóia – esteira atada a um pau – para o enterrar. Antes de sair ainda lhe diz ao ouvido:
- É compadre, vamos enterrar-te! Por que não te levantas?
- Auâ! Enterrem-me já! Estou envergonhado!
- Mas estás envergonhado de quê? Não roubaste, não puseste crime, não deves a ninguém…
- Deixa-me só, compadre! Estou envergonhado!
O corpo é deposto na tipóia. Já na altura do enterramento, o amigo Sexa introduz-se na cova para incomodar o amigo.
- Compadre, vamos mesmo enterrar-te! Não está a ouvir que já te pusemos na cova? – Murmura-lhe pela derradeira vez.
- Já disse: enterrem-me! Estou envergonhado!
- Mas vergonha de quê? Não roubaste, não puseste crime, não deves a ninguém… Vamos só, aqui não há parvoíce! Levanta-te, morres mesmo!
- Exi! Fico mesmo! Estou envergonhado!
Perante tal obstinação, amigo Sexa sacode o companheiro. Mas nada! Para o demover, pede aos assistentes que o enterrem também.
A família opõe-se. Eh! eh! eh! Estava ele porventura doido ou bêbado para querer enterrar-se vivo? Saísse do buraco, deixasse o outro, que já tinha morrido!
E amigo Bâmbi, pela sua vergonha, acabou por ser enterrado.

(Conto narrado por Virgínia Francisco dos Santos, uma septuagenária do Dondo)

** Sexa: cabra selvagem de pequeno porte que abunda sobretudo nas matas do Norte do país; corsa.
** Bâmbi: cabra selvagem que prolifera por todo o país: cabrito do mato


*Óscar Ribas*
*(contista, ficcionista e etnólogo angolano (Ago/1909-Jun/2004); conto retirado no livro “Misoso”, 1º volume)

Quem sou eu?

"Entreposto de escravos"
(Aguarela de
Johann-Moritz Rugendas, representando um comboio de escravos estacionado em um rancho no interior do Brasil do século XIX)

Quem sou eu? (Bodarrada)*

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho;
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no pletro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não - das Kalendas;
E com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções.
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante
Que blasona arte divina
Com sulfatos de quinina
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas.
Que, sem pingo de rubor
Diz a todos que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
- Faz a todos injustiça –
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista –
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza
Vive à lei da natureza
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas, num momento
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfurnados
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me Tarelo
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda casta
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres.
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres, Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas damas emproadas
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis
Brigadeiros, Coronéis
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar-e-guerra
- Tudo marra, tudo berra –
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Syringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove, quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E segundo o antigo mito
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!


Nota: No dia que se lembra a sua morte, um poema ainda muito actual. Aqui se deixa o sentido de algumas expressões:
Torvelinho = Corrupção;
Pepineira = Roubo do dinheiro público;
Arte do Vieira = Enganar;
Blasonar = Mentir;
Lorpas enfurnados = Vacilões;
Jove = Júpiter;
Bodarrada = título por que era conhecido este poema


*Luiz Gonzaga da Gama*
*(poeta
revolucionário brasileiro (1830-24/08/1882) que lutou contra a escravidão e tudo o que a ela estava associado; poema retirado daqui; também surge como “Luís Gama”)

domingo, agosto 12, 2007

Aos Poetas

“Violeiros”
(Tela de
Regina Pena)

Aos Poetas*

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

*Miguel Torga*
*(pseudónimo de Adolfo Correia Rocha (!907-1955), poeta e contista português no centenário do seu nascimento; poema retirado
daqui)

segunda-feira, agosto 06, 2007

Os meus pés descalços

"Estrada da samba"
(Tela sobre Acrílio, de
Mário Tendinha “paterhu”)

Os meus pés descalços*

Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus pés ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantar voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!

Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas de alimentos!

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema retirado da obra “Os Meus Pés Descalços”)

Carta de um Angolano no estrangeiro

"The First Wave of the Great Migration"
(Tela sobre a
história da emigração africana nos EUA, de Jacob Lawrence [1917-2000])

Carta de um Angolano no estrangeiro*

Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra "A Fúria do Mar”)

sábado, julho 14, 2007

Rotina do silêncio

"Sossego"
(Foto do interior do Convento de Cristo, Tomar; daqui)

Rotina do silêncio*

Eu vos digo:
Existências esquecidas
Nos trilhos citadinos,
Quando o silêncio acompanha
O caminhar da vida,
O ruído imperceptível incomoda.

*Paulo Seco*
*(poeta angolano; tema retirado do livro “Laços Verticais)

terça-feira, julho 10, 2007

A Lua

"Lua Vermelha (Red Moon)"
(Lua sobre Baía de Guanabara; Foto de Jim Skea)
.
A LUA*

bate em tua porta
golpeia a lua oblíqua
lua nua da rua
formosa estrela do crepúsculo
se finges que não ouves
não sou eu quem te procura
não sou eu que ando na rua
é minha saudade viúva
tão teimosa
tão andarilha
tão vadia
transformou-se em aura
virou brisa
tornou-se fria
peregrina a tua procura
anda despida e geme
soluça pelas veredas
os anjos se desmancham
debruçados no destino
da minha nostalgia
abandonada e triste
se finges tanto
não é para mim
é para ela que devias
abre a alma
ampara essa lembrança
ela já não me serve
dentro dos livros
por entre versos
perdida
tão esquecida
nem lembro mais de mim
coronas cansadas
flamejam frágeis
os cristais de gelo irisados
que vagavam com elas
agora são esse véu
que se derrama
vertígios de claridade
beijando tua porta abre

