quarta-feira, janeiro 09, 2008

Aljezur Algarvia de Meus Encantos

Aljezur Algarvia de Meus Encantos*

Quase roteiro de uma viagem, de um Craveirinha Moçambicano e João

I
De súbito,
Perante meu olhar afro
tropical
Surge Aljezur.
Ao longe,
(“Bunhêra” e Rogil)
Terras ancestrais de meus avós
De encantos e desencantos

II
Aljezur minha,
Na poeira do tempo
Conflitos
Cristãos-Mouriscos
Gritos, cavalos relincham.
Espadas desembainhadas, cimitarras,
tinem no entrechoque
por nossa Fé.
A nossa e a dos outros.

III
Aljezur minha,
dos Sarauís – saloios,
sefardim-ladinos,
no auto-da-fé
amaldiçoados, insultados:
“marranos”!

IV
Aljezur minha
no tempo perdida,
Chibatadas, no áfrico – escravo
esquecidas
no cruel pelourinho
das casas senhoriais
arrogantes morgados
de fartos cabedais.
Lampejos da história
no remanso da memória,
hoje, luminosa Aljezur,
de meus encantos.

V
Aljezur minha,
dos moçárabes,
exilados sefardins-judeus
outros judeus convertidos
ou não tanto, cristãos-novos
de alheiras no arco da portada
à inquisição escapando.

VI
Ah, Aljezur minha,
doces sabores
batata-doce actuais
“Caldêrada” de “pêxe”,
Sorriso afável das Marias Franciscas
Moças morenas, trigueiras,
ruivas outras, das nórdicas paragens
ou da Bretanha, maior.

VII
Aljezur, do Saber dos ti-Manéis,
Josés e Joões Fernandes,
Craveirinhas de Sacêra
com vacas na remada
a comer a roçar a mata,
na labuta da lavoura,
por dez tostões na jorna:
“Pórquêra” de vida!”

VIII
Aljezur minha,
na faina da pesca,
esforçados outros, ainda
Desafiando o encrespado
“Mar Português”
cantado
como “Lágrimas de Portugal”
pela Pessoa de Fernando.

IX
E, se
“Valeu a pena?”
“Se a alma não é pequena?”
Perguntem também ao Fernando,
mas o da Ofélia!

Nota: Poema rascunhado algures entre o Além-Tejo e o Algarve a caminho de Lisboa em 25.03.2007. Imagens de arquivo histórico; fotos família Craveirinha de Aljezur, Portugal (1917 e década 1930-40-60). Com fotos de João Craveirinha

*João Craveirinha*
*(Poeta, contista e artista plástico moçambicano; poema inédito)

6 comentários:

ANNA MATHAYA disse...

Fantástico!

Lusina disse...

Moro perto de Aljezur... nao sabia
que José Craveirinha gostava tanto dela ! Acho que vou copiar um pouco.

ELCAlmeida disse...

Cara Lusina, não é o José mas JOÃO! Um sobrinho muito, mas muito, próximo do grande poeta José Craveirinha.
Sobrinho de peixe, peixe é!
cumprimentos
Eugénio Almeida

lusina disse...

Desculpe ! Faço facilmente (demais !) confusoes destas.

João Craveirinha disse...

Cher Lusina,

Merci pour votre sensibilité. Sil vous plaisez pouvez faire la traduction total de cette poème là dans votre blog. Pas de problème. Seulement citer la source, sil vous plait et merci aussi.

Le attachement du poème ici (complet).
http://malambas.blogspot.com/2008/01/aljezur-algarvia-dos-meus-encantos.html

Les meilleurs compliments.
L’auteur;
João Craveirinha

Post scriptum : Prochainement (un jour) je traduirais le même en anglais, allemand et ronga (langue baN'to du Maputo - Moussambique).

Merci aussi pour la sensibilité démontré pour Anna Mathaya.

Anónimo disse...

"sobrinho do peixe sabe nadar"
Nada mais errado e injusto. Se é que sei nadar (?!) nao eh por ser “sobrinho do peixe” algum...

mas ser filho de meu Pai Joao (senior) que nao por acaso(depois do pai deles algarvio) foi o
segundo Mestre de português e de cultura -geral do irmao mais novo Jose Craveirinha, o Poeta-mor, nos intervalos de seus estudos desde a escola primaria ao Liceu 5 de Outubro no local defronte da Cristal hoje Escola Comercial e Instituto.

Claro que o ADN do pai algarvio (poeta Jose Joao Fernandes) com gosto pelos livros e pela (c com cedilha nao sai)gerassao portuguesa de intelectuais de 1870 ajudou ao pai deles (meu avo) e aos dois filhos – meu pai Joao Jose e meu tio Jose Joao.

Meu tio Poeta-mor e eu tivemos o mesmo Mestre: meu Pai Joao senior (snr), alem do mesmo ADN algarvio de um de meus avos portugueses.

Assim esta mais correcto.

