terça-feira, setembro 18, 2007

Recordo

"Sem título"
(Tela do angolano Álvaro Macieira)

.Recordo*

Recordo
aquela terra africana,
rica e esplendorosa
gigante e formosa.

Recordo
esta terra angolana.
Seus filhos,
hoje chagados,
outrora
felizes e quase unidos!

. Recordo
aquelas matas paradisíacas
e luxuriantes.
Os rios caudalosos,
torturantes
de belas margens floridas!

. Recordo
aquelas quintas e fazendas
roças e quimbos,
os cafezais,
e os bananais!

Recordo
aquelas tortuosas picadas
ombreando belas e serpenteantes estradas,
o rico mar,
verde-azulado e límpido
desfazendo-se em espuma
nos belos e quentes areais
das praias onde me desfiz!

Recordo
o contraste habitacional
que me fez pessoa de consciência.
As magníficas sanzalas,
por onde passei;
os quase indignos mas honrosos musseques,
por onde me desencontrei;
os arborizados bairros coloniais,
onde morei!

Recordo
aquela terra africana
que,
do mar à fronteira leste,
de Cabinda ao Cunene,
suas matas,
pântanos,
a todos nós,
sempre e sempre desafiava!

Recordo… Recordo

Recordo
e não quero deixar de recordar
de a amar,
de a desejar,
mesmo que alguns,
ínscios,
tudo façam e tudo orquestrem
para nos olvidar,
para nos calar!

Recordo… Recordo

*Lobitino Almeida N'gola
Lisboa, 1980.

2 comentários:

ANA MATHAYA disse...

é sempre bom quando o nosso desejo de voltar não se cala, mesmo que essa volta seja em amálgama de palavras, recordações!
Abraços

Madalena Barranco disse...

Olá Lobitino, que coisa mais linda de poema! O poeta se desfez literalmente nas paisagens e agora revive na própria letra do amor à terra... Parabéns pela poesia e pelo blog. Abraços