O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

A terra vermelha, o embondeiro

"Bocóio, Terra Vermelha"

"Foto de DaSilva, Lili"


A terra vermelha, o embondeiro*


Não! Já não tenho saudades do império.

Apenas, a memória que reprimo,

nos muitos pedaços de uma guerra

que não deveria ter acontecido.

Tão bárbara como todas as guerras,

sempre inconscientes

nos seus próprios mortos.

Sobretudo, no dia seguinte

ao fim da guerra,

nessa ilusão de tratados,

a que chamam paz.


A manga que cai da árvore,

os jacarés da barra do Kwanza

a terra vermelha, o embondeiro,

nesta terra de tórridas saudades,

e o recanto mais recôndito

de todos os recontros.

Verão de Angola sabe a sumo de papaia,

em hora de pequeno almoço.


*José Adelino Maltez*

*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

O que vocês não sabem e nem imaginam

"Ritual"

(Tela de Lívio de Morais, daqui)


O que vocês não sabem e nem imaginam*


Vocês não sabem

mas todas as manhãs me preparo

para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prender o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
e é com ele que amo
escrevo versos
e faço filhos


*Eduardo White*

*(poeta moçambicano)

Contratados

"Contratados"

(Bailundos contratados para a exploração do café, em Quitexe; foto retirada daqui)


Contratados*


Longa fila de carregadores

domina a estrada

com os passos rápidos


Sobre o dorso

levam pesadas cargas


Vão

olhares longínquos

corações medrosos

braços fortes

sorrisos profundos como águas profundas


Largos meses os separam dos seus

e vão cheios de saudades

e de receio

mas cantam


Fatigados

esgotados de trabalhos

mas cantam


Cheios de injustiças

calados no imo das suas almas

e cantam


Com gritos de protesto

mergulhados nas lágrimas do coração

e cantam


Lá vão

perdem-se na distância

na distância se perdem os seus cantos tristes


Ah!

eles cantam...

*Agostinho Neto*

*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)