O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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quarta-feira, agosto 27, 2008

Durmo sem sonhar

"The Dream"
(Tela de
Henri Rousseau, 1910)

Durmo sem sonhar*

Nasci na África triste, ou triste Africana
Evito encontrar-me, fujo de mim
Durmo sem sonhar
Até os pesadelos me abandonaram
Sonho de olhos abertos e vejo milhares de naus
Multidões nas praias que me perseguem
E escondo-me no que resta da civilização

Tento suavemente sentir a sensação
Da profunda escuridão
Depois das dramáticas batalhas de cada minuto
Para não encurtar a minha vida
Nos muitos anos de guerra
Porque os desígnios da minha existência paradoxal
Nunca serão lembrados

No beiral areal, real lixeira de corpos desumanos
Sou como os palhaços, rio, faço rir
Dentro de mim estou triste
Rio para esconder a minha tristeza
Tenho o direito ancestral de ficar calada
Os dias antecedem a bruma das noites
Negra escuridão dos tempos perdidos,
jamais recuperados
Receio que tenha de partir para longe,
já que aqui não vejo ninguém por perto

Revolução de contínuos descontinuada
Na apanha da bebedeira ficam três dias a dormir.
Alguns não acordam
Era o colonialismo, a seguir vieram os descolonizadores
Depois o neocolonialismo. Que será o que se segue?
África, berço e túmulo da humanidade.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; retirado
daqui)

sexta-feira, março 07, 2008

Meu Filho

"Les Grandes Constructions"
(Óleo sobre tela,
Vieira da Silva, 1956)

MEU FILHO*

Meu filho!
Quando ouvires os políticos guarda silêncio
Porque quando se cansarem serás escutado
No cerro da noite não temas as sombras das árvores
Contraria-te, congratula-te pelo luar oferecido
Porque nos tempos dos temporais que decorrem
Só nos resta essa sublime dádiva divina
E quando vires um esfomeado arrastar-te no teu caminho
Nunca o desprezes! Ele indica o caminho da espera
Aos que desviaram maliciosamente os caudais das riquezas ilícitas
Para a democracia das contas secretas da Suiça

No dia-a-dia passarinheiros imitarão o canto de sereia das promessas
Repetirão sem exaustão sempre o prometido
E nas iguais odes e sonatas escutadas por todo o lado
Perdurarão sempiternos trovadores místicos
E jograis que não serão mais escutados
Na tormenta das cidades não absorvas as multidões
Afasta-te, observa-as
Verás um universo circense, muita palhaçada

Nas muitas horas vadias não te dás conta
Do tempo que te resta, que te falta para viveres
Irremediavelmente já te passaram muitos anos
Na máquina do teu tempo
Despertas porque já não tens mais horas vagas
Na recuperação do tempo perdido
Conheces muitas pessoas mas, nunca conhecerás nenhuma
Se não conheceres profundamente uma delas
E quando finalmente só e abandonado
Relembra-te que os teus pais
No silêncio tumbal aguardam a tua companhia
Estão, estarão sempre contigo

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; original de Março de 2008)

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Contos da vida real 11: Clínica dos Petróleos e Corpo Diplomático

" 'O Pregão'; vendedora de milho de Luanda"
(Tela de Toia Neuparth)


CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO*

“A política não é apenas para ser feita pelos políticos”. Gilberto Freyre.

