O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

quinta-feira, junho 05, 2008

NEGRO…

"O feitiço misterioso de Néngue uá iNssuna"
(Desenho de João Craveirinha, sob verso de José Craveirinha, 1968 - ver explicação infra*
)

NEGRO:
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)*


Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!

*João Craveirinha*
*( Poeta, contista e artista plástico moçambicano; poema inédito que também pode ser lido aqui; feito em 02.06.2008)
* Desenho de João Craveirinha (sobrinho) feito com esferográficas vermelha e preta em 1968 no campo de treino político-militar da Frente de Libertação de Moçambique em Nachingwea. Sul de Tanzânia. Nengue uá iNssuna era um feiticeiro muito conhecido em toda a região a Sul do Rio Save de Moçambique. Viveu (anos 1950) na zona fronteiriça com o Zimbabué repleta de elefantes e de outra fauna bravia. Muitos brancos portugueses iam às suas consultas, sobretudo caçadores, e outros da então cidade colonial de Lourenço Marques.
Glossário do xiRonga:
....................Néngue = perna
....................uá = de
....................iNssuna = mosquito

quarta-feira, junho 04, 2008

Na planura onde o capim secou

"Uma acácia perdida no meio do capim"
(foto retirado
daqui)

Na planura onde o capim secou*

na planura onde o capim secou

a poeira fina
cobre as carcaças
que
a morte caprichosa
foi espalhando

murchos estão os seios
que
o menino agarra
e
das árvores esquálidas
pendem papéis velhos e trapos

das esperanças promessas e palavras
..........................................de um tempo
sobra
o silêncio vazio e amargo
..........................da morte

na planura onde o capim secou

*Arlindo Barbeitos*
*(poeta angolano; do livro “Na leveza do luar crescente”, 1998)

Identidade

"Palanca Negra"
(uma identidade angolana)


A identidade*

a identidade
ou

o voo esquivo
de pássaros nocturnos
em torno da lua

identidade
é cor
de burro fugindo.
*Arlindo Barbeitos*
*(poeta angolano; do livro “Angola, Angolê, Angolema”, 1976)

domingo, junho 01, 2008

Pelo Dia Mundial da Criança: Os Meninos do Meu País

"O Futuro tem de lhes sorrir"
(Foto da José Silva Pinto "
Tonspi", Abril 2008)

Os Meninos do Meu País*

Os meninos do meu País,
paridos numa obtusa guerra,
sob a endémica enfermidade
e na sombra da fome
brotaram,
cresceram,
sobreviveram!

Os meninos do meu País,
durante tempos a fio
tiveram na inseparável kalashnikov
de ferro, ou de pau,
o garfo,
a colher,
a pena
que a fome matava
e a cultura calava.

Os meninos do meu País,
anos corridos
na rua se fizeram,
na guerra cessaram,
e nos destinos corridos da discórdia
simplesmente pulularam.

Os meninos do meu País,
muitos anos,
demasiados anos,
os estreitos sapatos do destino
os desprezaram.

Os meninos do meu País,
a fome,
a guerra,
a doença
a todos por tu os tratou!

Os meninos do meu País,
a vida penaram;
mas os doces sorrisos de criança,
quais maravilhosos chilrados
nos sibilinos bandos livres
nunca esmoreceram!

Mas os meninos do meu País
estão a querer ganhar
uma nova vida
um novo destino
um novo rumo!

Os meninos do meu País,
querem ser os Homens
que no próximo amanhã
a fome ceifarão,
a guerra suprimirão,
a doença aniquilarão
e quais alegres bandos de pássaros
sob um luminoso sorriso de catraio
o País iluminarão!

Assim os Homens do meu País
o percebam
e aos meninos do meu País
a vida lhes devolvam!

