quarta-feira, julho 05, 2006

Mundial de Futebol no México

Photobucket - Video and Image Hosting
"Atlético Nacional de Lourenço Marques"
(Foto de 1944, cedida por João Craveirinha; nela vêem-se o poeta José Craveirinha e o grande capitão Mário Wilson)**


Mundial de Futebol no México (em Directo)*

Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos
enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?
Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona
o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?

Ligo o televisor e oiço um fulano a perder o fôlego no delírio do gôôô…lo!
tudo via satélite no interior de minha casa sem eu lhe abrir a porta
com medo dos fleugmáticos anglo-saxónicos chefes das zaragatas
e por causa das guapas moças de “shorts” a abanarem as mamas
no centro do écran e sem que o árbitro assinale a falta.

Aqui onde as crianças adeptas do Futebol Clube Tuberculose
roem mandiocas fatais com a tal força anímica
porquê a prioritária urgência em admirar
um lírico Sócrates a falhar platonicamente um golo mais do que certo?

Mas porquê esta fortuita indigestão de futebóis de dólares
saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias
o drama das ampolas de penicilina que não temos?

Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste
a agredir impunemente o triste indefeso Luís de Camões?

Com as hábeis botas do sr. Diego Maradona a chutar-nos
quantos sapatos calçariam os pés dos Meninos
infutebolizados pelo malfazejo júbilo
das hienas soltas nas matas?

Nesta jogada de comida intelevisível
60 xambocadas indemocráticas de massas em directo
mais outras 60 xambocadas em diferido no adiposo
rabiosque fútil do idolatrado “desporto-rei”
com dólares “cash” pagos em Maputo
deliciando o anónimo dono do satélite.

Em honra de todos os membros da FIFA
e todos os espectadores ausentes nas bancadas sol
vamos vivar os maiores craques aztecas
e deixar os heróis dos golos em paz
no território soberano deste papel.

Viva Siqueiros!
Viva!
Viva Orozco!
Viva!
Viva Rivera!
Viva!

E agora palmas à magistral tabelinha
entre os grandes craques mexicanos
Emiliano Zapata e Pancho Villa
heróis do grande campeonato a sério
desde sempre disputado nos pátrios campos do México.

E viva Emiliano Zapata!
Viva!
E viva Pancho Villa!
Viva!

E de fora da grande área do último mundial
dedico aos eternos mártires da bancada sol
este meu humilde golão vitorioso
só com meticais em directo sem satélite
e nem um único dólar em diferido.

Viva o craque Emiliano Zapata!
Viva!
ZÉZÉ (um ex-futebolista arrependido).

*José Craveirinha*
*(poeta moçambicano (1922 / 2003); poema escrito em 1986)
** (Foto inédita oferecida por “Manuna” (irmão mais velho de Matateu e de Vicente) a João Craveirinha na década de 1970. Inserida na página 76 no seu livro (2ª edição): Moçambique – Feitiços, Cobras e Lagartos. (Etno-história) – Esta matéria está publicada no jornal “O Autarca da Beira”, e no Zambeze Online)

1 comentário:

ELCAlmeida disse...

Por lapso não foi adicionado esta explicação relativo à foto. E como agora não consigo entrar no Blogger deixo, temporariamente, aqui nos comentários:
"Equipa do Atlético Nacional, Clube de Lourenço Marques, cerca de 1944.
Clube Desportivo e Recreativo exclusivo de mestiços (mulatos): Podem ser reconhecidos; o primeiro à esquerda em baixo é o Poeta José Craveirinha; o 6º da esquerda em pé é Mário Wilson. O equipamento é semelhante ao do São Paulo Futebol Clube do Brasil."
Logo que o Blogger me deixe entrar vai para o sítio certo.
Obrigado