O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

terça-feira, setembro 18, 2012

Poema

“Amendoeira em flor”
(Árvores de Portugal; foto daqui)

Poema*


Os lagos secaram

Da argila do fundo
Fundiram-se
Pétalas
Criando a flôr

Efémera

Feita de segundos

Liberta de lama
Repleta de amor.


*Alberto Estima de Oliveira*
(poeta português (1934-2008); um dos poemas do livro “Infraestruturas”, 1987)

quinta-feira, agosto 30, 2012

O Gorila Solitário e a panela de barro

Gorila do Maiombe
(Foto da Inernet)

O Gorila Solitário e a panela de barro*

Era uma vez, um gorila faminto que deambulava pela floresta em busca de alimentos. Como estava muito velho, vivia sozinho na Mata Grande do Maiombe e nem os netos queriam saber dele. A época era de escassez, porque choveu pouco e as colheitas perderam-se nos dias tórridos e secos. Apesar de velho e abandonado, o Gorila Solitário ainda tinha o faro aguçado e sentiu o cheiro de comida, vindo da direcção da buala bu Sinda. Foi andando no rasto daquele aroma bom, até que chegou a um acampamento de caçadores.

Quando a panela de barro começou a largar aquele aroma que abria o apetite, um caçador disse para os outros:

- Tuemdia tua buila mbiuma muntamba! Vamos apanhar uma jibóia na armadilha!

Os amigos concordaram e foram para a mata à procura da casa das jibóias, enquanto a panela de barro continuava a apurar o suculento manjar.

Quando o Gorila Solitário chegou à fonte do cheiro a comida, viu que o acampamento estava vazio. Mas no centro do descampado estava uma fogueira fumegante e em cima das brasas, uma panela de barro. Era dali que saía o cheiro a manjar dos deuses!

O Gorila Solitário tirou a panela do fogo, abraçou-a, meteu lá dentro a sua grande cabeça e começou a devorar tudo com sofreguidão, tal era a sua fome!

Enquanto comia, começou a sentir um grande calor nas mãos, nos braços, no peito e nas beiças. A panela de barro estava muito quente e assim continuou enquanto o Gorila Solitário se banqueteava.

O gorila nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras no corpo como um inimigo invisível que lhe queria tirar a comida. E começou a bramir tão alto, que os morcegos gigantes adormecidos nos braços frondosos das mafumeiras acordaram e voaram cegos em direcção ao esplendor da luz do Sol, por cima das copas das árvores frondosas do Maiombe.

Quanto mais alto rugia, mais o gorila apertava a panela quente contra o seu imenso corpo e mais o barro lhe transmitia o calor. O Gorila Solitário pensava em tudo, menos largar a sua presa. E a panela queimava-o cada vez mais.

Os caçadores ouviram os guinchos e urros do Gorila Solitário e ficaram cheios de medo.

- Vamos para o acampamento antes que os gorilas nos matem! – disse um caçador. Todos concordaram e regressaram apressadamente ao acampamento, perseguidos pelo eco dos gritos cada vez mais dolorosos do faminto gorila.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, viram o Gorila Solitário encostado a uma árvore, já sem forças para gritar, mas sempre agarrando a panela de barro, com unhas e dentes. Nenhuma força do céu ou da terra lha conseguia tirar!

Este foi o último combate do Gorila Solitário, pela sobrevivência. Acabou por morrer, vítima das queimaduras que sofreu.

Em todo o Maiombe houve luto, porque tinha acabado de falecer um dos seus filhos mais queridos, que durante muitos anos chefiou a sua numerosa família.

Moral da história: Na nossa vida, muitas vezes, abraçamos coisas e causas que julgamos serem importantes. Algumas fazem-nos gemer de dor, queimam-nos por fora e por dentro. Mas mesmo assim, ainda as consideramos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo coloca-nos numa situação de sofrimento e de desespero. Apertamos coisas frívolas e desnecessárias contra os nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, em que tanto acreditamos e valentemente defendemos. Mulu zingu luitu ngumbu ziumbu tueti zinguitilanga mana lete tuvana zimpaci tueti balilanga mauo undjinzi ma vuizi ay muna zimpaka tuti fua ay teti muna zinpaci muna lianbu likambuizi ndando.