A libertação da escravidão é uma ilusão.
As madeiras de ébano estão estatuadas, estratificadas, no passeio do prédio passeadas. No seu tabuleiro, a velha Teresa retoca as pinturas dos rebuçados, bolachas, pastilhas elásticas, cigarros. Reajusta o gelo na caixa térmica para que as gasosas magnetizem a clientela. No centro do tabuleiro um bocado de papelão previne: NÃO ACEITO KILAPIS!
A Marta e a Emília tentam kinguilar dólares.
Passa uma ambulância com o dístico: CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO.
A velha Teresa espera que o efeito “dopler” termine e inicia a conversa habitual, interminável.
- Até agora nunca consegui entender porque é que vi a maldade sempre triunfar. E a bondade limitar-se apenas, creio que é isso, a uma mera invenção, para nos tornar submissas, obedientes e temerosas.
A Marta está atenta a um carro que parou. Parece que quer trocar.
Faz-lhe sinal com a mão. O outro renuncia. Engata-se na dica da velha Teresa.
- A abolição da escravatura foi mal feita. A escravatura e o colonialismo ainda não acabaram.
Um esfomeado da democracia incipiente colecciona qualquer coisa nos caixotes do lixo. A velha Teresa usa o seu melhor tom crítico.
- A independência deles veio para andarmos à procura da nossa liberdade nos caixotes do lixo. O que resta da nossa liberdade, está aí!
A Emília estava com cara de taxo. As duas olharam-na interrogativas, como querendo insinuar o anormal de mulher estar calada. A Emília sorriu um pouco, e concordou:
- É isso manas! Somos uma nação de escravas, dirigidas por escravocratas!
A Emília escuda-se na cara de contra-anúncio. A velha Teresa intriga-se:
- É o quê, mana Emília!?
- Porra! Esses gajos são muito feiticeiros! Primeiro enfeitiçaram-me 2.500 dólares falsos, depois mais duzentos; É pá!.. vou na igreja, não se pode estar na rua. Conseguem roubar o dinheiro que temos na carteira; é como se tivessem um aspirador.
A mana Marta já tomou defesas, um anti-feitiço.
- Eu estou a pôr um bocado de carvão e jindungo na minha carteira, para não me aspirarem o meu dinheiro.
A velha Teresa não deixa escapar nada.
- Olhem; olhem; não é a Génia?
A Génia está estacionada, disfarçada entre automóveis. Esfrega, jubila a racha num pretendente. Fazem-se festinhas, cochichos, parece que mais tarde vai fazer horas extras. A velha Teresa chateia-se:
- Então, e o brasileiro? Parece que gosta muito dela. Está sempre a trazer-lhe coisas.
A Marta antecipa-se à Emília, pouco há para esclarecer.
- Oh! Qualquer um lhes serve.
A velha Teresa retoma o rumo dos habituais impropérios.
- Porra! É por isso que as pixas e mais essa merda toda me metem nojo. Ah; é por isso que nunca mais quis homem.
- Eu também não. Desde que o filho da puta do meu marido me deu chapadas na cara, nunca mais quis homem. Assim estou muito bem.
Homens, que vão todos para a puta que os pariu!; – Sentenciou a Marta.
Na rádio do poder ouve-se um governante alardear os seus feitos.
Publicita a inauguração de uma vulgar estrada, que se Deus quiser aguentará uns meses. Depois reconstrói-se e as comissões também. «E o que os colonos não conseguiram fazer em cem anos, nós acabámos de o fazer agora»
- É o ministro militante, triunfante da ainda vanguarda da classe operária e camponesa. – Gozou a Marta.
- Continuam a roubar-nos as terras, os terrenos; até fazem dos passeios armazéns de contentores, e agora parece que são os prédios; já nos tiraram fotografia. – Alertou a velha Teresa
- A nossa África Negra é o paraíso dos aventureiros e dos governantes sem escrúpulos. – Lembrou a Emília.
A Marta e a Emília olham fixamente, longamente para a velha Teresa que se assusta.
- É o quê manas? Não gosto nada que me olhem assim. Até parece que cheiro a catinga, ou tenho peçonha.
- Depois do arrombo que os feiticeiros nos deram, estamos a ficar aflitas com dinheiro. Pois é; como é; o dinheiro que te emprestámos, nada? A tua filha de Portugal, ainda? – Interrogou a mana Emília.
- É manas, estou bem fodida! A minha filha telefonou-me, disse-me que agora não dá, que comprou brutas roupas; é, vai-me enviar rebuçados, e que depois me enviará o dinheiro. – Justificou a velha Teresa.
Dois seguranças aguentam duas portentosas, rebentos de madeiras de ébano com dez anos de idade. A lábia delas é convincente:
