segunda-feira, janeiro 08, 2007

Os (meus) meninos do Huambo

“Índios guaranis à volta da fogueira”
(foto de
Rosa Gauditano)

Os (meus) meninos do Huambo*

Com fios feitos de lágrimas de dor
Os meus meninos do Huambo choram
Ainda marcados pelo muito horror
da miséria e da fome onde moram

Com os lábios de muito dizer aiué
Soletram pensamentos de esperança
Como quem se alimenta de tanta fé
Inebriada pelos sorrisos de criança

Os meus meninos à volta da fogueira
Já aprenderam que dizer a verdade
Será talvez mais uma bonita bandeira
mas que o melhor é não falar de saudade

Com os sorrisos mais lindos do planalto
- Essa é uma certeza para a eternidade
Fazem contas engraçadas de sobressalto
E subtraem a fome a sonhos de igualdade

Dividem a chuva miudinha pelo milho
Como se isso fosse o seu eterno destino
Saltam ao céu toda a dor feita andarilho
No seu estilhaçado mundo peregrino

Os meus meninos à volta da fogueira
Não vão aprender novas palavras
Porque a dor da miséria é cegueira
Que alimenta todos os dias as lavras

Assim descontentes à voltinha da poesia
Juntam palavras do tempo que passa
Para ver se alimentam a barriga vazia
E se descobrem o fim de tanta desgraça.

.
*Orlando Castro*
*(jornalista, poeta e contista angolano-português)

1 comentário:

Denudado disse...

Muito triste (porque verdadeiro) contraponto à canção "Meninos do Huambo", de Manuel Rui (letra) e Rui Mingas (música). Muito triste e desesperado também, porque talvez tenha sido escrito no auge da guerra civil angolana. Os meus parabéns a Orlando Castro.

P.S. - O "Notícias Lusófonas" acabou de vez?