sexta-feira, julho 14, 2006

UAU!!! Férias grandeeees!!!!

Apesar de não vir aqui durante as próximas quase três semanas colocar novos contos e poemas, nem por isso, ou talvez por isso mesmo, se deva de deixar continuar manter viva a cultura e a leitura.
Pois nestas três semanas alguns livros que têm estado nas prateleiras para melhor oportunidade vão ver o seu pó ser limpo e as suas palavras degustadas com imenso e evidente prazer.
Boa leitura e boa cultura.

terça-feira, julho 11, 2006

Poema de um homem só

"Marie-Hélène"
(Óleo sobre tela de Arpad Szenes, 1942)

Poema de um homem só*

Alma pura, bela e cristalina,
maldita lava incandescente;
és ofuscante
e radiosa.
Porém,
róis-me,
no todo,
profundamente.
Fronte de loiro coroada,
és amora silvestre.
Rosto sereno,
angélico,
inteligente,
irritadiço.
Desprezas, feres,
odeias ou amas?
O que emanas
nesse teu vaguear constante
ondolante,
sem dó.
És,
certamente,
o meu fruto proibido,
o fruto vedado a um Homem só!

*Lobitino Almeida N’gola*
*feito em Lisboa, 23 de Maio de 1989

Poesia

"O Ninho"
(Acrílico sobre tela do moçambicano
Noel Langa, 2006)

Poesia*

Não faço mais nada!
Estou farto de rima
Fisgada
Em cima, em baixo,
Ao lado.

Estou fatigado:
Não há poema que valha
Um raio de sol,
Pão na toalha,
E uma mulher no lençol!...

*António Cardoso*
*(poeta angolano, poema autografado, de Maio de 1971, cedido por Susete Antão)

quarta-feira, julho 05, 2006

Mundial de Futebol no México

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"Atlético Nacional de Lourenço Marques"
(Foto de 1944, cedida por João Craveirinha; nela vêem-se o poeta José Craveirinha e o grande capitão Mário Wilson)**


Mundial de Futebol no México (em Directo)*

Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos
enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?
Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona
o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?

Ligo o televisor e oiço um fulano a perder o fôlego no delírio do gôôô…lo!
tudo via satélite no interior de minha casa sem eu lhe abrir a porta
com medo dos fleugmáticos anglo-saxónicos chefes das zaragatas
e por causa das guapas moças de “shorts” a abanarem as mamas
no centro do écran e sem que o árbitro assinale a falta.

Aqui onde as crianças adeptas do Futebol Clube Tuberculose
roem mandiocas fatais com a tal força anímica
porquê a prioritária urgência em admirar
um lírico Sócrates a falhar platonicamente um golo mais do que certo?

Mas porquê esta fortuita indigestão de futebóis de dólares
saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias
o drama das ampolas de penicilina que não temos?

Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste
a agredir impunemente o triste indefeso Luís de Camões?

Com as hábeis botas do sr. Diego Maradona a chutar-nos
quantos sapatos calçariam os pés dos Meninos
infutebolizados pelo malfazejo júbilo
das hienas soltas nas matas?

Nesta jogada de comida intelevisível
60 xambocadas indemocráticas de massas em directo
mais outras 60 xambocadas em diferido no adiposo
rabiosque fútil do idolatrado “desporto-rei”
com dólares “cash” pagos em Maputo
deliciando o anónimo dono do satélite.

Em honra de todos os membros da FIFA
e todos os espectadores ausentes nas bancadas sol
vamos vivar os maiores craques aztecas
e deixar os heróis dos golos em paz
no território soberano deste papel.

Viva Siqueiros!
Viva!
Viva Orozco!
Viva!
Viva Rivera!
Viva!

E agora palmas à magistral tabelinha
entre os grandes craques mexicanos
Emiliano Zapata e Pancho Villa
heróis do grande campeonato a sério
desde sempre disputado nos pátrios campos do México.

E viva Emiliano Zapata!
Viva!
E viva Pancho Villa!
Viva!

E de fora da grande área do último mundial
dedico aos eternos mártires da bancada sol
este meu humilde golão vitorioso
só com meticais em directo sem satélite
e nem um único dólar em diferido.

Viva o craque Emiliano Zapata!
Viva!
ZÉZÉ (um ex-futebolista arrependido).

*José Craveirinha*
*(poeta moçambicano (1922 / 2003); poema escrito em 1986)
** (Foto inédita oferecida por “Manuna” (irmão mais velho de Matateu e de Vicente) a João Craveirinha na década de 1970. Inserida na página 76 no seu livro (2ª edição): Moçambique – Feitiços, Cobras e Lagartos. (Etno-história) – Esta matéria está publicada no jornal “O Autarca da Beira”, e no Zambeze Online)

Queria ser empresário

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"Empresário alheado"
(Foto retirada daqui)
.
Queria ser empresário*

Esta dor de não o ser
Seu peso
A balança desconsegue de pesar.

Esta dor de não o ser
A luz solar
Desconsegue de iluminar-me.

Esta dor de não o ser
A água dos rios
Desconsegue de matar
Minha sede.

Esta dor de não o ser
Faz com que todos os açucares
Desconsiguem de me adocicar.

Esta dor de não o ser
Leva a toda música do mundo
Impedir de me alegrar.

Esta dor de não o ser
Obrigou a noite
A tirar me o sono.

Esta dor de não o ser
Faz com que todas as comédias
Sejam insuficientes
Pra arrancar-se de mim
Um magro sorriso.

Esta dor de não o ser
Faz com que todas as vitaminas
Sejam nulas
Pra enriquecerem meu corpo
Com proteínas.

Esta dor de não o ser
Sua sujidade
A lixívia
Não conseguirá limpar.

Esta dor de não o ser
Sua cicatriz
Far-me-á deficiente físico.

Esta dor de não o ser
Tornando-me guloso
A fome jamais há-de acabar.

Esta dor de não o ser
A manhã de sol ardente
Nunca poderá me atrair.

Esta dor de não o ser
Impedirá que todos os perfumes
Afugentem seu mau cheiro.

Esta dor de não o ser
Fará com que todos os medicamentos
Impeçam de curar
Esta maligna doença.
.
*Luis Miguel*
*(um angolano em Holanda, feito a 02/07/2006)