terça-feira, fevereiro 26, 2008

Incerteza

"o caminho parou longe..."
(Desenho de João Azevedo e Silva)


Incerteza*
(Angola ausente)


Sinto
no ar
no silêncio
no ruído
na luz
e na escuridão
auréolas
do teu corpo
mensagens
de tua alma.

Quero
prendê-las
tocá-las
absorvê-las.

Tento
juntá-las
erguê-las
formar teu ser
palpável.

Em vão…

Persisto
pois
rasgando
o espaço
e o tempo
buscando
na comunicação
de nós dois
a certeza de que existo.

*João de Azevedo e Silva*
(poesia de Angola; da obra Angola: Quotidiano I)

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Fala da rainha de regresso ao Kimbo

"Tempestade no deserto do Namibe"
(O deserto da infância de Ruy de Carvalho; foto de
Saiago)

Fala da rainha de regresso ao Kimbo*

O capitão chegou
viu e venceu.
É a sua força
de matar-me os homens.
Minha porém, maior,
é a ciência
de entender os astros.
à mão que fere e mata
oponho uma colheita de segredos.
A terra é minha
e dela me entronizo.
às gerações delego
a reconquista.
O tempo que me serve
é de outra cor
e o sol decidirá
a cor do mando.
Irmãos ouvi-me bem
eu sou rainha.
Quem vos governa os corpos
saberá
das outras heranças
para que me guardo.

De que futuro pode haver temor
para quem tanto acumula de passado?


*Ruy Duarte de Carvalho*
*(angolano; poema da obra “Memória de tanta guerra (Antologia Poética)”, 1992, edições Vega;
daqui)