- Vá lá; arriámos para dez dólares!
- É pá, não chateiem! Mas vocês não têm família? Não têm vergonha, ainda tão crianças? Deviam estar numa escola ou numa creche! – Aconselhou um segurança.
- Ah! seus burros, parvalhões! – Insultou a que parecia a chefe.
E foram-se frias com as rachinhas quentinhas na noite acalorada. Se não conseguirem rachador, não haverá comida, gasosa, e roupinhas.
A velha Teresa abana a cabeça descontente. Pisa fundo no acelerador da inconsciência nacional.
- Ainda agora nasceram, e já a sofrer assim? Meu Deus!
- Há muitos pedófilos entre nós nacionais; são uma das nossas instituições milenares. – Disse a Marta.
- Esta nossa pedofilia só é denunciada quando feita por estrangeiros! – Exclamou a Emília.
O homem conduz o seu carro agitadamente. Vê-se que está com muita pressa. Só pode ser por causa de um negócio. Vê um mendigo, um esfomeado à frente do carro a pedir esmola. Olha para o relógio e vê que está atrasado. Se perder o negócio perderá muito dinheiro.
Acelera e passa por cima do faminto, deixando-o esmagado, abandonado na via.
A quinze passos à esquerda do prédio está uma criança na porta do supermercado. O segurança enxota-a. Como fazem as moscas, a criança retorna. O segurança afugenta-a e vai e volta, vai e volta. O segurança interroga-a com a cabeça. A resposta é sempre a mesma:
- Tenho fome! Quero pão!
O segurança está cansado, não aguenta mais tanto rodopiar. Grita-lhe:
- Queres pão!? Vem cá!
O desgraçadinho acredita que conseguiu. Aproxima-se confiante e leva duas boas cacetadas nas costas. O segurança repete a pergunta:
- Queres mais pão!?
Um pouco mais à direita um homem que decerto é louco intenta arrancar uma terna árvore. A velha Teresa perguntam-lhe:
- Oiça, faz isso porquê?
- Vou construir aqui um casino. As árvores não me dão dinheiro.
Para chatear ainda mais, surge vendaval. As árvores agitam-se, querem roçar o chão. O lixo voa por todo o lado. Começam a cair os primeiros pingos robustos. Vai ser uma boa chuvada. A velha Teresa aflige-se, refugia-se com a mercadoria dentro do prédio.
- Merda para esta chuva! É quase assim todos os dias. Hoje não vou vender quase nada outra vez.
Eis que surgem novos-ricos. Os auto-eleitos presidente e vice-presidente do prédio. O presidente quer passar, mas o tabuleiro da velha Teresa não deixa. Então o presidente ataca:
- Já disse para acabarem com esta pouca-vergonha. Vão vender para outro lado!
A mana Emília fala bem português. A Marta e a velha Teresa também.
A Emília desfere um contra-ataque.
- Hum!.. mas você comprou o apartamento ou o prédio?
A seguir a comitiva está presente a esposa do presidente. A entrada já tem uma pocinha de água.
- Mas que chatice, que javardice. Vou molhar os meus sapatos e o seu delicado conteúdo.
- Porque é que não fazes como nós? Anda de chinelos! – Solucionou a velha Teresa.
- Eu!?.. Era só o que me faltava! Só usarei chinelos quando for pobre como vocês!
As madeiras de ébano reprovam-na agitando as cabeças. A velha Teresa é a primeira a recobrar-se do desânimo:
- Dantes eram os brancos, agora são os negros que nos escravizam.
Ai!.. manas; afinal lutámos pela nossa independência para quê? É tudo deles! Viva a nossa independência de escravas! Filhos da puta! Puta que os pariu!
Falta o mulato Eros, que desce as escadas triunfal. Com dezoito anos já tem duas filhas de duas adolescentes. Vem com uma negrinha, muito jovenzinha que intoxica as narinas com o cheiro de perfume muito barato. Só pode ser por causa da falta de água. Banhou-se com perfume para esconder o cheiro da catinga. E a Emília resume a vigilância, a contagem do mulherengo:
- Desde o meio da manhã até agora, esse mulato já subiu e desceu com seis negras. É um grande fodilhão. O gajo toma remédios.
E os congressos e os debates extermináveis prosseguem-se. Desdiz-se sempre a mesma coisa. Nada há de novo. Excepto o reino que se afunda, na miséria, na fome. E o dinheiro petrolífero, diamantífero abunda, abundante. Está o dinheiro nos bancos das contas pessoais, muito impessoais, muito secretas.
Tudo está como no Livro do Pragador.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Janeiro de 2008)