*Lobitino Almeida N´gola*
*(escrito em Lisboa, 31-Maio-2008; publicado também aqui)

sexta-feira, maio 23, 2008

“25 de Maio - Dia Mundial de África” Leopardo

"A Aurora"
(Tela do angolano
Fernando Caterça Valentim)

Leopardo*

A noite da escuridão
tem os olhos do leopardo
faiscando diamantes.
Leopardo: fere o meu coração;
aguça os meus sentidos;
crava, usa tuas garras;

não deixes o sal
arrefecer o sangue da poesia;
não deixes a rocha
tecer o casulo da ignorância;
não deixes o cacimbo
cristalizar a alma do poeta.

Viverei eu, assim, eternamente cantando
estes e outros versos insanos e selvagens
torcidando meus sentidos,
dispersando a alma nos teus olhos leopardo,
no fulgor suave das noites
e na fúria brava das calemas.

*Namibiano Ferreira*
*(poeta angolano já citado em duas Antologias poéticas;
daqui)

segunda-feira, abril 28, 2008

Quem sou?

"Landscape"
(Tela de Paulo Nascimento, 2007;
daqui)

Quem sou?*

Quem sou
e para onde vou,
o que faço
e onde estou?
Não o sei.
Só sei que fazer nada sei,
e para onde ir eu devo.

Assim o afirmava o poeta,
e também o digo eu,
que não sou um trovador
e muito menos um bardo pateta.
Somente um aturdido
que procura o rumo,
um caminho,
uma passagem
que diga,
que aponte
para onde vou.

Se um pária não o sou,
nem marginal ainda estou;
se errando no espaço,
o meu carácter ausculta;
serei eu um amordaçado,
um desbandeirado,
um naufragado?

Não!
Isto não é verdade!
Sei o que quero,
como ir,
como fazer,
e, principalmente,
sei onde ainda estou!

Então se sei o que quero,
se sei para onde hei-de ir,
eu vou,
então porque estou inquirir
quem eu sou?

O que dúvidas desacertadas
e imateriais me provoca,
se um organismo vivo eu sou.
Umas vezes desabusado,
sempre que me deixa o ensejo;
outras e não poucas, andante,
sem nunca ir ao sabor da inanidade;
mas sempre, sempre
um ser vivo e pensante!

Sou um ser que garatuja
poemários cantantes do seu País
e do Lobito,
a sua maravilhosa cidade;
malambas e mukandas desconexas,
ensaios que ninguém evoca,
escritos sociais ou políticos
que passam e se presumem
por trilhos e caminhos esconsos,
estreitos,
ou sinuosos
que desconhecido algum pisa
ou navega.

Por isso,
e se quem sou eu sei,
porque deixo a incerteza
trovejar o coração
e a mente,
ribombar nos olhos
e no inconsciente,
os dedos tremer
e os lábios ciciar?

Ou será que…
Quem eu sou
e para onde vou,
o que faço
e onde estou,
nitidamente não o saberei.
Só sei que tudo quero fazer
e parece não saber onde estar;
no espelho a chipala,
que dormente antevejo,
pergunta,
queixita,
discute,
para onde ir eu deverei,
de uma forma positiva
e livre,
a vida trautear
quem deveras eu sou!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(Publicado primeiramente n' O melhor da Web)
(feito na Galé em 26/Abr/2008)

quarta-feira, abril 23, 2008

Dia Internacional do Livro e do Direito de Autores: Intemporal

"Endless"
(Magnífica foto de Biliana Rakocevic)

Intemporal*

Desperta altaneira, seduzindo o beija-flor,
Flor de laranjeira tuas pétalas compõem,
Reminiscência a sombra do esplendor,
Vertentes de emoções, em aromas o ar sobrepõem.

Empresta-me a luz do teu olhar por um instante
Para que possa ver a magia do luar enamorada,
Deixei confinado em minh alma, desejo vacilante,
Minhas noites têm sido de quimera entrelaçada.

Intemporal, palavras voam junto ao vento,
Nas asas das letras triste alento,
Páginas de um romance amarelado pelo tempo.

Sonetos pintados aos sons de lágrimas
Adorno na face, cálido ninho,
Singela gota que cai, sobre o pergaminho.

*Águida Hettwer*
*(poetisa
brasileira; poema retirado daqui, 2007)