quarta-feira, dezembro 07, 2011

Batuque Mukongo – canto 2

“child rain, dance, dancing, girl, rain”
(Foto Favim.com; daqui)

Canto 2*

Fui criança da chuva
em terras de esperança
fui chuva criança
pela mão da minha avó
escura
como o breu envolvente
da miséria de um povo
sem caminho nem vau
no rio grande
por onde subiu a nau
de velas insufladas
ao anúncio dos ngoma
dos chingufu
dos tambores surdos
e do ulular rítmico
no queixume das sereias
coladas à morte pegajosa
penetrando silenciosa
as rugas dos desejos impossíveis
como visgo escorregadio
no casco das árvores milenares crescidas a esmo.

*Manuel Fragata de Morais*
*(Canto do livro de poemas “Batuque Mukongo”, editado sob chancela da UEA
)

Estou No Meu Caminho

“Sandilar”
(Foto de Misha Gordin)

Estou No Meu Caminho*

Estou No meu caminho
Somente no meu caminho e nada mais
Correndo na velocidade de um míssil
Quilómetros infinitos a hora

Não quero moscas ao pé de mim
Pois não tenho açúcar para vos alimentar
Não quero falsas promessas e profecias
Porque não vou acreditar

Estou No Meu Caminho

Caminhando em linhas tortas
Mas sabendo direito aonde
Tenciono chegar
Não se aproxime muito
O Caminho é meu
E muito meu
Cada um no seu caminho
Todos atrás do troféu

Afaste do meu caminho
A maldição da inveja
Que herdaste dos teus presentes
E jogaste fora o amor herdado dos teus ancestrais

Estou No Meu Caminho

Distante de tudo e de todos
Que queiram aplaudir as minhas
Vitórias ilusórias

Em busca da liberdade infinita
Que tem o pássaro
Do sorriso ardente que tem
O sol e do Caminhar sem destino
Que tem o percurso dos rios

Estou No Meu Caminho…

*Sandro Feijó*
*(Poeta Universal; poeta angolano, 24 Agosto 2011)

sábado, dezembro 03, 2011

Lamento de um Povo


"Corpo nu de muher"
(Tela de desconhecido, retirado daqui)
Lamento de um Povo*

Pátria nossa sacrificada por ambições e traições
Desenfreados em busca das tuas riquezas
Provocando entre os teus filhos a miséria, a morte
E destruição descontroladas
Dum futuro que não aconteceu

Torrão pátrio...jamais ouvimos
O chilrear dos passarinhos, o cantar das cigarras
O murmúrio das cascatas, o silêncio dos regatos
O sibilar forte dos ventos nas anharas,
Nos sertões e florestas verdejantes,
Não olfatamos o cheiro acre dos teus frutos silvestres,
E apetitosos, o tamborilar das tuas chuvas generosas,
Nos telhados dos zincos dos muceques. Oh! Já não!

Ouvimos sim, ribombar dos trovões
Enfurecidos lançando os seus clarões, rasgando o céu
E o Sol com o seu brilho entristecido,
Contemplamos sim os nossos regatos, rios e cachoeiras
Tingidos de sangue inocente de filhos teus,
Que esperam e desesperam nesta Pátria nossa
O prometido que lhes foi recusado.

E lá longe escutamos os tantãs
Dos nossos Antepassados,
Soando seus lamentos de desespero
De angústia e choros de seus filhos amados

Gente amargurada que sofre, mas que tem petróleo
Café, diamantes, muamba, mufete, kissangi e
Tradições, mas sem Paz e continua pobre.

*José Emil Becker*

*(Poeta Angolano, retirado, com a devida vénia, do Facebook)

terça-feira, novembro 29, 2011

Contei meus anos...

"Volúpia I”

"Volúpia I”
(Eunice Maia, daqui)


Contei meus anos... *

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

*Mário de Andrade*
*(poeta angolano esquecido (1893-1945)poeta angolano esquecido (1893-1945)

sexta-feira, novembro 11, 2011

A Dipanda

“Angola”
(Montagem de Elcalmeida)

A Dipanda*

Ainda há
ondas no mar
azul no céu
esperança no destino
e silêncio na pedra.
Continuamos vivendo
e morrendo
como sempre.

*Teresinka Pereira*
*(poetisa angolana; Luanda,11-11-11)

segunda-feira, outubro 10, 2011

Deixem-me chorar

Tears and Pain
(Foto retirado daqui)

Deixem-me chorar*

Deixem-me chorar
lágrimas de esquina
que dobram o coração,
sonhos de madrugada
que amamentam
as noites do luar.

Deixem-me vaguear
nos córregos do cérebro
que bloqueiam a poesia,
que travam a sensatez.

Dobro a vida das esquinas
e encontro a ponte
que não tem margens.

Deixem-me andar por aí
como quem sabe o que faz,
mesmo quando tropeço
no sonho de apenas querer
chorar como qualquer um.

