quarta-feira, dezembro 07, 2011

Batuque Mukongo – canto 2

“child rain, dance, dancing, girl, rain”
(Foto Favim.com; daqui)

Canto 2*

Fui criança da chuva
em terras de esperança
fui chuva criança
pela mão da minha avó
escura
como o breu envolvente
da miséria de um povo
sem caminho nem vau
no rio grande
por onde subiu a nau
de velas insufladas
ao anúncio dos ngoma
dos chingufu
dos tambores surdos
e do ulular rítmico
no queixume das sereias
coladas à morte pegajosa
penetrando silenciosa
as rugas dos desejos impossíveis
como visgo escorregadio
no casco das árvores milenares crescidas a esmo.

*Manuel Fragata de Morais*
*(Canto do livro de poemas “Batuque Mukongo”, editado sob chancela da UEA
)

Estou No Meu Caminho

“Sandilar”
(Foto de Misha Gordin)

Estou No Meu Caminho*

Estou No meu caminho
Somente no meu caminho e nada mais
Correndo na velocidade de um míssil
Quilómetros infinitos a hora

Não quero moscas ao pé de mim
Pois não tenho açúcar para vos alimentar
Não quero falsas promessas e profecias
Porque não vou acreditar

Estou No Meu Caminho

Caminhando em linhas tortas
Mas sabendo direito aonde
Tenciono chegar
Não se aproxime muito
O Caminho é meu
E muito meu
Cada um no seu caminho
Todos atrás do troféu

Afaste do meu caminho
A maldição da inveja
Que herdaste dos teus presentes
E jogaste fora o amor herdado dos teus ancestrais

Estou No Meu Caminho

Distante de tudo e de todos
Que queiram aplaudir as minhas
Vitórias ilusórias

Em busca da liberdade infinita
Que tem o pássaro
Do sorriso ardente que tem
O sol e do Caminhar sem destino
Que tem o percurso dos rios

Estou No Meu Caminho…

*Sandro Feijó*
*(Poeta Universal; poeta angolano, 24 Agosto 2011)

sábado, dezembro 03, 2011

Lamento de um Povo


"Corpo nu de muher"
(Tela de desconhecido, retirado daqui)
Lamento de um Povo*

Pátria nossa sacrificada por ambições e traições
Desenfreados em busca das tuas riquezas
Provocando entre os teus filhos a miséria, a morte
E destruição descontroladas
Dum futuro que não aconteceu

Torrão pátrio...jamais ouvimos
O chilrear dos passarinhos, o cantar das cigarras
O murmúrio das cascatas, o silêncio dos regatos
O sibilar forte dos ventos nas anharas,
Nos sertões e florestas verdejantes,
Não olfatamos o cheiro acre dos teus frutos silvestres,
E apetitosos, o tamborilar das tuas chuvas generosas,
Nos telhados dos zincos dos muceques. Oh! Já não!

Ouvimos sim, ribombar dos trovões
Enfurecidos lançando os seus clarões, rasgando o céu
E o Sol com o seu brilho entristecido,
Contemplamos sim os nossos regatos, rios e cachoeiras
Tingidos de sangue inocente de filhos teus,
Que esperam e desesperam nesta Pátria nossa
O prometido que lhes foi recusado.

E lá longe escutamos os tantãs
Dos nossos Antepassados,
Soando seus lamentos de desespero
De angústia e choros de seus filhos amados

Gente amargurada que sofre, mas que tem petróleo
Café, diamantes, muamba, mufete, kissangi e
Tradições, mas sem Paz e continua pobre.

*José Emil Becker*

*(Poeta Angolano, retirado, com a devida vénia, do Facebook)