terça-feira, outubro 30, 2007

Contos da vida real 10: A Efémera Árvore

"Imbondeiro de Angola"
(Foto de
Paulo Arroteia)

A Efémera Árvore*

Qual é a diferença que existe entre um especulador imobiliário e um tubarão?
Nenhuma, são imprevisíveis.
Tinha talvez vinte anos quando a despediram da vida. Era muito atraente, oferecia, tinha ainda muitos promissores frutos proeminentes em frente. Cheios e cheia de saúde e assim morrer tão prematuramente… os frutos saborosos com que nos deliciava e a sua sombra, a frescura terminaram no reino inglório do lixo.
Era uma árvore, uma mangueira altiva e muito orgulhosa, nunca se deitava e não se cansava de viver sempre em pé. Convivia, participava, acompanhava as nossas vidas. Fincou raízes nas traseiras de três prédios, num grande largo que a juventude utilizava para disputar campeonatos de futebol. Junto dela vivia um homem de idade avançada, numa modesta habitação, e porque a saúde lhe desistia contactou um general para a sua venda. Feito o negócio, ainda se sentia o frio das notas bancárias e já alguns militares, mais um arquitecto, e um engenheiro começam a rodear a mangueira. Com curiosidade, olham-na de cima a baixo. Depois faíscam-na como inimiga, soldados trepam-na, e a rir como a festejar grande vitória contra um inimigo poderoso, tratam de esquartejar primeiro os seus ramos mais pesados, mais volumosos. A árvore rapidamente sente o fim aproximar-se, e entre suspiros e lamentos, gritos silenciosos, como só as árvores fazem, sons que os seres humanos não ouvem, não querem ouvir.
E a árvore continua a resistir ao assédio. Heroicamente resiste a cada golpe que sem piedade lhe assestam os seus inimigos poderosos. Já estava quase careca, desnuda. Creio que se sentia muito envergonhada, da sua nudez. Restava apenas o tronco que teimosamente insistia em estar ligado à Terra Mãe, aquela que a viu nascer. E a Terra sentia-se ferida. E num ronco descomunal surgiu uma fera de metal, que lançava fumo por todos os lados, como um dragão invencível… e com uma pá de aço, mergulhou nas entranhas da Terra e retirou as raízes, o esqueleto, o pouco que restava da pobre árvore, deixando lá uma cratera, o que alegrou os militares, habituados aos despojos no campo de batalha.
Depois, entre o tilintar de copos de bebida, o general, os seus soldados, o arquitecto e o engenheiro, beberam à saúde de mais um inimigo aniquilado. A seguir veio a niveladora, nivelou a terra, apagou os vestígios da descomunal batalha. Seguiu-se outra máquina que despejou cimento e areia. Os tijolos e demais materiais já aguardavam para iniciar mais uma obra da especulação imobiliária. Passados poucos dias já ninguém se lembrava que ali existiu uma árvore, uma mangueira. No seu lugar cresceria mais uma árvore de cimento e areia.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Outubro de 2007)

segunda-feira, outubro 15, 2007

O Livro de Job

"Sem título"
(Tela de Gracinda Candeias, 1990; imagem
daqui)

