segunda-feira, setembro 24, 2007

Pólvora

"Bromélia"

Pólvora*

Casa nova
mobília em caixas de papelão
ainda empilhadas na sala
Displicentemente você me pergunta:
“aonde boto a T.V.?”
Inadvertidamente eu respondo:
“no lado zen da vida”
Pra que!


*Cláudio Portella*
*(poeta brasileiro; poema retirado
daqui)

terça-feira, setembro 18, 2007

Recordo

"Sem título"
(Tela do angolano Álvaro Macieira)

.Recordo*

Recordo
aquela terra africana,
rica e esplendorosa
gigante e formosa.

Recordo
esta terra angolana.
Seus filhos,
hoje chagados,
outrora
felizes e quase unidos!

. Recordo
aquelas matas paradisíacas
e luxuriantes.
Os rios caudalosos,
torturantes
de belas margens floridas!

. Recordo
aquelas quintas e fazendas
roças e quimbos,
os cafezais,
e os bananais!

Recordo
aquelas tortuosas picadas
ombreando belas e serpenteantes estradas,
o rico mar,
verde-azulado e límpido
desfazendo-se em espuma
nos belos e quentes areais
das praias onde me desfiz!

Recordo
o contraste habitacional
que me fez pessoa de consciência.
As magníficas sanzalas,
por onde passei;
os quase indignos mas honrosos musseques,
por onde me desencontrei;
os arborizados bairros coloniais,
onde morei!

Recordo
aquela terra africana
que,
do mar à fronteira leste,
de Cabinda ao Cunene,
suas matas,
pântanos,
a todos nós,
sempre e sempre desafiava!

Recordo… Recordo

Recordo
e não quero deixar de recordar
de a amar,
de a desejar,
mesmo que alguns,
ínscios,
tudo façam e tudo orquestrem
para nos olvidar,
para nos calar!

Recordo… Recordo

*Lobitino Almeida N'gola
Lisboa, 1980.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Contos da vida real 9: A Luz da Minha Rua

"Luz banhando Ombaka"
(Foto de uma esplanada de Benguela; foto©
aNa)

A Luz da Minha Rua*

Aqui, na minha rua - Rua 12, no antigamente chamado Musseque dos Embondeiros - de luz, nunca houve razão de queixa. Vem de um lado, fraquinha e própria para alumiar mortos, vai do outro, numa de arrebenta geleiras capaz de torrar vivos
Antes do Natal - de todos os natais - a luz começa a soluçar: dá e não dá, acende e não acende, foge de dia e volta lá muito pela madrugada. Ou é da emoção das prendas, do nervosismo das festas, ou do cansaço das compras. De qualquer modo: melhor que muitos estamos nós, que de luz que se quer luz, não a têm, nem de noite, nem de dia.
O que a gente está, é mal habituada. Esquecemo-nos da nossa infância: do calor a bater no zinco, a torrar a cama da noite e do candeeiro a petróleo. Esquecemo-nos, principalmente, do céu. Do tempo em que a escola ensinava até a estrela Polar que só havia na Europa e a outra, que morava aqui, e se chamava Cruzeiro do Sul.
Ainda houve quem, deitando postes abaixo, nos tentasse reabituar à beleza dos céus nocturnos e acabou por obrigar esta luz-menina à vida pouco recomendável que hoje leva: dia e noite folgando em casa de gente rica, chega à nossa rua bêbada de sono, pelas duas ou três da madrugada e dorme o dia inteiro.
É uma luz que anda na vida a tropeçar na sua própria escuridão. Uma luz que nunca mais dá à luz, uma luz m´baka, sem filho nem gravidez. Uma luz doente, magra e amarela, com uma hepatite daquelas, que quando se chamava icterícia só se curava com burututo e chá de barbas de milho. Será que temos mesmo de começar a lavar a nossa luz, a luz da nossa rua, com burututo e barbas de milho?
Enquanto lava e não lava é como dizem os antigos: "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer". O que cresce a quem se deita cedo, não sei, mas sei como os namorados se namoram mais namorativmente nesta escuridão em que estamos.
Talvez por isso, ande o pai da rapariga pela rua aos tiros, porque quer matar o rapaz (mas não mata, senão fica sem o genro) e acabem todos amigos, numa festa de casamento daquelas antigas. Não como as de antigamente, que eram assim: "comer até rebentar e o que sobra deita fora", mas das antigas de agora, onde o que ainda não sobrou, já está a ir rapidamente no deita a dentro dos sacos de plástico.
A luz da minha rua é assim: às vezes vem, às vezes não vem. Quando vem, a gente agora nem vê os buracos, porque o Senhor Governador mandou alisar a rua, quando não vem, quem ainda lembra a geografia do céu, pode deleitar-se no escuro com o cruzeiro do sul.

*Dario de Melo*
*(Contista angolano, há quem considere o pai do moderno conto angolano; texto retirado
daqui; 'Ombaka' ou 'Mombaka' ou 'M'Baka' ou 'Benguela' é a terra natal do autor)

terça-feira, setembro 04, 2007

Para ti

"I ♥ I Go"
(Tela em acrílico com colagem;
Mary Lou Zelazny, 2006)

Para ti*

O tempo passa
A vida acontece
A distância separa
As crianças crescem
O amor diminui
Os corações quebram-se
As carreiras terminam
Os trabalhos vêm e vão
Os colegas esquecem-se dos favores
Peço-te para vires, respondes que vens mais tarde
Queria que estivesses sempre lá
Não importa por quanto tempo...
Nem qual é a distancia
Tu nunca estás a mais...
Preciso que estejas lá
Pelos teus caminhos, sejam quais forem, estarei sempre lá,
Puxando por ti, alegrando-te, orando por ti, intervindo, esperando de braços abertos até
ao fim da tua caminhada.
Às vezes quebrarei as regras
Caminhando ao teu lado
Levando-te ao colo.
O mundo não será o mesmo se estiveres sempre lá
E nós também não
Quando decidi enfrentar o teu mundo
Não tinha ideia dos desafios, dos duelos, nem das alegrias incríveis que ia encontrar
Nem sabia do quanto iria precisar de ti.

*Suzete Madeira*
*(poeta moçambicana; poema inédito, 31/Agosto
/2007)