terça-feira, outubro 31, 2006

O poeta

“Pilão”
(Acrílico sobre tela de
Tchalê Figueira, 2004)

O poeta*

Porque as flores florem e o flume flui,
e o vento varre a fúria vã das ruas,
eu desenfurno tudo quanto fui
e me corôo com meus sóis e luas.

Porque o vôo das aves é meu vôo,
e a nuvem é alcáçar que não rui,
paro a mó do pensamento onde môo
a vida, e abro no muro que me obstrui

a áurea, ástrea senda, a porta augusta.
Que me importa se a clepsidra corrói
as praças das infâncias em ruínas?

Poemas são meninos e meninas
ao sol do Pai, que tudo reconstrói.
Poeta é flor e flume em terra adusta.

*Fernando Mendes Vianna*
*(poeta brasileiro (1933-2006), poema retirado
daqui)

1 comentário:

Iza centeno disse...

Belíssimo soneto!!! Fernando Mendes Vianna é um dos grandes poetas da língua portuguesa.Sua poesia é culta e seu vocabulário é riquíssimo.