O LIVRO DE JOB*

Conheci o Job na fazenda dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu rei. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos maldosos. Proliferou sete filhos e três filhas e cabeças de gado aos milhares, e muita gente para o servir. Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu rei, como prova de gratidão, vassalagem.
Um dia o rei visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece um general. O rei pergunta-lhe:
- Donde vem?
O general respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o rei ao general.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta as pessoas maldosas.
Respondeu o general ao rei.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu rei concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado e as suas terras não param de aumentar, graças ao rei. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o rei e demais nobres.
Disse o rei ao general.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já expropriaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O general fez a saudação militar e saiu da presença do rei.
Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do general chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.
Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram tudo. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos três pelotões. Roubaram tudo. Só eu escapei.
Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, veio um tufão que arrastou a casa e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.
Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, e rapou o cabelo porque era moda. Atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros expropriados. Trabalhamos nas nossas terras, o general chega, e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do rei!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o rei.
Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo rei. O general estava presente. Então o rei disse ao general:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?
O general respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o rei ao general:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O general respondeu ao rei:
- A vitória é incerta. A generalização da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Ainda não sabemos como isto vai acabar.
O rei disse ao general:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratarei disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.
O general baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do rei desaparecer no céu, mandou alguns dos seus homens de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem. O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos da madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do rei? Depois do que o general dele te fez? És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar de o general me roubar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao rei.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!
E chegaram alguns amigos que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes roubaram tudo o que tinham. Que o mal era geral. Trabalhar de verdade não era possível, porque roubar é fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.
Apareceram alguns grupos de esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar na terra, porque depois vem um general e fica com ela. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso, e a terra abandona-se. Fica para acampamento de refugiados. As trevas dominam este reino. O rei está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas, que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra contamina-se, nunca mais nela nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores, que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.
E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Ainda me sobrou um tocador de CD portátil. Escutarei umas músicas e dançarei uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário? Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas ficam destruídas. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.
E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida, ainda crê que é um dom divino do rei do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida, e reza para que o seu comandante real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… vou apanhar um bocado de capim e fazer uma casota. Uns nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir, tenho que safar-me. O rei disse que não me abandonaria, mas já estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem no seu reino. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam de ser perturbados, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei, e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um reino maior que o reino. Maior que muitos reinos. Aqui não há pequenos, só grandes. E quem tenta lá entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.
E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes, que depois de encontrados ficam ocultos. As minas são propriedade real, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocar as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e roubar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. Só o oculto permanece, e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre à espreita. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque uma maldita rádio e jornais democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.
O Super-ministro do rei foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente!? Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no rei? Milhões confiaram nele, e vê como estão. A morrerem à fome!.. o rei disse que tens que esperar mais trinta anos para saíres da miséria… creio que o rei depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.
Entretanto o Super-ministro deu parecer aos arquitectos e engenheiros que construíam um bruto condomínio nas terras, que já não eram de Job. Serviria para alegrar, para lazer da nobreza. Para passarem brutos fins-de-semana, na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.
Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Super-ministro continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.
- A questão fundamental da vida é a grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Dá muita satisfação a quem o possui, e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais, até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.
O Super-ministro vai ao Hummer, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job.
- Sabes Job… o nosso reino é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende, ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite, e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!
Perto, talvez apelando aos antepassados, cantando a sua desdita, a negra-bantu demonstra, desmonta as coxas muito salientes, e os seios fartos, muito dissidentes, que equidistantes bamboleiam, falantes. O Super-ministro regozija-se com a beleza natural, espontânea da bantu.
- Job… explicar estas coisas não é nada fácil… tornámo-nos mais puros e justos que o Criador. Já não confiamos em ninguém. Nem em nós confiamos… tornámo-nos num metal cheio de ferrugem, com os alicerces a desabar a todo o momento. Resta-nos ainda o pó para respirar. Vivemos num imenso holocausto, e há felicidade nisso. Vivemos os últimos dias das tormentas tecnológicas, das promessas… que finalmente o ser humano alcançaria o bem-estar e a felicidade eternos. As desgraças atingiram tal dimensão que os meios existentes já não satisfazem a demanda. Inventámos uma sociedade onde só existe a ira e a loucura. Tentamos lançar raízes, mas as águas sobem e não as deixam viver. Chegam com tal força que despedaçam tudo o que encontram pelo caminho. E não há quem nos livre. Depois vêm os famintos… o instinto de sobrevivência que os transforma em salteadores, predadores. E da terra não vem mais trabalho, porque dela só resta pó. E sem trabalho que fará o homem? Espera que a fome chame a morte. Esta vem e anuncia a agonia. E quem se salvará? É por isso que necessitamos do nosso rei, de alguém que nos dirija. Só ele entende os nossos anseios e faz obras para nos contentar. Se a chuva é demais a culpa não é dele. Também não é culpado pela inundação dos campos. Quando isso acontecer procurem um lugar alto para se salvarem. Estendam as mãos e aguardem, que alguma coisa virá. Porque será que os ricos são ignorantes, e os pobres sempre sábios? Porque na pobreza se aprende a viver, e na riqueza se aprende a destruir. O pobre conhece as veredas da escuridão, e o rico nela anda às apalpadelas, sempre com a espada preparada para matar. O pobre vive na esperança, o rico vive no desespero. O pobre vive com medo dos castigos do nosso rei, e nós os ricos, recebemos prémios. Não dá ir na conversa das ideologias políticas, e nos aventureiros que são muitos. É por isso que ficamos sem nada. Talvez esses da ajuda da paz te arranjem um bocado de sabão, óleo, e arroz. Como o Mal está em todo o lado, eles também podem ajudar com qualquer coisa. Seja como for, nunca te desvies do Mal. Ele está no nosso coração. Vamos prolongar a vida das pessoas até às eleições. Depois podem correr como entenderem… da fome claro!
Job, ficou horas astronómicas, canónicas, a fitar o infinito cosmogónico. Job, sentiu eclipsar-se, não conseguia explicar-se o porquê do aparecimento do Homem na Terra. O porquê de tanta trama que tal criatura produz tanto drama. Job, ficou com a cabeça em pantanas, no Paleozóico, não conseguia discorrer o pântano do comportamento andróide. Conseguiu absorver o álefe das borrascas humanas, e tocou o céu.
- Os amigos são como as ondas do mar. Quando chegam abraçam-nos, quando vão… não voltam mais. São como corvos que aguardam pacientes… como as silenciosas pirâmides egípcias. No alto dos seus templos esperam pela colheita de quem plantou. Posso firmar que a história da humanidade, é a história de quadrilhas selvagens bem organizadas.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Junho de 2007)

