domingo, agosto 27, 2006

Santomensidão

"Cascata"
(fotos de STP por
Pedro Norton de Matos, Novembro.2005)
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Santomensidão*

O poema está no ritmo
do nosso sangue cruzado. Na idade
da nossa santomensidão

cheiros de terra quente
palmares de avó Sipinge
distância em distância entre
o leste e o oeste
o norte e o sul

o poema
é a única rota que deixa sulcos no cais
imensurável dos nossos atropelos

*Olinda Beja*
*(poeta e contista santomense; este poema, retirado
daqui, faz parte da colectânea “Água Crioula”)

quarta-feira, agosto 23, 2006

O Mundo é Grande

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"Mundo de Esperanzas"
(Obra em Madeira e mármore de
Guillermo Gomez)
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O Mundo é Grande*

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também na rua não cabem todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Oh, vida futura! Nós te criaremos.

*Carlos Drummond de Andrade*
*(poeta, contista e cronista brasileiro (1902-1987) no aniversário da sua morte; poema publicado na obra “Amar se Aprende Amando”)

segunda-feira, agosto 21, 2006

Quem sou?

"Serra da Chela – Leba"
(foto de José M. Lourenço, 2006)

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Quem sou?*

Mas afinal quem sou eu!?
Nome não tenho
Nação não tenho
Origem não tenho
Parentes não tenho
Amigos não tenho
Dignidade não tenho
Cor não tenho
Idioma não tenho
Religiao não tenho.

Chamo-me palanca
Welwitchia mirabilis
Morro do binda
O pensador
A serra da Chela
A marimba e o kissange
A dikanza.

Sou kimbundo
Bacongo
Ngangela
Umbundo
Cuanhama
Fiote
Tchokue.

Sou o semba
E a massemba
A rebita
Kilapanga
Sungura.

Sou negro
Kilombo
Kazua
Sou o óbito
As lágrimas
O caixão e sepulcro
O palhão
Ou a mudança de luto.

Sou os rios
Lucala
Zenza
Luinha
Sem esquecer os outros.

Sou o roque santeiro
Congolenses
Asa branca
E os kuanzas…

Sou a lavra
A horta
A inceta
O kihande
A mataca
A mandioqueira
O bombom
E o funge.

Sou a maratona (…)
Festa
Capuca
Maruvo
Quissangua
Quimbombo
A música
Kizomba
Cuduro
Tarrachinha.

Sou o sol ardente
Calor suado
Chuva torrencial
Muzumbi
Sou o muloji
O kimbanda
Ou o milongo.

Sou a sanzala
A vila
E a cidade
Sou tudo.
Não tenho nome que me cabe.

*Luis Miguel*
*(poeta angolano, 2/7/06)

Prostituta: estranha forma de vida

"Prostituta no espelho"
(Tela de
Georges Rouault [1871–1958])
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Prostituta: Estranha forma de vida*

Posto o sol da esperança
O medo acaricia-lhe os olhos
Ao espelho as meias pretas
Atenuam-lhe as nódoas roxas dos cifrões

Mulher sem ventre
Corpo a monte sem passaporte
Sabes do cio o inverno precoce
As grutas inundadas por mar alheio
Os adjectivos espancados
E os beijos sem seiva

No teu corpo
Há neblina perfumada de fantasia
O segredo e o ódio
Talvez vagas de esperança
Mas quando o teu corpo dá à costa
Já em terra o peixe é fresco
E o lugar comum de estar só está de volta.

*Paulo Sempre*
*(pseudónimo de Paulo Jorge Correia, poema retirado daqui, Agosto 2006)

quarta-feira, agosto 09, 2006

O Moringue

"Quietude Africana"
(Uma tela de Kouti, retirada da Galeria do Sanzalangola)

O Moringue*

O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.

E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte..


*Henrique Guerra*
*(Poeta angolano)