sábado, junho 17, 2006

conto da vida real 6: A prova de vida de Kalandula

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“Uomo d'Africa”
(Técnica mista da fotocópia em branco e negro de fotografia,
Paolo Ferrari, 2000)

A prova de vida de Kalandula*

Kalandula é hoje um homem com 52 anos de idade, quatro mulheres, 12 filhos, 25 netos e, nos últimos tempos, bisnetos. Vive em Viana, Norte de Luanda, numa casa de adobe com quintal vasto, cujo quintal tem uma vasta figueira.
Cada mulher tem o seu quarto e cada uma tem a sua vez de cozinhar para Kalandula que a segunda-feira dorme com uma, terça-feira com outra e assim sucessivamente. E assim, o homem vai projectado o melhor, esperando o pior e aceitando de ânimo igual o que Deus quer.
Os filhos, estes, já estão despachados. Espalharam-se todos por Luanda, a grande cidade. Juntam-se debaixo da figueira do quintal de Kalandula quando há pedidos de noivado ou problemas que reclamem a presença do pai.
Kalandula chegou a Luanda ido de Malange, sua terra natal, antes da refrega eleitoral de 1992.
Kalandula anda com esferográficas no bolso da camisa, mas não sabe escrever. Anda com livros debaixo do sovaco, mas não sabe ler. Mas em contrapartida tem uma sabedoria de se lhe tirar o chapéu aprendida ao longo dos tempos, lá na sua terra, debaixo do embondeiro em companhia dos mais velhos do seu quimbo que enquanto contavam as suas estórias não punham de parte uma garrafa de caxi, uma espécie de whisky caseiro feito à base de milho ou ainda de banana.
Quando Kalandula chegou à grande cidade não sabia bem o que fazer. Não tinha profissão que lhe pudesse ser útil na cidade naquela altura. Ou seja, a enxada e a catana de nada lhe serviam em Luanda. Mas ficar de braços cruzados não podia. Alguma coisa tinha de fazer para sustentar a família.
Depois de muito pensar, arranjou emprego numa firma como estivador. Ele era destemido e muito apreciado pelos colegas. Muitas vezes falava de coisas que não percebia e punha os colegas a rir, mas a bom rir mesmo. Não fumava e nem bebia. Estava sempre pronto para responder às chamadas dos chefes, bem como executar as tarefas que lhe eram incumbidas.
Um dia, de manhã manhãzinha, chegada ao serviço, o chefe mandou-lhe comprar uma Coca-cola e uma sandes no mercado mais próximo e deu-lhe uma nota de mil kwanzas. Kalandula recebeu o dinheiro e foi comprar o que lhe tinham mandado, não só para o chefe mas também para ele.
Quando chegou a empresa entregou ao chefe a Coca-cola e a sandes. Ia a retirar-se quando o chefe perguntou-lhe:
- O troco?
Kalandula respondeu:
- É só o chefe que come?
O chefe de Kalandula ficou boquiaberto, sem saber o que dizer diante da resposta. Porém, deu um desconto por saber que Kalandula era sem maneira, não respeitava nada nem ninguém que não fosse seu familiar.
À semelhança da história de que o malangino não gosta de pagar renda, vezes havia a que a Kalandula não apetece trabalhar.
Certo dia, Kalandula chegou mal disposto ao serviço e disse que não queria trabalhar. O chefe chegou ao lado dele e disse:
- Não quer trabalhar, está mal disposto vai para casa!
Kalandula não tugiu nem mugiu. Mostrou-se indiferente. E coisa esteve neste ritmo durante quarenta e cinco dias. O sector dos recursos humanos mandou-lhe uma cartinha a dar conta do risco que ele corria de ser despedido. Até que um dia o patrão despediu-lhe mesmo.
E ele disse ao chefe:
- Aqui ninguém me despede. Eu que sei se continuo aqui ou vou-me embora!
O chefe não ligou. Passou-se a primeira semana, a segunda e a terceira e Kalandula continuava a fazer-se presente na presença sem no entanto querer vergar a mola. Farto da situação, um dia o chefe chegou ao lado de Kalandula e determinou:
- Não lhe quero ver mais no recinto da empresa. Segurança ponha este homem fora!
Kalandula disse:
-Ai é? O senhor esqueceu-se que sou malangino? Só um minuto, vou à casa de banho.
Kalandula foi à casa de banho como se fosse fazer necessidades. Enquanto o chefe dava outras orientações, Kalandula foi de forma sorrateira para o gabinete dele e pôs-se todo nu.
Meia hora depois, o chefe e o seu adjunto estavam de regresso ao gabinete aonde encontraram Kalandula nu em piloto, de pernas cruzadas e a assobiar.
Quando o seu chefe e o seu adjunto entraram apanharam um susto e perguntaram:
- Mas o que é que se passa aqui, Kalandula?! Estás a ficar maluco ou quê?
Kalandula parou de assobiar mas mantendo as pernas cruzadas respondeu:
- O chefe não me despediu? Agora estou aqui para saber se o chefe terá capacidade de sustentar as minhas quatro mulheres, os meus 12 filhos e os meus 25 netos, sem falar dos meus bisnetos.
- Kalandula, pelo amor de Deus! Vista-se e vai-se embora.
-Não, não me visto nem saio daqui do seu gabinete se não me garantir que estou novamente empregado. Aliás, o senhor tem quarenta minutos para me dar uma resposta, fim dos quais um dos seus filhos poderá morrer de febre logo a noite. Só se eu não nasci em Malange e lá não há feitiço forte!
O chefe disse, não sem antes ligar para casa para saber dos filhos, a transpirar em tempo de cacimbo:
- Pronto, Kalandula! Estás empregado novamente. Vamos voltar a ser amigos, ok?
Kalandula vestiu-se calmamente, apertou a mão do chefe e do seu adjunto e saiu a cantarolar do gabinete do chefe: - Ku Malange, ku malangéééee, nguiame!
E disse para si mesmo:
-Nós de Malange somos vivos, até os patrões conseguimos dobrar.

*Jorge Eurico*
*(jornalista angolano, texto publicado inicialmente n’
O Arauto)

1 comentário:

Márcia disse...

A-do-rei!