Vento

"movimento, aite, tormenta, inmensidad, desasoguiego"
(Tela de
Judit González Barcina)

Vento*

Quando nascemos somos comunistas, mais tarde optamos, somos socialistas, finalmente damo-nos conta, somos neoliberalistas.
A essência do germinar das lápides estiradas, atiradas ao abandono. Reencontradas nas cavernosas, cavernas escusas, depois iluminadas pela alta voltagem inofensiva do sublime amor.
A história humana é o calvário, purgatório, martírio do amor da proporção divina nas listras zebrais, equilibradas entre o amar e viver Condenámo-nos à nascença a amar, mas recusamos, teimamos em odiar Não é ser, é ter alguém para confiar, divino em que acreditar Temos que apreender a dizer não, a este faz-tudo de amar clonado em vão. Evitemos que os vendedores revendam o ardor da paixão. Não podemos resumir esta contenda nos gestos augurais das vestais continentais.
As plantas ondulam porque amam o vento. Se este faltasse, o ódio reinaugurar-se-ia de verde amarelecido.
As asas do estímulo vivencial, são código genético desconhecido, que nos faz voar, perfumar, o aroma para amar. E quem isto ousar proibir, será proibido. Os sensores do amor quando activados ficam desordenados. No futuro serão bloqueados, porque perigarão os instrumentos sensíveis das naves interplanetárias. Será imaginado, recriado um longínquo planeta amoroso, para amantes eternos. Os circuitos do amor desafiam as leis e a velocidade física. Não há, não haverá máquina que calibre a sua invisível intensidade. Porém, ele esforça-se e tem mais que força, perenidade para viajar pelo infinito do Universo. Deixai que os sedentos bebam da sua água pura, para que a impureza da poluição das águas não cause pandemias, e aconteça a sua extinção. Apenas um minuto de imensidão amorosa, vale milhões de anos planetários. Para quê lutar, se estamos sempre presos nos tentáculos das areias movediças, acariciantes, desse eterno sentimento. Tudo se extingue, parece em vão, o amor não! O amor tem muitas pernas, mas quatro estão sempre presentes: duas femininas, e duas masculinas. O útero da deusa mãe aguarda o seu convidado, e os pés dos amantes movem a escala Richter.
Promete que amarás o amor, e nunca te cansarás da sua tentação. A diferença que existe entre o rico e o pobre, é que o pobre é rico de amor. E o rico vive na pobreza espiritual à procura do amor. A plenitude virá quando soarem as badaladas cardíacas, rítmicas do relógio bioquímico do nosso coração. Não haverá tormenta que nos domine, que nos separe, porque estamos acorrentados, desmaiados nesse sem sentido, perdidos nos outros sentidos.
Que sejam santificados os mártires do amor, e que nos próximos tempos um salmo planetário seja cantado na cosmologia. E dos suicidas infelizes apenas porque amaram… serão edificadas estátuas de beijos com luz estelar aos viajantes espaciais com a inscrição:
AOS INFELIZES DO AMOR TERRENO QUE APENAS AMARAM.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Agosto2007)

sexta-feira, abril 13, 2007

Doutores, Poetas e uma Trova

"Turbulência"
(Tela a óleo de
Alim)

