quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da Poesia: As Águas

"Floresta do Maiombe, Cabinda"
(Foto
daqui)

As Águas*

A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!

(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)

Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!

Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Ate que ao olhar brando e calmo da manha
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!

Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...

(Sobre o Dia Mundial da Poesia, ver apontamento no Pululu)

*Onésimo Silveira*
*(poeta caboverdiano; poema de “Hora grande”, 1962)

segunda-feira, março 19, 2007

Saudade

"Pai"
(Três letras simples,
daqui)

Saudade*

aquele que percorreu
Caminhos errôneos!!??
Mas que me ensinou
A seguir o caminho
Da dignidade, do respeito
E da sabedoria.

Que me mostrou a vida
De maneira doce
Que acalentou sonhos
A meu respeito
E não pode vê-los
Se concretizar.

Que apesar dos erros
Tinha orgulho de ser PAI
MEU PAI!!

Não posso ouvir agora
Seu esbravejar...
Por não ter me comportado.
Ver seu sorriso...
Por ter eu ter alcançado o sucesso
Por menor que fosse.

Sentir orgulho
Ao pronunciar meu nome
Ou comentar meus feitos
Tão pequenos

Ver o brilho dos seus olhos
Ao me ver pregar a verdade
Os tapas, quando achava
Que o que fiz não estava correto
Embora muitas vezes estivesse

É pouco...
O que me faz lembrar de você
Do seu jeito, do seu pensar.
Pois Deus o levou muito cedo
Para longe de mim.

Sinto sua falta...
Das nossas conversas,
Do que vivíamos.
Dos momentos que passamos juntos.

E só uma palavra resume
Todos os meus sentimentos.

SAUDADE..SAUDADE...SAUDADE.
.
*Conceição Chaves*
*(jovem poesia brasileira; poema retirado daqui)

domingo, março 18, 2007

Contos da vida real 8: A Epopeia de Gilgamesh

"Mulher angolana"
(Foto de P. Valente, retirada
daqui)

A Epopeia de Gilgamesh
Crónicas do reino de Abdera, algures no Golfo da Guiné*


A minha sobrinha sentada, estava com a cabeça e as mãos encerradas nas coxas. O segundo filho de apenas dois anos de idade, encostava-se a ela procurando os afagos cansados, inexistentes. A criança respirava a miséria constitucional permitida do paludismo e da fome sempre épicos. Sabia, quem não sabe o que se passa? Deixei que ela apresentasse os seus lamentos.
- Sambita… esses olhos esfomeados, a fome persegue-te…
- Sim… a chuva arrastou a minha casa… arrastou tudo… fiquei invisível, sem nada.
- E não procuraste o auxílio do governo?
- Para quê? Se fosse filha de general ou outro que tal.
- E o teu marido?
- Oh… tinhas razão, só sabem fazer filhos, abandonou-me, foi para casa de não sei onde… despachei-o para o espaço… não quero mais nada com homens.
- Sim, estou a ver. Sambita, insisto, devias ter aproveitado a Arca de Noé ministerial, governamental.
- Já não há quem acredite nessas coisas. Essa Arca, copiaram-na da epopeia de Gilgamesh. Esta gente é como o dilúvio… sempre a arrasar, a arrastar.
Fui nas gavetas da minha esposa, roubei-lhe alguns biquínis e soutiens e outras roupas que achei desnecessárias. Juntei tudo num saco de plástico grande.
- Sambita, toma… da pouca comida que temos ainda chega para ti e para a criança.
As faces dela e da criança pareciam uma filial de Darfur. Comeram até se notar que os olhos irradiavam aquela satisfação conhecida e contudo desconhecida da saciedade. Se os políticos passassem fome, decerto sentiriam na alma os anseios dos esfomeados. Mas, politico é para discursar, falar muito até enjoar. Politico é o segredo não divulgado da clonagem milenar.
- Tio, preciso de dinheiro… a criança está com dois por campo… o paludismo mata.
- Então, ninguém da família te ajuda?
- Tio, já não existe família, não existe nada. Só petróleo, diamantes e muitas amantes.
- É pá!.. só tenho duzentos dólares… meu Deus… dou-te cem… sabes, tinha este dinheiro guardado para no caso de ir parar doente a um hospital, porque sem dinheiro morremos lá na porta deste inferno independente rejuvenescido.
Entreguei-lhe o dinheiro e se abraçámos. Os abraços dos miseráveis, a Teoria da Relatividade, e a Teoria Quântica não os conseguem relativizar nem quantificar.
A tarde estava meia, o sol abrasava-a, o mar recebia o excesso de temperatura da terra. Mais nuvens de Gilgamesh atestavam os depósitos com água. Mais torrentes diluvianas se preparavam para assolarem os miseráveis. A miséria e a fome perseguem os governados, os governantes não. A fome é uma dádiva divina. As sagradas escrituras dizem que para atingir o reino dos céus é necessário muito sofrimento, muita fome. Os ricos e poderosos estão eternamente protegidos por um Deus invisível, visível, compreensível, incompreensível.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, 2007)

