quinta-feira, junho 04, 2009

Ser Tigre

"Mulheres na Praia da Ilha"
(Pintura de Bossa(?); pertence à colecção da Univ. Lusíada de Angola; Luanda)


Ser Tigre*

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopeia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.

*Arménio Vieira*
*(poeta cabo-verdiano, Prémio Camões 2009; poema retirado
daqui e publicado inicialmente em "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)