quinta-feira, maio 24, 2007

Encurralado

“Summer Interior”
(Tela em óleo de
Edward Hopper (1882-1967), de 1909)

Encurralado*

penso
enquanto assisto ao assassinato
de mais um ser aflito
na tv
que pouco me resta a fazer
que não seja risco
ou riso

voaria se me dessem asas

não mas dão

recorro então à solução
mais rápida

e morro
em meio a um silêncio
vão

*Márcia Maia*
*(Poetisa brasileira, retirado
daqui)

Primavera

"Spring"
(Tela de Lawton Parker)
.
Primavera*

Todo o amor que nos prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

*David Mourão-Ferreira*
*(Poeta português (1927-1996))

quinta-feira, maio 17, 2007

Ode ao Poeta Bernardo Lúcio

“Fernando Pessoa”
(Um poeta da Lusofonia pintado por outro; tela do luso-santomense Almada Negreiros)


Ode ao Poeta Bernardo Lúcio*

Morreu um poeta.
Ficamos em silêncio pelo poeta.
Segurei o Choro, pelo poeta.
Não disse mais nada pelo poeta.

Importa como foi? O que aconteceu?
Não importa. Infelizmente Morreu o poeta.
Na Zambézia a música fica órfã.
A palavra fica muda
Morreu o poeta Mor.

Silêncio por favor silêncio
Morreu o poeta principal.

Morreu um grande amigo da família.
.
*Suzete Madeira*
*(moçambicana; poema inédito, Maio/2007)

segunda-feira, maio 14, 2007

Pombinha, Menina de São Tomé

"Uma baía em São Tomé"
(Foto de António Jorge Soares, 2007)


Pombinha, Menina de São Tomé*

Se a Pombinha
Voa,
É porque sonha
Com futuro sem névoa.
Nasceu no colonialismo
Lutou pela Independência
Pariu para a Democracia
Participa na Cidadania
Em busca da Paz no Mundo.
É natural de São Tomé
Ilha verde
E deslumbrante
Onde o Sol é dourado
E o mar enrola na areia
Namorando-a
E o vento beija-a enternecido
As rochas fazem tranças nas ondas
E as sereias dançam o Danço-Congo.
Se a música é o aroma do futuro…
Juro!...
Quero encantar a alma
Numa melodia emocionada
Voar como o papagaio do Príncipe
Voar como o falcão
De São Tomé.
E voar… com o papagaio e o falcão
Sem nada que pese
Sem nada que pouse
Quero apenas voar…


*Fernanda Bonfim (Pombinha)*
*(Santomense, poema inédito, Setembro de 2006)

Mulher Africana

"Mulheres"
(Tela do congolês
Nkutu a Zowa [1939-2006])

Mulher Africana*

Mulher Africana
Nasce com fogo na alma
Que invade o seu ego
E a rejuvenesce
Mas a luta pela sobrevivência
Dá luta à inteligência
E imaginação
A solidão e saudade
Confortam o coração
E dá-lhe força para continuar
A brisa conforta o estômago
A rocha dá abrigo
A folha protege
O rio corre, corre…
E leva confiança e amizade
O sol é de solidariedade
E aninha-a com calor…
E muito, muito Amor…

*Fernanda Bonfim (Pombinha)*
*(Santomense, poema inédito, 1992)

domingo, maio 06, 2007

Poema à Mãe

"Uma Rosa à Mãe"
(foto ©elcalmeida, 2007)

Poema à Mãe*

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


*Eugénio de Andrade*
*(poeta português (1923-2005); poema da obra “Os Amantes sem Dinheiro”, retirado
daqui)