DOUTORES, POETAS, E UMA TROVA*

Que lamento… os quadrúpedes destruíram os bípedes… ficaram feras em festim que infestam o reino com festas.
Uma invasão de predestinados, doutores e poetas institucionalizados. Poetas, todos com o dom que Deus lhes deu. Doutores evidenciados, anunciam-se:
- A montante e a jusante do sistema desestruturado, ainda sem condições psicológicas objectivas e subjectivas, de efeitos endógenos e exógenos, porque as estruturas não confinam, foram-se, estão debalde abaladas. É o binómio da aderência positiva e do saneamento básico do meio.
E o auditório em uníssono aplaude a sapiência do grão-mestre.
Com o analfabetismo a oitenta, noventa por cento, os doutores e poetas excedem as esquinas. Nestas se acotovelam, atropelam-se, e não têm Muro das Lamentações. Donde repentinamente veio tal avalanche de avatares? Ninguém sabe, mas desconfia-se que é devido às alterações climáticas, ao calor abrasador que faz ferver os cérebros. E já se instituiu a novel classe social do doutor coronel-poeta, doutor novo-rico, poeta novo-rico. É a abertura da marcha do desenvolvimento económico e social. É mais fácil ser superficial, porque aprofundar exige muito trabalhar
O estatuto de doutor e poeta permite-lhes reuniões, debates, conferências, seminários, assembleias, tertúlias, e agenda nacional de consenso, onde no fim os participantes descobrem estupefactos que não há consenso. Há unanimidade em que as questões económicas e sociais de um país decidem-se com intermináveis conversas. Desconhece-se quem está disposto a trabalhar. Um participante desiludido questionou:
- A democracia é a aspiração do voto em dias melhores que nunca surgem. É o eterno voto de permanecer sempre na mesma. As tradições orais foram-se, perdemos a nossa identidade cultural. O desenvolvimento económico e social é sustentado pelos doutores e poetas dos planos quinquenais. O melhor desenvolvimento económico é matar o povo à fome. E a militância poética glorifica os feitos dos reis do petróleo. Ah!.. poesia da terra oca, vazia, sem conteúdo, irrealidade virtual.
E o poeta militante, milita, afia as goelas, palavreia:

Os meus punhais anoitecem, na destruição sistemática
Do que resta, já foi, já era, não será
Punhais ferrugentos, das águas impuras
Corroídos, perdidos nos quilombos. Corruptos, corrompidos!
Ao libertarmo-nos do colonialismo tínhamos o desejo do regresso
Aos nossos gloriosos eternos quilombos. Estamos imensamente felizes
Todos mandamos, somos chefes, somos a anarquia
Somos livres na nossa feitiçaria, na nossa anarquia
E quem é que manda? Os donos do petróleo e diamantes!
Ser patriota, é passar fome, nunca venceremos esta guerra
Porque é atrozmente difícil. Fácil é carregar no gatilho
Sem bibliotecas públicas, e com milhões de gatilhos
Pereceremos vencidos, vendidos à fome.