* Esta história foi contada por José Casimiro, em Cabinda, e publicada no Jornal de Angola (versão online) de 26/Agosto/2012

domingo, junho 17, 2012

Contos da vida real 13: Foi ela que nos adoptou…

(foto ©elcalmeida)

Os animais continuam a mostrar que são eles que nos adoptam e não nós que o fazemos. Já conheço* – assim o penso, isto porque eles estão sempre a surpreender-nos, – esta gata há cerca de 6 anos.

Quase tantos quantos os que, periodicamente e sempre que posso, vou até ao Algarve ver e sentir o ar do nosso Continente Africano que a maresia nos oferece através de pequeninas e saborosas gotículas.

Pois ela vem ter sempre connosco no primeiro ou segundo dia, fica na varanda deitada, por vezes olha para a porta e para a portada abertas mas nunca, mas nunca, alguma vez, colocou uma pata que fosse no beiral delas.

Por vezes damos-lhe alguma coisa que coma e come como não quisesse fazer desfeita e volta a deitar-se.

Quando considera que já nos fez a sua companhia, vai se embora e volta no dia seguinte.

Até aqui, nada demais, se…

Se não fosse o facto de no dia que nos vamos embora, por regra, nunca aparecer à varanda como se procurasse evitar despedidas e soubesse que na próxima etapa aí estaremos de novo e, de novo, ela virá cumprimentar-nos.

E, complementarmente, a gata parece ser muda, mas, quando algum outro similar aparece onde ela considere não oportuno, não tem problemas em, diria… grunhir!

Todavia é interessante como ela é meiga e demonstra algum carinho com alguns dos que por lá andam, nomeadamente uma que tem todas as características semelhantes, como se fosse filha, com a particularidade de ser muda e quase cega.

Ainda desta última vez e no último dia, logo pela manhã, lá estava deitada entre a entrada e a porta junto ao muro-floral.

Discreta, muda, sossegada.

Se lhe derem alguma coisa de comida – o que aconteceu –, aceita, come, fica um pouco ali como que a fazer companhia agradecendo o gesto e vai-se embora.

À tarde, por volta do almoço, como que tendo percebido que nos iríamos embora e como não gostando de despedidas nem por lá passou.

Ou seja, continuou discreta, muda e sossegada desta vez num qualquer outro lugar que tenha adoptado.

Até uma próxima vez…

*Eugénio Costa Almeida*
*(feito algures no Algarve, Portugal, em Junho de 2012)

quarta-feira, março 21, 2012

Dia Mundial da Poesia: “Algures”

"Palavras"
(retirado da Internet)

(retirado da Internet)


Algures*

São inúteis as palavras
Porque nascerão num outro dia
Entre a manhã e a noite abrupta
Algures momentaneamente
Silenciosas, vagamente
Dilaceradas
De inutilidade…

*Maria Paula Raposo*
*(poetisa portuguesa, retirado da II Antologia de Poetas Lusófonos)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Isto

“Isto ou aquilo, 2”
(Fotomontagem de Dobroslav Foll)

Isto*

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



*Fernando Pessoa*
*(poeta português)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Batuque Mukongo – canto 2

“child rain, dance, dancing, girl, rain”
(Foto Favim.com; daqui)

Canto 2*

Fui criança da chuva
em terras de esperança
fui chuva criança
pela mão da minha avó
escura
como o breu envolvente
da miséria de um povo
sem caminho nem vau
no rio grande
por onde subiu a nau
de velas insufladas
ao anúncio dos ngoma
dos chingufu
dos tambores surdos
e do ulular rítmico
no queixume das sereias
coladas à morte pegajosa
penetrando silenciosa
as rugas dos desejos impossíveis
como visgo escorregadio
no casco das árvores milenares crescidas a esmo.

*Manuel Fragata de Morais*
*(Canto do livro de poemas “Batuque Mukongo”, editado sob chancela da UEA
)