*Orlando Castro*
*(Jornalista, contista e poeta angolano-português, poema inicialmente publicado aqui)

quinta-feira, outubro 06, 2011

As Calemas do Lobito

"Calemas"
(foto ©Elcalmeida, 2010)

As Calemas do Lobito*

Nas douradas areias
ou nas duras rochas,
batem duras,
batem fortes,
ondas soberbas
em cadência;
batem, enrolam
e em alvas espumas
desmaiam e voltam.

São as nossas Calemas!

Nas delicadas areias
ou nas duras fragas,
batem e tornam a bater
duras, fortes,
enroladas,
como só elas o sabem fazer.

São as nossas Calemas!

Cíclicas, metódicas,
em finais de Setembro acodem
e em Outubro partem;
na Restinga,
no Bairro da Praia,
ou no Compão
as Calemas abrolhem.

São as nossas Calemas
que ruidosas,
estrídulas, aparatosas,
no esporão desmaiam
e o Lobito refrescam!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(6/Outubro./2011)

sábado, setembro 03, 2011

A Liberdade Tem A Marca do Meus Sangue

Freedom of Spirit

(Waalpaper, por walldesk)



A Liberdade Tem A Marca do Meus Sangue*


A Liberdade tem a marca do meu sangue

Pois fui eu quem defendeu

Esta nação flagelada

E pintou o verde de esperança

No rosto de quem achava impossível


Pois fomos nós
Escravos da roça
Oprimidos e sem vozes
Negros dos maminhos em vez de arroz
Pintamos o preto em branco
E tornamos esta terra em paz

A liberdade tem a marca do meu sangue

Pois fui eu

Na linha da frente

Quem alimentou esses famintos

Para que não morressem

Nas matas do deserto do Sahaara

E se reparares bem

Em cada alicerce da reconstrução

Desta nação tem a marca do meu sangue libertador.


*Sandro Feijó*

*(Poeta Universal; poeta angolano, 24 Agosto 2011)

quinta-feira, agosto 25, 2011

Os sinais antigos de quem procura eternidade

“Entardecer”
Original de W. Mooney


Os sinais antigos de quem procura eternidade*


Apetece confessar,

nestas folhas de memória

quem, na verdade, sou

e ousar seguir

minha procura.

Apetece confessar que estou aqui

a viver e reviver o amor.

Não apenas corpos em prazer,

mas os segredos antigos

de quem se faz eternidade.


Há viagens que são beleza,

mãos, cheiros, ouvidos, olhos

e todos os demais sentidos

que me dão a ilusão

de acrescentar a criação.

Esse humano, demasiado humano,

a que não posso ser alheio,

para que se descubra o infinito.


*José Adelino Maltez*
*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

sábado, agosto 20, 2011

E ele acabou…

"Bigodes"
(imagem da Internet)

E ele acabou…*

E em mim quase 40 anos ele durou…

A idade o fez aparecer,
tal como uma espiga medrou,
arvorou e ceifou,
mas uma imagem no espelho astuta
o fez, de novo, recrescer.

E em mim quase 40 anos ele aturou…

Depois de avermelhado se afirmar
e em trigo depois se virar,
serodiamente,
com o tempo coabitado,
em cinza se atestou.

E em mim quase 40 anos ele aguentou…

Seja carência, afirmação ou moda,
eles os há ostentosos, afilados,
distintos, revertidos ou espetados;
e a todos que o usaram, atestou e honrou.

E em mim quase 40 anos ele teimou…

Se eu, como muitos, o ornei
nele outros se certificaram,
Hitler ou Estaline, Dali ou Gable, entre outros,
arrogantemente o pompearam.

E em mim quase 40 anos ele abarbou…

E ao fim destes anos passado
umas vezes, como um precário
outros, declaradamente extasiado,
finalmente numa tarde se vazou.
Durante 40 anos o prezei,
minha cara ornou.
Adeus, cinza bigode, o matei,
um superior lóbulo inocente ficou.

*Lobitino Almeida N’gola*
*(8/Agosto./2011)

quarta-feira, julho 06, 2011

O Meu Cachimbo

"Homem com Cachimbo"
(Pablo Picasso, 1969)

O Meu Cachimbo*

Ó meu cachimbo!
Amo-te imenso!
Tu, meu turíbulo sagrado
Com que, Sr. Abade, incenso
A Abadia do meu passado.

Fumo? E acorre-me à lembrança
Todo esse tempo que lá vai,
Quando fumava, ainda criança,
Às escondidas do meu Pai.

Vejo passar a minha vida,
Como um grande cosmorama:
Homem feito, pálida Ermida,
Infante,pela mão da ama.

Por alta noite, às horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para falar contigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d’Anto, aonde eu moro!
Ali, metido no buraco,
Fumo e, a fumar, às vezes… choro.

Chorando (penso e não digo)
Os olhos fito neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo…
Os meus amigos onde estão?

Não sei. Trá-los-á o «nevoeiro»
Os três, os íntimos, Aqueles,
Estão na Morte, no estrangeiro…
Dos mais não sei, perdi-me deles.

Morreram uns. Por isso peço
A Deus, se ele está de maré:
E, às noites, quando eu adormeço,
Fantasmas, vêm, pé ante pé…

Tristes, nostálgicos da cova,

Entram. Sorrio-lhes e falo.

