O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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terça-feira, março 30, 2010

O Aroma

Sem título

(Ilustração de Manuela Pontes retirado do livro "Seios Ilhéus")


O Aroma*


O aroma sabe a zigue-zague
Os sentidos aguardam o silêncio.
Inspira-se um gesto
Os lábios acariciam ao de leve
A porcelana fina de café.
Sorve-se com divina lentidão
Como a seiva libertada de tantos seios da Ilha.
Sem dúvida… é de São Tomé.

*António Bondoso*
*(poeta santomese; do livro “Seios Ilhéus”)

domingo, março 21, 2010

Roça

"Pico Cão Grande"

(Visto da Roça de Porto Alegre; daqui)


Roça*


A noite sangra

no mato,

ferida por uma aguda lança

de cólera.

A madrugada sangra

de outro modo:

é o sino da alvorada

que desperta o terreiro.

E o feito que começa

a destinar as tarefas

para mais um dia de trabalho.


A manhã sangra ainda:

salsas a bananeira

com um machim de prata;


capinas o mato

com um machim de raiva;

abres o coco

com um machim de esperança;

cortas o cacho de andim

corn um machim de certeza.


E à tarde regressas

a senzala;

a noite esculpe

os seus lábios frios

na tua pele

E sonhas na distância

uma vida mais livre,

que o teu gesto

há-de realizar.


*Manuela Margarido*

*(Poetisa santomenses (1925-2007); daqui)

terça-feira, março 09, 2010

Ilha nua

"Profundidade - s/título"

(Foto de Carlo Porcedda, para a Navetur)


Ilha nua*


Coqueiros e palmares da Terra Natal

Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos

Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.

Verdura, oceano, calor tropical

Gritando a sede imensa do salgado mar

No deserto paradoxal das praias humanas

Sedentas de espaço e de vida

Nos cantos amargos do ossobô1

Anunciando o cair das chuvas

Varrendo de rijo a terra calcinada

Saturada do calor ardente

Mas faminta da irradiação humana

Ilhas paradoxais do Sul do Sará

Os desertos humanos clamam

Na floresta virgem

Dos teus destinos sem planuras...


*Alda Espírito Santo*

*(Poetisa santomense (1926.2010); da obra “É nosso o solo sagrado da terra”; 1978)

segunda-feira, maio 14, 2007

Pombinha, Menina de São Tomé

"Uma baía em São Tomé"
(Foto de António Jorge Soares, 2007)


Pombinha, Menina de São Tomé*

Se a Pombinha
Voa,
É porque sonha
Com futuro sem névoa.
Nasceu no colonialismo
Lutou pela Independência
Pariu para a Democracia
Participa na Cidadania
Em busca da Paz no Mundo.
É natural de São Tomé
Ilha verde
E deslumbrante
Onde o Sol é dourado
E o mar enrola na areia
Namorando-a
E o vento beija-a enternecido
As rochas fazem tranças nas ondas
E as sereias dançam o Danço-Congo.
Se a música é o aroma do futuro…
Juro!...
Quero encantar a alma
Numa melodia emocionada
Voar como o papagaio do Príncipe
Voar como o falcão
De São Tomé.
E voar… com o papagaio e o falcão
Sem nada que pese
Sem nada que pouse
Quero apenas voar…


*Fernanda Bonfim (Pombinha)*
*(Santomense, poema inédito, Setembro de 2006)

Mulher Africana

"Mulheres"
(Tela do congolês
Nkutu a Zowa [1939-2006])

Mulher Africana*

Mulher Africana
Nasce com fogo na alma
Que invade o seu ego
E a rejuvenesce
Mas a luta pela sobrevivência
Dá luta à inteligência
E imaginação
A solidão e saudade
Confortam o coração
E dá-lhe força para continuar
A brisa conforta o estômago
A rocha dá abrigo
A folha protege
O rio corre, corre…
E leva confiança e amizade
O sol é de solidariedade
E aninha-a com calor…
E muito, muito Amor…

*Fernanda Bonfim (Pombinha)*
*(Santomense, poema inédito, 1992)

segunda-feira, março 12, 2007

A Ilha

“Sem título”
(Tela de B.J. Castro, retirado
daqui)

A Ilha*
.
A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba
e mortal das cobras.

*Maria Manuela Margarido*
*(poetisa santomense (x-2007); poema da obra “Alto como o silêncio” 1957; retirado
daqui)

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Conto santomense 2 "A Lenda de Cantagalo"