A minha vocassao para a Arte vem tambem de meu Pai meu Mestre (Joao senior) que foi um eximio retratista alem de estudante de 19 e 20 valores.

E mesmo com o racismo colonial por merito proprio e dificuldades foi o primeiro mossambicano não branco se preferem a ser Director da Fazenda Publica hoje Finanssas. Quase 40 anos de carreira tecnica exemplar. Ate 1975 era um dos grandes especialistas de Contribuissao e Impostos e Legislassoes fiscais dentro espaço do Imperio colonial portugues incluindo a sede em Lisboa onde ia habitualmente em servisso do Ministerio das Finanssas.

Foi tambem membro do Elos Club luso-brasileiro e mais tarde membro da Associassao de Defesa da lingua portuguesa de Lisboa.

A partir de Dezembro de 1964 Foi o ultimo Presidente da Associassao Africana (AAPM) ate ao seu encerramento pela Frelimo em 1974 – pos 25 de Abril 1974 depois de sabotagem civica de estudantes de Mossambique vindos de Portugal na AAPM cujas instalassoes foram ocupadas pelo Matchedge – FPLM / MD.Grupo desportivo do Ministerio da Defesa e transformado em discoteca e bingo.

Outra nota para a historia: Meu Pai Joao Craveirinha Snr., meu Mestre, fazia poemas em LATIM classico e sabia Grego classico, Frances, Ingles, Alemao, alem obviamente do Portugues. Foi explicador de geometria, matematica, fisica e quimica, literatura e historia, desenho geometrico e geografia.

Quando o irmao Jose (Joao) Craveirinha como revisor de portugues na Imprensa Nacional (Boletim da Republica) tinha duvidas perguntava ao unico irmao vivo e mais velho que era o meu Pai Joao. Muitas vezes a solussao da escrita correcta vinha da etimologia da palavra ou do latim ou do grego ou da sintaxe.

Ouvia-os a conversar e meu pai a elucidar os porques. Varias vezes o irmao poeta e jornalista como revisor da IN corrigia a lingua portuguesa aos responsaveis licenciados portugueses do Governo-geral na Ponta Vermelha.

A apoia-lo estava quase sempre o irmao, meu Pai (na retaguarda).

No jornal O Brado Africano em Lourensso Marques (decada 1950) Jose Craveirinha (o poeta) era redactor e o seu irmao João Craveirinha (meu pai) era o seu chefe da redacssao.

Mestre Joao Jose Craveirinha (meu Pai) de seu nome completo tem uma monografia publicada sobre o plateau Maconde quando membro da Sociedade de Estudos de Mossambique em 1961 (foi tambem tesoureiro da Associassao dos Naturais e do Atletico Clube de LM de futebol e basquete):

Obra dele:

Monografia sobre alguns problemas da regiao dos Macondes
Monografia sobre alguns problemas da regiao dos Macondes / Joao Jose Craveirinha ...[et al.]
In: Moçambique: documentario. - nº 105 (Jan-Jul. 1961), p. 1-13
Descritores: Mossambique | Quadro social | Analise economica
Cota: APP 5|AR
[108673]

CRAVEIRINHA, Joao Jose
Monografia sobre alguns problemas da regiao dos Macondes / Joao Jose Craveirinha. - Contem mapas
In: Boletim da Regiao Militar de Mossambique. - 12 (1962), p. 5-31
Descritores: Africa Meridional | Mossambique | Monografia | Maconde
Cota: PP197|AHM

Teve um bom relacionamento com o conhecido antropologo portugues Prof. Jorge Dias.
[44464]

DIAS, Jorge
Mudanssa de cultura entre os macondes de Moçambique / Jorge Dias. - Salvador : (s.n.), 1970. - p. 261-266
Descritores: Moçambique | Etnologia | Grupo etnico | Cultura | Analise social
Cota: 21672|ISCSP


Como se ve nada tem nada a ver ser sobrinho de alguém. Seria ser clone sem personalidade propria e de lado. Minha linhagem eh a de Joao Jose Craveirinha senior (mais velho) meu Pai e meu Mestre.

(Tinha isto calado faz tempo).
Joao Craveirinha junior (mais novo ou filho)

p.s. em todo o caso agradesso a motivassao qie me fez tirar estes elementos antes que eu morra…e leve para as cinzas estes pequenos segredos de familia em que sem duvida o grande vulto que mais longe chegou no Mundo das Letras foi o meu tio Poeta deste escriba errante (eu).

Sia Vuma Malume e poeta-mor Jose Craveirinha, o Sontinho de minha avo Carlota Mangachane Mafumo, mae dele e de meu pai. A minha bisavo Fanisse Muianga praticamente eh que velava pelos netos (meu pai e tio) ate aos 4 e 6 anos meu pai e meu tio nao sabiam portugues so falavam xiRonga em Bokisso.

O Pai portugues (deles) por intervenssao da madrasta branca, portuguesa, eh que lhes foi buscar do mato e colocou-os na escola. (por hoje chega).

Joao Craveirinha