“Sem título”(Ilustração de Manuela Pontes retirado do livro "Seios Ilhéus")
“Sem título”(Ilustração de Manuela Pontes retirado do livro "Seios Ilhéus")
(Visto da Roça de Porto Alegre; daqui)
Roça*
A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.
A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira
com um machim de prata;
capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
corn um machim de certeza.
E à tarde regressas
a senzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.
*Manuela Margarido*
*(Poetisa santomenses (1925-2007); daqui)
"Profundidade - s/título"
(Foto de Carlo Porcedda, para a Navetur)
Ilha nua*
Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô1
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
*Alda Espírito Santo*
*(Poetisa santomense (1926.2010); da obra “É nosso o solo sagrado da terra”; 1978)
"Mulheres"
