quarta-feira, dezembro 29, 2010

Conto da vida real 12: Mangueira, a minha árvore natalícia

"Mangueira"
(Desenho de Eduardo Albini, daqui)

Depois de ler o poema “Minha Árvore de Natal” recordei-me que também eu*, quando kandengue tinha uma árvore que muito bem poderia ser igualmente a minha grande Uti de Natal.

Assentada, provavelmente pelas mãos hábeis do Destino, no meio do meu bairro, uma frondosa e magnífica árvore era a testemunha muda das nossas brincadeiras darias e, principalmente, das oviteke brincadeiras natalícias.

Ao contrário da Europa, em África, pelo menos no meu bairro e na minha cidade as prendas, quase sempre pobres mas eram as nossas, eram abertas na manhã do dia de Natal.

Era ver os kandengues da minha idade à volta do seu tronco e sob a enorme copa da árvore, brincar com os carros de lata – por vezes e quase sempre feitos a partir de latas de azeite e de leite em pó –, ou rodar os brilhantes aros de pneus de bicicletas arrastados por arames ou paus, ou fazer saltar as bolas coloridas que algum lá recebia e já não havia árvore que nos impedisse de jogar futebol de rua, esquecendo, por momentos, a habitual bola de trapos.

Às vezes um ou outro lá recebia uma pistola e era vermos a brincar ao okukwata-kwata ou aos polícias e bandidos. Ou, ainda, alguns de nós lá éramos mais felizardos e recebíamos pequenos carritos com que fazíamos pistas para corridas à volta da nossa uti. A mesma árvore que nos oferecia as suas salientes raízes para nos sentarmos e lermos algum livro que nos aparecia.

E quando nos cansávamos havia sempre um mais afoito que subia à árvore e apanhava os seus belos, matizados e suculentos frutos que pendiam como bolas coloridas de uma qualquer árvore de Natal.

Ou quando havia problemas a resolver os Mais Velhos, os seculos, se reuniam em njango, sob ela, para discutir e resolver as makas que surgiam.

Aka, como tenho saudades do tempo em que era kandengue e brincava à volta e sob a copa da nossa mangueira ouvindo o belíssimo trinado dos olonjila!

Aka, como tenho saudades da minha mangueira e ela ainda permanece, em pé, imponente, no largo do bairro, como uma sentinela sempre pronta a testemunhar, mudamente, a vida de todos!

Glossário:
Aka – interjeição (por vezes de admiração)
Kandengue - criança
Makas – problemas
Njango – redondel onde se fazem reuniões importantes
Okukwata-kwata – agarrar (agarra-agarra)
Olonjila(onjila, singular) – pássaros
Oviteke (ochiteke, singular) – matutinos, crepúsculos
Seculos – Kotas, Mais Velhos
Uti – Árvore

*Usil Eyala Tibolo*
*(heterónimo de um poeta e contista angolano; feito em Dezembro de 2010)

Imagem de velhos tempos

"Sem título"
(Tela de Toia Neuparth, espólio da Casa de Angola, Lisboa)


Imagem de Velhos Tempos !...*

De meus tempos de criança
eu tenho muita saudade
e a minha mais tenra idade
guardo sempre na lembrança

Lembrança que me acompanha
pelas sendas do caminho;
eu jamais sigo sozinho
por mata, rio ou montanha.

nas retinas dos meus olhos
tenho imagens sem abrolhos,
brilantes de luz e paz...

São imagens que carrego
de tempos que não renego,
meus tempos de nunca mais...!

*Gotas de Cristal*
*(pseudónimo de Sónia Maria Ditzel Martelo, poetisa brasileira; poema publicado na II Antologia de poetas lusófonos)

sábado, dezembro 18, 2010

A minha Árvore de Natal

Imbondeiro natalício
(Montagem de Elcalmeida)

A minha Árvore de Natal*


Frondente,
arrogante,
pançuda
e baluarte
copa larga,
disforme
seus frutos pendidos
quais bolas natalícias
assim é a minha árvore.

Todos os anos
frente um sol ardente
é minha testemunha
vê o meu presente.

Todos os anos
neste dia natalício
o ritual é o mesmo
abro o presente
um livro,
sempre um livro,
e nas estirpes notáveis
assento,
debulho-o
desfruo-o
calma e tranquilamente.

É a minha árvore de Natal
larga,
enorme,
disforme
me acolhe;
múcua são os frutos
quais ornatos natalícios
pendurados
invariavelmente acastanhados!

É a minha árvore de Natal
é o Imbondeiro!

*Lobitino Almeida N´gola*
*(Dezembro 2010)