Deixam-me estar na minha alcova,

Até se ouvir cantar o galo.


Outros, por esses cinco Oceanos,

Por esse Mundo erram, talvez:

Não me escreveis, há tantos anos!

Que será feito de Vocês?


Hoje, delícias do abandono!

Vivo na Paz, vivo no limbo:

Os meus amigos são o Outono,

O Mar e tu, ó meus Cachimbo!


Ah! quando for do meu enterro,

Quando partir gelado, enfim,
Nalgum caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.

Santa mulher que me tratares,

Quando em teus braços desfaleça,

Caso os meus olhos não cerrares,

Embora! Que isto não te esqueças.


Coloca sobre a travesseira,

O meu cachimbo singular
E enche-o, solicita Enfermeira,
Com Gold-Fly, para eu fumar…

Como passar a noite, Amigo!
No Hotel da Cova sem conforto?
Assim, levando-te comigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto…

*António Nobre*
*(poeta português do séc. XIX; retirado do livro "So os melhores poemas")

quarta-feira, junho 01, 2011

Felicidades

"Mulheres"

(Tela de Nelson Magalhães Filho, série Mulheres, 2006)


Felicidades*




Á amiga Jandira de Fátima




Inspirei-me na tua beleza para compor este poema


Não quero saber do teu passado


Nem da tua história


Quero que tudo te vá bem




Que amores vençam desamores


Que a tua vida se transforme num


Oásis de felicidades


E que as barrocas de tristezas


Sequem na tua preciosa alma




Que os ritmos quentes da vida


Aplaudam-te tal como uma rainha


Quando esta data se repetir


Por longos e felizes séculos de vida




Que teus olhos chorem de regozijos


Que tua boca sorria as deploráveis da vida


Que tudo se transforme num paraíso


Onde as ruas alagadas da Brigada


As lixeiras do São Paulo


O Engarrafamento infernal


Tornem-se num paisagismo imortal.




Felicidades




*Sandro Feijó*


*(Poeta Universal; poeta angolano, 27 Maio 2011)

sábado, março 05, 2011

A Tabacaria

Charutos cubanos

(Uma montagem ©Elcalmeida; cada um interprete como quiser…)




A Tabacaria*




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



*Álvaro de Campos*


*(Um dos heterónimos de Fernando Pessoa, feito em 15-1-1928)

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

A terra vermelha, o embondeiro

"Bocóio, Terra Vermelha"

"Foto de DaSilva, Lili"


A terra vermelha, o embondeiro*


Não! Já não tenho saudades do império.

Apenas, a memória que reprimo,

nos muitos pedaços de uma guerra

que não deveria ter acontecido.

Tão bárbara como todas as guerras,

sempre inconscientes

nos seus próprios mortos.

Sobretudo, no dia seguinte

ao fim da guerra,

nessa ilusão de tratados,

a que chamam paz.


A manga que cai da árvore,

os jacarés da barra do Kwanza

a terra vermelha, o embondeiro,

nesta terra de tórridas saudades,

e o recanto mais recôndito

de todos os recontros.

Verão de Angola sabe a sumo de papaia,

em hora de pequeno almoço.


*José Adelino Maltez*

*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

O que vocês não sabem e nem imaginam

"Ritual"

(Tela de Lívio de Morais, daqui)


O que vocês não sabem e nem imaginam*


Vocês não sabem

mas todas as manhãs me preparo

para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prender o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
e é com ele que amo
escrevo versos
e faço filhos


*Eduardo White*

*(poeta moçambicano)

Contratados

"Contratados"

(Bailundos contratados para a exploração do café, em Quitexe; foto retirada daqui)


Contratados*


Longa fila de carregadores

domina a estrada

com os passos rápidos


Sobre o dorso

levam pesadas cargas


Vão

olhares longínquos

corações medrosos

braços fortes

sorrisos profundos como águas profundas


Largos meses os separam dos seus

e vão cheios de saudades

e de receio

mas cantam


Fatigados

esgotados de trabalhos

mas cantam


Cheios de injustiças

calados no imo das suas almas

e cantam


Com gritos de protesto

mergulhados nas lágrimas do coração

e cantam


Lá vão

perdem-se na distância

na distância se perdem os seus cantos tristes


Ah!

eles cantam...

*Agostinho Neto*

*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)

terça-feira, janeiro 25, 2011

Canção para Luanda

(Praça do Baleizão, Luanda, foto Elcalmeida, 2009)

Canção por Luanda*


A pergunta no ar

no mar

na boca de todos nos:

- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
- Xeh
mana Rosa peixeira
responde?


- Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!


“Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee”


- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pes percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque, m´boquinha boa
doce docinha”


- Mano
não pode responder
o tempo épequeno
para vender!


Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?


Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!


- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?


Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?


- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
voce também
Zefa mulata
dos brincos de lata


- Luanda onde está?


Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:


- Luanda está aqui!


*Luandino Vieira*

*(escritor angolano - minha homenagem pelos 435 anos que Luanda hoje comemora)