Dos poderes da magia, eis que surge o último trovador profissional da tradição oral:
- Bantus, à procura do Graal, da perdida tradição oral! Canto a trova dos deserdados das fortunas, desesperançados da riqueza aviltados. Nos poderes exteriorizados. Poder, são os povos a sofrer. O poder da miséria é histórico. Morrer, padecer à fome é um acto heróico. São tantos os soldados conhecidos. A vida da miséria é revivida. Nos tostões parcos da despedida. O poder de Kalunga é incomensurável. Só nos lembramos Dele quando a miséria bate brutalmente no coração. Que antes era ferro ferrugento, e que repentinamente se purifica. E a lepra subsiste. Símbolo da miséria é andar de mão estendida, com o filho às costas, a chorar, a desesperar. Por entre carros desumanizados, sem conseguir mendigar. Os passos encurtam-se, está a acabar a luz solar. O chão de dormir endurece a noite sem luar. Fome é desfalecer, desarrumar a esperança sem forças para lutar. É triste morrer só, abandonado em qualquer lugar. A fome não tem moradas, mas os seus caminhos estão localizados. Os ignaros sacralizam-nos, presenteiam-nos os caminhos da fome. Sem estrada, ponte, rua, sem nada. Os abarrotados protegem-se oprimindo os miseráveis. Os miseráveis bebem água inquinada, os abarrotados água engarrafada. O calendário da vida está prenhe de dias injustiçados.
Pausa, retoma a memória:
- Fora de questão: não é o menino das chuvadas, é o homem.
É isso! E num país de sol ardente um carro aportado, abortado sem ar condicionado. As pessoas estão sempre a morrer e a nascer, a chorar e a cantar. Uns vão mais cedo, outros mais tarde. Mas todos vão. Idiotas com uma bandeira e um hino! A questão é: sem um tostão. Isto não é uma nação, é o fundamentalismo da escravidão. Uma agenda sem consenso, sem referendo da fome.
.
*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, 2007)

domingo, março 18, 2007

Contos da vida real 8: A Epopeia de Gilgamesh

"Mulher angolana"
(Foto de P. Valente, retirada
daqui)

A Epopeia de Gilgamesh
Crónicas do reino de Abdera, algures no Golfo da Guiné*


A minha sobrinha sentada, estava com a cabeça e as mãos encerradas nas coxas. O segundo filho de apenas dois anos de idade, encostava-se a ela procurando os afagos cansados, inexistentes. A criança respirava a miséria constitucional permitida do paludismo e da fome sempre épicos. Sabia, quem não sabe o que se passa? Deixei que ela apresentasse os seus lamentos.
- Sambita… esses olhos esfomeados, a fome persegue-te…
- Sim… a chuva arrastou a minha casa… arrastou tudo… fiquei invisível, sem nada.
- E não procuraste o auxílio do governo?
- Para quê? Se fosse filha de general ou outro que tal.
- E o teu marido?
- Oh… tinhas razão, só sabem fazer filhos, abandonou-me, foi para casa de não sei onde… despachei-o para o espaço… não quero mais nada com homens.
- Sim, estou a ver. Sambita, insisto, devias ter aproveitado a Arca de Noé ministerial, governamental.
- Já não há quem acredite nessas coisas. Essa Arca, copiaram-na da epopeia de Gilgamesh. Esta gente é como o dilúvio… sempre a arrasar, a arrastar.
Fui nas gavetas da minha esposa, roubei-lhe alguns biquínis e soutiens e outras roupas que achei desnecessárias. Juntei tudo num saco de plástico grande.
- Sambita, toma… da pouca comida que temos ainda chega para ti e para a criança.
As faces dela e da criança pareciam uma filial de Darfur. Comeram até se notar que os olhos irradiavam aquela satisfação conhecida e contudo desconhecida da saciedade. Se os políticos passassem fome, decerto sentiriam na alma os anseios dos esfomeados. Mas, politico é para discursar, falar muito até enjoar. Politico é o segredo não divulgado da clonagem milenar.
- Tio, preciso de dinheiro… a criança está com dois por campo… o paludismo mata.
- Então, ninguém da família te ajuda?
- Tio, já não existe família, não existe nada. Só petróleo, diamantes e muitas amantes.
- É pá!.. só tenho duzentos dólares… meu Deus… dou-te cem… sabes, tinha este dinheiro guardado para no caso de ir parar doente a um hospital, porque sem dinheiro morremos lá na porta deste inferno independente rejuvenescido.
Entreguei-lhe o dinheiro e se abraçámos. Os abraços dos miseráveis, a Teoria da Relatividade, e a Teoria Quântica não os conseguem relativizar nem quantificar.
A tarde estava meia, o sol abrasava-a, o mar recebia o excesso de temperatura da terra. Mais nuvens de Gilgamesh atestavam os depósitos com água. Mais torrentes diluvianas se preparavam para assolarem os miseráveis. A miséria e a fome perseguem os governados, os governantes não. A fome é uma dádiva divina. As sagradas escrituras dizem que para atingir o reino dos céus é necessário muito sofrimento, muita fome. Os ricos e poderosos estão eternamente protegidos por um Deus invisível, visível, compreensível, incompreensível.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, 2007)