O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
Mostrar mensagens com a etiqueta Cabo Verde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cabo Verde. Mostrar todas as mensagens

domingo, março 21, 2010

Desejos

"Três Filósofos"

(Acrílico sobre Tela de Jayr Peny; daqui)


Desejos*


Queria ser um poema lindo

cheirando a terra

com sabor a cana


Queria ver morrer assassinado

um tempo de luto

de homens indignos


Queria desabrochar

— flor rubra —

do chão fecundado da terra

ver raiar a aurora transparente

ser r´beira d´julion

em tempo de são João

nos anos de fartura d´espiga d´midje


E ser

riso

flor

fragrante

em cânticos na manhã renovada


*Vera Duarte*

*(Poetisa cabo-verdiana; daqui)

quinta-feira, junho 04, 2009

Ser Tigre

"Mulheres na Praia da Ilha"
(Pintura de Bossa(?); pertence à colecção da Univ. Lusíada de Angola; Luanda)


Ser Tigre*

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopeia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.

*Arménio Vieira*
*(poeta cabo-verdiano, Prémio Camões 2009; poema retirado
daqui e publicado inicialmente em "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra, 1999)

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial da Leitura: Redenção

"O Sol, a Lua e o Arco-Íris"
(Tela de
Noel Langa)

Redenção*

Vento fótchi na bilá soplá fá…
É noite e chove no fundão!
Tudo funca-funca di Vila
Tudo niguê Santana
Tudo niguê Guadalupe
Tudo niguê Gamboá
Canta e dança o socopé…

Ao romper da manhã
Mesmo ao pé de uma jaqueira
Cada par negro sorrirá ao Sol
Com mãos fartas de ginguba!


*Onésimo Silveira*
*(poeta e escritor caboverdiano; poesia inserida no conto “Toda a gente fala: sim senhor”, publicado pela Publicações. Imbondeiro)

quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da Poesia: As Águas

"Floresta do Maiombe, Cabinda"
(Foto
daqui)

As Águas*

A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!

(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)

Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!

Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Ate que ao olhar brando e calmo da manha
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!

Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...

(Sobre o Dia Mundial da Poesia, ver apontamento no Pululu)

*Onésimo Silveira*
*(poeta caboverdiano; poema de “Hora grande”, 1962)

terça-feira, outubro 31, 2006

Vou Ser Senhor do Mundo

“Tempestade na Pradaria - Canadá”
(Tela em óleo de
Paiva Carvalho)

Vou Ser Senhor do Mundo*

Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.

Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.

Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.

E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?

*Jorge Pedro Barbosa*
*(poeta caboverdiano, citado
aqui)

quarta-feira, maio 24, 2006

Dia de África: Ora dja tchiga (Chegou a hora)

"Em tempos de paz"
(Acrílico sem tela, de João Inglês, 1991)
.
Ora dja tchiga*

Labanta bo anda fidjo d’Afrika,
Lebanta negro, obi gritu’l Pobo:
Afrika, Djustissa, Liberdadi

Obi gritu’l Pobo na Sistensia, na funko,
na simiteri, na lugar sem tchuba,
na bariga torsedo di fomi

Dexa bo funko, dexa bom ai, bo armun,
dexa tudo, pega na kunsiensia bo subi monti:
finka pena tchom bo pega n’arma.

Brandi fero, riba’l monti,
ko fomi o ko fartura, ko guerra o ko paz,
luta pa liberdadi’l bo terá!

Chegou a hora (versão portuguesa)

Ergue-te e caminha filho de África
ergue-te negro escuta o clamor do povo:
África Justiça Liberdade.

Escuta o gritar do povo clamando
na Assistência Pública
no funco
nos cemitérios nos campos sem chuva
nos ventres torcidos de fome.

Abandona funco, mãe, irmão, tudo
toma consciência sobe para as montanhas
finca os pés na terra pega em armas.

Brande o ferro no cimo dos montes
com fome ou abundância, guerra ou paz
luta p’la liberdade da tua terra.

*Kaoberdiano Dambará*
*(pseudónimo poético do cabo-verdiano Felisberto Vieira Lopes; poema retirado da Antologia Temática da Poesia Africana 1, compilada por Mário de Andrade, ICL,1980)

quarta-feira, maio 10, 2006

Girassol

"Girassóis"
(tela de Sylvio Paiva, 1998)
.
Girassol*

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

*Corsino Fortes*
*(poeta caboverdiano, poema de a "Claridade", n°9, 1960)

segunda-feira, março 20, 2006

Dia Mundial da Poesia: Canção dos Rapazes da Ilha

Image hosting by Photobucket
“Jangada em alto mar”
(Acrílico sobre tela de
Oscar Araripe)
.
(21 de Março, Dia Mundial da Poesia)
.
Canção dos Rapazes da Ilha*

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.


*Aguinaldo Fonseca*
*(Poeta cabo-verdiano)

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O Mar

"El monje frente al mar"
.
O mar*
.
Ai o mar
que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos!
- Ai a cinta do mar
que nos detém ímpetos
ao nosso arrebatamento
e insinua
horizontes para lá
do nosso isolamento!
(Convite da viagem apetecida
que se não faz!)
- Ai o cântico
estranho
so Atlântico,
que se não cala em nós!
Talvez um dia
inesperado remoinho de águas
passe
borbulhante,
envolvente,
alguma onda mais alta
se levante...
Talvez um dia...
- Quem sabe!...
Depois
na senda dos tempos
continuará
a marcha dos séculos
...E outra lenda
virá...

*Jorge Barbosa*
*(poeta caboverdiano (1902-1971), um dos promotores do Movimento "Claridade")