quarta-feira, junho 20, 2007

Tal como a chuva

“Dançarina Kilundukila”
(Foto de Adão Marcelino; in: Boletim da Casa de Angola, 2003)

Tal como a chuva*

Tal como a chuva fustiga
O corpo sedento da terra
E penetra de água
Uma gota doce
A densa folhagem
Sobre a aridez oculta

Assim a carne alarmada
Pelos fascínios que excitam os sentidos
Exige
Ávida
Açoites na pele esticada
Do tambor aquecido e seco

Os ouvidos reclamam o rufar
Nos tímpanos
Do odor do barro vivo
Moldado pela química húmida
Ao sabor surdo do pingo
Batendo contra a poeira
E levantando poalha.


Tal como a chuva
Os olhos
Ah! Os olhos
Orbitam rejúbilos incandescentes
Com as promessas de tanto espectáculo
Piscando
Imóveis que mal se vê
E falam


Luanda, Agosto 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Poemas de Junho

“Viúva da Quissama”
(Tela de Neves e Sousa; da série “Mulheres Angolanas”)


Poemas de Junho*

Chegam-me os poemas de Junho devagar
uma letra
depois outra…
Surpreende-me uma vogal
uma vírgula
Sinais de um tempo que se escreve
com palavras frias
mas aconchegantes
Frases inteiras por vezes
outras quebradas
vindas de longe
partidas pela viagem do sol
que deixa os dias mais curtos
são anúncio de um novo ciclo
ensinando a soletrar a vida
Que nos devolve o lugar de um qualquer objecto prosaico
que já teve outros lugares
noutros junhos


Luanda, Junho de 1998

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Cântico

"Dançarinos tradicionais"
(Tela de Tylkar, 2000)


Cântico*

eu canto ao avesso teu verso em meu canto
e canto meu verso em teu canto ao avesso
não canto no verso esse canto ao avesso
nem canto ao avesso esse verso em meu canto
se canto o avesso arde o verso que canto
avesso ao meu canto o teu canto faz verso
e avesso ao teu canto o meu canto ousa um verso
um verso de um canto que avesso ao teu canto
no verso e no canto e no avesso do canto
avesso o meu canto ao teu canto une em verso

se avesso arde o canto no canto sem verso
e o verso sem canto no avesso do canto
em verso ousa um canto ao avesso no canto
que avesso esse canto em seu canto quer verso
no avesso do canto teu canto diz verso
sem canto ou avesso o meu verso diz canto
teu canto urde avesso outro verso em meu canto
um canto sem verso sem canto ou avesso
que em canto unge o verso num canto ex-avesso
se eu canto ao avesso teu verso em meu canto


*Márcia Maia*
*(Poetisa brasileira, retirado
daqui)

domingo, junho 10, 2007

Portugal colonial

“Kores de África”
(Tela de
António Miranda)

Portugal colonial*

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci
nem a morte
que depois comi
nem a vida
repartida
pelos cães
nem a notícia
curta
a dizer-te
que morri.
Nada te devo
Portugal
colonial
cicatriz
doutra pele
apertada.

*David Mestre*
*(Poeta angolano (1948-1998); este poema foi escrito quando, em Portugal, em 1975, se afirmava que tinha sido morto por tropas sul-africanas; do livro "Subscrito a Giz – 60 Poemas Escolhidos")

quarta-feira, junho 06, 2007

Uma só mulher

Mil Emoções Mil Paisagens Culturais
(Acrílico sobre tela de
Don Sebas Cassule)

Uma só mulher*
(para ti)

Eis uma mulher
Uma elegia única
De todas as eleitas
Compondo a vida
Em estrofes poderosas
Iluminando a penumbra baça
Onde se espojam os nús

De quantos homens foi feita?

De sua majestade
Faíscam as evidências
Da tempestade
Que agita o céu de breu
E o mundo cão
Que a rodeia

Emudecem as musas
Por vulgares e
NADA!

Nem o artifício subtil
De suas dádivas
Pode ocultar
A arte de um só poema

NADA! – Só tu
Entre tantas vidas
Sem sentido


Luanda, Julho de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Poesia Virgem

Mãe África
(Óleo sobre tela de
Valeiro Alberto Luís)

Poesia virgem*

Que poesia espera
A virgem negra
Guardiã de Pandora
Para colocar na ara
Dos sacrifícios
Sua mística de inocência
Seu tesouro
Único e mudo?

Que silêncio é a arte
Profana do sacerdote
Tomando as primícias?

Que silêncio este que explode
Em cada corpo impoluto?
Que vãs palavras
Vãs no perímetro da minha voz
E teu sentir
Poderão seduzir
De ouvido
O que só a magia estática
Do indizível
Pode murmurar?

Luanda, 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Palavras como resgate

Mdemba Fragmentos
(Óleo sobre tela de
Tozé)

Palavras como resgate*

Eis aberto meu baú
de manhãs de oiro
que ofereço como resgate

eis
transbordante
o cálice da cicuta
profecia desta água
que beberei de um só trago
para que ninguém mais
prove sua amargura

rompi da escuridão
com o segredo deste destino
para escrever no mundo
minha busca dos limites da saudade

(e como os pássaros de Octávio Paz
canto sem o saber
meu entendimento é a garganta).

Luanda, Agosto de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)