domingo, março 18, 2007

Contos da vida real 8: A Epopeia de Gilgamesh

"Mulher angolana"
(Foto de P. Valente, retirada
daqui)

A Epopeia de Gilgamesh
Crónicas do reino de Abdera, algures no Golfo da Guiné*


A minha sobrinha sentada, estava com a cabeça e as mãos encerradas nas coxas. O segundo filho de apenas dois anos de idade, encostava-se a ela procurando os afagos cansados, inexistentes. A criança respirava a miséria constitucional permitida do paludismo e da fome sempre épicos. Sabia, quem não sabe o que se passa? Deixei que ela apresentasse os seus lamentos.
- Sambita… esses olhos esfomeados, a fome persegue-te…
- Sim… a chuva arrastou a minha casa… arrastou tudo… fiquei invisível, sem nada.
- E não procuraste o auxílio do governo?
- Para quê? Se fosse filha de general ou outro que tal.
- E o teu marido?
- Oh… tinhas razão, só sabem fazer filhos, abandonou-me, foi para casa de não sei onde… despachei-o para o espaço… não quero mais nada com homens.
- Sim, estou a ver. Sambita, insisto, devias ter aproveitado a Arca de Noé ministerial, governamental.
- Já não há quem acredite nessas coisas. Essa Arca, copiaram-na da epopeia de Gilgamesh. Esta gente é como o dilúvio… sempre a arrasar, a arrastar.
Fui nas gavetas da minha esposa, roubei-lhe alguns biquínis e soutiens e outras roupas que achei desnecessárias. Juntei tudo num saco de plástico grande.
- Sambita, toma… da pouca comida que temos ainda chega para ti e para a criança.
As faces dela e da criança pareciam uma filial de Darfur. Comeram até se notar que os olhos irradiavam aquela satisfação conhecida e contudo desconhecida da saciedade. Se os políticos passassem fome, decerto sentiriam na alma os anseios dos esfomeados. Mas, politico é para discursar, falar muito até enjoar. Politico é o segredo não divulgado da clonagem milenar.
- Tio, preciso de dinheiro… a criança está com dois por campo… o paludismo mata.
- Então, ninguém da família te ajuda?
- Tio, já não existe família, não existe nada. Só petróleo, diamantes e muitas amantes.
- É pá!.. só tenho duzentos dólares… meu Deus… dou-te cem… sabes, tinha este dinheiro guardado para no caso de ir parar doente a um hospital, porque sem dinheiro morremos lá na porta deste inferno independente rejuvenescido.
Entreguei-lhe o dinheiro e se abraçámos. Os abraços dos miseráveis, a Teoria da Relatividade, e a Teoria Quântica não os conseguem relativizar nem quantificar.
A tarde estava meia, o sol abrasava-a, o mar recebia o excesso de temperatura da terra. Mais nuvens de Gilgamesh atestavam os depósitos com água. Mais torrentes diluvianas se preparavam para assolarem os miseráveis. A miséria e a fome perseguem os governados, os governantes não. A fome é uma dádiva divina. As sagradas escrituras dizem que para atingir o reino dos céus é necessário muito sofrimento, muita fome. Os ricos e poderosos estão eternamente protegidos por um Deus invisível, visível, compreensível, incompreensível.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, 2007)

Sem comentários: