terça-feira, janeiro 25, 2011

Canção para Luanda

(Praça do Baleizão, Luanda, foto Elcalmeida, 2009)

Canção por Luanda*


A pergunta no ar

no mar

na boca de todos nos:

- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
- Xeh
mana Rosa peixeira
responde?


- Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!


“Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee”


- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pes percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
“maboque, m´boquinha boa
doce docinha”


- Mano
não pode responder
o tempo épequeno
para vender!


Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?


Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!


- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?


Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?


- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
voce também
Zefa mulata
dos brincos de lata


- Luanda onde está?


Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:


- Luanda está aqui!


*Luandino Vieira*

*(escritor angolano - minha homenagem pelos 435 anos que Luanda hoje comemora)

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Ano VI - Há tempo…

“Tempo”
(Óleo sobre tela, Alexandre Segrégio, 1993, daqui)

Há tempo…*


Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo do Mundo melhorar…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo de as chuvas amainar…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo das criaturas sentir…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo das árvores florir…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo das savanas ondular…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo das montanhas assentar…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo dos rios serpentear…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo dos Homens saber mudar…
Há tempo para dizer ao tempo
que é tempo do Mundo tremer, parar…
.
Então…
é tempo de vermos as chuvas parar,
as árvores brotar,
os pássaros nidificar.
as montanhas assentar,
as savanas ondulando,
os rios deslizando,
as criaturas dançando,
os Homens parar, parar os Musseques,
o Mundo brilhando
como bolinha colorida nas mãos dum muleque.
Então…
há tempo para dizer ao tempo
que o tempo não é uma simples e aguda lança,
mas que é tempo do tempo deixar de ser trampa!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(14/Jan./2011)
(Este poema foi publicado em 2013, na "Antologia de Poesia Contemporânea, Vol. IV, «Entre o sono e o sonho»", II Tomo, págs. 171-172, Chiado Editora)

Só Alguns sentem e Poucos Compreendem!...

Fonte da Vida

(Óleo sobre tela, Alexandre Segrégio, 1994, daqui)

.

Só Alguns sentem e Poucos Compreendem!*

.

A Nossa dor

A dor de ser excluído

De não sentar a mesma mesa com os negros e brancos

Assimilados da alta sociedade

.

A dor de desejar e não possuir

De sonhar

Não alcançar e diluir…

.

Este cansaço incansável

Esta dor que eu trago no peito

É demais!

Não aguento

.

Só alguns sentem e poucos compreendem

.

A negritude da alma do meu musseque

O grito nostálgico de aflição

Da pobre mãe quando seu monami

Parte de cólera para eternidade nos seus braços

.

Meus irmãos,

Minhas irmãs

Minhas mães

Das mais diversas cores e espécies

Espalhadas pelo mundo

Tal como Nguxi,

Também sinto a vossa dor...

.

Só alguns sentem e poucos compreendem

.

*Sandro Feijó*

*(Poeta Universal; poeta angolano, 10 Janeiro 2011)