sexta-feira, janeiro 30, 2009

Viagem

Sem título
(Tela de António Aly Silva, 2002;
daqui)

Viagem*

O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga a minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

*Mia Couto*
(Escritor moçambicano; retirado do livro”Poemas Leya” e originalmente publicado na obra “Raiz de Orvalho”)

A alma é como a lavra

"A invocação mágica de Alma Welt"
(Óleo sobre tela de
Guilherme de Faria, 2007)

A alma é como a lavra*

A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?

*Maria Alexandre Dáskalos*
*(Poetisa angolana; retirado do livro”Poemas Leya” e originalmente publicado na obra “Jardim das Delícias”, 2003)