"Galo I"
(Acrílico sobre tela (1980),
Aldemir Martins[1922-2006])
.
A Lenda de Cantagalo*
.
Há muitos anos, todos os galos do mundo refugiaram-se na Ilha de S. Tomé, talvez por ser uma terra lindíssima e boa para viver.
Quando o sol rompia as nuvens, de madrugada, punham-se todos a cantar anunciando um novo dia:«cocorocóco!»
A alegria imensa de estarem juntos e o facto das suas vozes funcionarem bem e em coro, levava-os a repetira cantaria a qualquer hora, esquecendo que incomodavam os outros habitantes do arquipélago.
Havia pessoas que lhes achavam graça e até gabavam aquela alegria contagiante que enchia a atmosfera de música. Mas a maior parte dos habitantes reclamava: "Isto não pode ser! Precisamos de sossego! Ninguém aguenta esta barulheira..."
Os dois grupos discutiam, uns a favor dos galos, outros contra. As conversas iam-se tornando tão azedas que por pouco não se envolviam à pancada. Então um homem sensato resolveu tomar medidas para resolver isto dizendo aos galos: «Aconselho-vos a emigrarem e se não aceitarem haverá guerra...»
Os galos, sendo bem-educados, decidiram partir e escolheram um rei que chefiasse a expedição; a escolha recaiu num enorme galo preto de quem todos gostavam porque tinha imensas qualidades. E deram voltas até encontrarem o local que queriam.
Aí ficaram para sempre; e as pessoas baptizaram o lugar com o nome de Cantagalo

*Tradicional*
*(Contos recolhidos pelos alunos santomenses do Liceu Nacional;
daqui)

domingo, agosto 27, 2006

Santomensidão

"Cascata"
(fotos de STP por
Pedro Norton de Matos, Novembro.2005)
.
Santomensidão*

O poema está no ritmo
do nosso sangue cruzado. Na idade
da nossa santomensidão

cheiros de terra quente
palmares de avó Sipinge
distância em distância entre
o leste e o oeste
o norte e o sul

o poema
é a única rota que deixa sulcos no cais
imensurável dos nossos atropelos

*Olinda Beja*
*(poeta e contista santomense; este poema, retirado
daqui, faz parte da colectânea “Água Crioula”)

quarta-feira, maio 24, 2006

Dia de África: Quando o luar

"Praia de Boa Viagem, Recife"
(Foto de
Lucy Passos, 2003)
.
Quando o luar*

Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.

As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas nao és.

*Conceição Lima*
*(
poeta santomense; in “Vozes poéticas da lusofonia”, Sintra, 1999)

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Conto santomense 1 “A Tartaruga adivinhadora”


"a tartaruga e o imperador"
(desenho de Neves e Sousa)
.
A tartaruga adivinhadora*
.
Chegando uma ocasião, a Tartaruga que costumava a andar sempre no Palácio, disse garantir que adivinhava qualquer sonho do Imperador, especialmente o que ele tinha sonhado ontem e que ele era capaz de adivinhar o que era o sonho.
Uma vez, o senhor Imperador levantou-se de manhã muito cedinho, mandou chamar o Tartaruga e disse assim, p’ra ele:
– Ó meu amigo Tartaruga! Você disse-me que qualquer pensamento que eu tenho de noite, tu és capaz de dizer o que é! Você é capaz de dizer o que é que foi? Tu és capaz de dizer o que ontem sonhei no meu sonho? Vamos lá a ver se sabe o que é! Anda! Agora, diga-me lá!...
O Tartaruga, muito esperto, com o “casco tchibi-tchibi”, (muito inteligente) por sua vez disse assim:
– Bom senhor Imperador dá-me licença que vá para minha casa, de maneira a ver se sou capaz de dizer o que é…
O senhor Imperador disse que sim e o Tartaruga foi para casa por muitos dias e nunca mais aparecia, sempre a estudar como é que vai saber o que o senhor Imperador sonhou na semana passada, na sua cama. Meteu-se pelo mato, arranjou penas de muitos pássaros, colocou-as no corpo a fingir que era pássaro, voltou para o Palácio e começou a tremer:
– Hum… Hum… Hum…
Depois, a senhora Rainha, muito admirada disse:
– Olha este bicho! Se o Tartaruga cá estivesse, era muito capaz de dizer ao senhor Imperador que pássaro é. Ele anda sempre no mato, é capaz de conhecer todos os pássaros…
De maneira, que o senhor Imperador, disse assim:
– Olha; o Tartaruga é um bicho desgraçado. Ele disse-me que o meu sonho ele era capaz de dizer, eu sonhei que era uma bala de izaquente [fruto de São Tomé] mas ele não há maneira de adivinhar. Há uma semana que ele saiu p’ra estudar o assunto e nunca mais apareceu com bala de izaquente.
O tartaruga ouviu esta conversa e fugiu imediatamente sem ninguém saber que ele estava a fingir de pássaro, só para saber o sonho que o Imperador sonhou.
Nessa tarde o Tartaruga apareceu no Palácio e trazia uma bala de izaquente... Vinha a rir, muito satisfeito e quando viu o senhor Imperador, gritou assim:
– Ó senhor Imperador! Cá estou eu outra vez! Aqui está a coisa com que o senhor, sonhou! A bala de izquente!...
E mostrou a bala de izquente. O senhor Imperador achou muita graça e pagou a aposta que era de muito dinheiro, ao esperto do senhor Tartaruga...

*transmitido por Manuel do Sacramento Pontífice (Sum Mé Cléclé)*
*(histórias populares santomenses compiladas por Fernando Reis, em "Soiá II", 1977)