*Edmir Carvalho*
*(poeta brasileiro; poema retirado daqui)

quarta-feira, junho 20, 2007

Tal como a chuva

“Dançarina Kilundukila”
(Foto de Adão Marcelino; in: Boletim da Casa de Angola, 2003)

Tal como a chuva*

Tal como a chuva fustiga
O corpo sedento da terra
E penetra de água
Uma gota doce
A densa folhagem
Sobre a aridez oculta

Assim a carne alarmada
Pelos fascínios que excitam os sentidos
Exige
Ávida
Açoites na pele esticada
Do tambor aquecido e seco

Os ouvidos reclamam o rufar
Nos tímpanos
Do odor do barro vivo
Moldado pela química húmida
Ao sabor surdo do pingo
Batendo contra a poeira
E levantando poalha.


Tal como a chuva
Os olhos
Ah! Os olhos
Orbitam rejúbilos incandescentes
Com as promessas de tanto espectáculo
Piscando
Imóveis que mal se vê
E falam


Luanda, Agosto 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Poemas de Junho

“Viúva da Quissama”
(Tela de Neves e Sousa; da série “Mulheres Angolanas”)


Poemas de Junho*

Chegam-me os poemas de Junho devagar
uma letra
depois outra…
Surpreende-me uma vogal
uma vírgula
Sinais de um tempo que se escreve
com palavras frias
mas aconchegantes
Frases inteiras por vezes
outras quebradas
vindas de longe
partidas pela viagem do sol
que deixa os dias mais curtos
são anúncio de um novo ciclo
ensinando a soletrar a vida
Que nos devolve o lugar de um qualquer objecto prosaico
que já teve outros lugares
noutros junhos


Luanda, Junho de 1998

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Cântico

"Dançarinos tradicionais"
(Tela de Tylkar, 2000)


Cântico*

eu canto ao avesso teu verso em meu canto
e canto meu verso em teu canto ao avesso
não canto no verso esse canto ao avesso
nem canto ao avesso esse verso em meu canto
se canto o avesso arde o verso que canto
avesso ao meu canto o teu canto faz verso
e avesso ao teu canto o meu canto ousa um verso
um verso de um canto que avesso ao teu canto
no verso e no canto e no avesso do canto
avesso o meu canto ao teu canto une em verso

se avesso arde o canto no canto sem verso
e o verso sem canto no avesso do canto
em verso ousa um canto ao avesso no canto
que avesso esse canto em seu canto quer verso
no avesso do canto teu canto diz verso
sem canto ou avesso o meu verso diz canto
teu canto urde avesso outro verso em meu canto
um canto sem verso sem canto ou avesso
que em canto unge o verso num canto ex-avesso
se eu canto ao avesso teu verso em meu canto


*Márcia Maia*
*(Poetisa brasileira, retirado
daqui)

domingo, junho 10, 2007

Portugal colonial

“Kores de África”
(Tela de
António Miranda)

Portugal colonial*

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci
nem a morte
que depois comi
nem a vida
repartida
pelos cães
nem a notícia
curta
a dizer-te
que morri.
Nada te devo
Portugal
colonial
cicatriz
doutra pele
apertada.

*David Mestre*
*(Poeta angolano (1948-1998); este poema foi escrito quando, em Portugal, em 1975, se afirmava que tinha sido morto por tropas sul-africanas; do livro "Subscrito a Giz – 60 Poemas Escolhidos")

quarta-feira, junho 06, 2007

Uma só mulher

Mil Emoções Mil Paisagens Culturais
(Acrílico sobre tela de
Don Sebas Cassule)

Uma só mulher*
(para ti)

Eis uma mulher
Uma elegia única
De todas as eleitas
Compondo a vida
Em estrofes poderosas
Iluminando a penumbra baça
Onde se espojam os nús

De quantos homens foi feita?

De sua majestade
Faíscam as evidências
Da tempestade
Que agita o céu de breu
E o mundo cão
Que a rodeia

Emudecem as musas
Por vulgares e
NADA!

Nem o artifício subtil
De suas dádivas
Pode ocultar
A arte de um só poema

NADA! – Só tu
Entre tantas vidas
Sem sentido


Luanda, Julho de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Poesia Virgem

Mãe África
(Óleo sobre tela de
Valeiro Alberto Luís)

Poesia virgem*

Que poesia espera
A virgem negra
Guardiã de Pandora
Para colocar na ara
Dos sacrifícios
Sua mística de inocência
Seu tesouro
Único e mudo?

Que silêncio é a arte
Profana do sacerdote
Tomando as primícias?

Que silêncio este que explode
Em cada corpo impoluto?
Que vãs palavras
Vãs no perímetro da minha voz
E teu sentir
Poderão seduzir
De ouvido
O que só a magia estática
Do indizível
Pode murmurar?

Luanda, 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Palavras como resgate

Mdemba Fragmentos
(Óleo sobre tela de
Tozé)

Palavras como resgate*

Eis aberto meu baú
de manhãs de oiro
que ofereço como resgate

eis
transbordante
o cálice da cicuta
profecia desta água
que beberei de um só trago
para que ninguém mais
prove sua amargura

rompi da escuridão
com o segredo deste destino
para escrever no mundo
minha busca dos limites da saudade

(e como os pássaros de Octávio Paz
canto sem o saber
meu entendimento é a garganta).

Luanda, Agosto de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)