segunda-feira, março 12, 2007

A Ilha

“Sem título”
(Tela de B.J. Castro, retirado
daqui)

A Ilha*
.
A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba
e mortal das cobras.

*Maria Manuela Margarido*
*(poetisa santomense (x-2007); poema da obra “Alto como o silêncio” 1957; retirado
daqui)

quinta-feira, março 08, 2007

Mulher

"Mulher Mucubal"
(Escultura do angolano
António Magina)

Mulher*

Mulher, aí mulher.
Gorda, magra,
Preta, Branca, Amarela, Mestiça
Cristã, Muçulmana, Ímpia
Sejas o que te quiserem chamar
Tu és mulher
E ser Mulher é ser especial.
E é-se especial
Quando se é mulher.

Mulher, formosa
Andar felino
Falar tranquilo
Olhar ardente
Coração grande
Amor eterno
Alegria infinita
Braços abertos
Colo quente
Paciente
Serena
Esta é eternamente a mulher
Lutadora
Aguerrida
Sofrida
Mas alegre
E contínua
Porque é mulher
Tomara te entendessem
Mulher
*Suzete Madeira*
*(moçambicana; poema inédito, 8/Março/2007)

Poema à Mãe Angolana

"Rainha Nzinga Mbandi ou Jinga"
(Imagem adaptada a partir
daqui)

"Poema à Mãe Angolana*

Avança Mãe Angolana
E dá o melhor de ti própria
Nesta luta de vida ou de morte
Avança pelos rios perigosos
Pelos pântanos lodosos
Pela savanas sem fim

Avança pelo incomensurável horror da guerra
Entre a chuva de bombas que ilumina a terra
Mas avança porque é necessário

Avança com teus braços feitos asas
Abertas sobre o solo pátrio
Para proteger os teus filhos

Não te detenhas nos gemidos do vento
Não prendas à forma das flores
Sublima o amor neste momento

Avança Mãe Angolana
Que a tua coragem fará vacilar os soldados
Os soldados que já foram meninos
Os soldados
A que o fascismo tolheu a vontade
E que caminham sobre os cadáveres das crianças
Com risos sarcásticos de vingança...

Avança Mãe Angolana
Na terra ensopada de sangue
Dor e lágrimas
Causadas pela guerra

Que ela florescera
Sustentada pelo teu querer
E terás para os teus filhos
O sol aberto nas pétalas
E a serenidade dos heróis
Depois de ganha a batalha.


*Eugénia Neto*
*(poetisa luso-angolana,
daqui)

Uma Negra Convertida

"«Nana»; Grandmother brings forth all life"
(tela da pintora
Elder Rowan Fairgrove, retirada daqui)

Uma Negra Convertida*

Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...

Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...

Não xinguilas, no óbito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...

Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...

Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!

*Mário António*
*(poeta angolano, retirado daqui)