segunda-feira, junho 16, 2008

E hoje é Dia da Criança Africana!

(Todos queremos que as nossa crianças sejam felizes; assim os deixem...)

E porque hoje é Dia da Criança Africana!*

*“(…) À noite, na sala de visitas, Raquel abriu, curiosa, o canal do seu futuro emprego, TV Estrelas Notícias, para apreciar o seu funcionamento técnico. Apresentaram‑se dois locutores, com cerca trinta anos. Ele. Ela. Ele vestia um fato cinzento, camisa branca e gravata encarnada. O cabelo impecavelmente cortado e a postura do corpo bastante correcta. Ela vestia um casaco escuro sobre uma camisa encarnada. Os cabelos eram negros e compridos. Traziam na cara um brilho rosado e um ar pleno de responsabilidade. Os dedos remexiam levemente quando a fonética denunciavam pequenas falhas.
Ela: «A fome no Sudão. Um drama que já matou mais de sessenta mil pessoas num ano.»
Ele: «Fome é hoje a bandeira do Sudão, assombrado pelo sofrimento das crianças, com índices de desnutrição dramáticas, olhos afundados e cabelos finos sem cor, a pele enrugada como pessoas idosas.»
Ela: «As mães, desidratadas, não conseguem alimentar os filhos. As crianças são verdadeiras migalhas humanas, deitadas na poeira como se fossem nascidas de um mundo de terror.»
Ele: «O gado encontra‑se esquelético sobre fantasmas da morte.»
Ela: «Ao Norte do Mariel Lou, os conflitos continuam com frequência entre dois clãs do Dinka, o Aliek e o Longkpak. As pessoas fogem para sul. Há crianças desaparecidas cujo destino se desconhece.»
Ele: «O economista americano Jeffrey Sachs diz que, com a ajuda dos países ricos, em duas décadas, seria possível erradicar a miséria em todo o mundo. Seguem‑se imagens capazes de ferir a susceptibi­lidade dos telespectadores.»
As imagens eram silenciosas e horripilantes.
A mulher negra, só pele e osso, desolada, encontrava‑se sentada no chão poeirento. Vestia um pano de chita estampado a cobrir o corpo. Num braço, trazia uma filha cujo olhar de medo expressava o espasmo da fome. No outro braço, trazia o filho esgazeado, a lamber com sofreguidão as lágrimas grossas que lhe caíam pela cara. As crianças embalavam a esperança no fim do conflito, com os trinta e quatro anos de guerra civil. Milhões de mortes. A inércia sem resoluções de entendimento. O Sudão.
Raquel sentia‑se amargurada e triste. Acendeu um cigarro e suspirou. Esmaecida, ergueu‑se, desligou a televisão e dirigiu‑se à cozinha. Arranjou um copo de água com açúcar. Bebeu.
«Que mundo é este em que vivo?», perguntou‑se, aturdida. «Não acredito que este planeta não seja o mais atrasado do Universo! Que esperam os extraterrestres para o invadir e transformá‑lo num deserto igual a Marte? Não habitado!» (…)”

*Ana Paula Castro*
*(romancista angolana-portuguesa; extracto da obra “Sou Jornalista, você é árabe?”, a apresentar dentro de dias; edição da Editorial Novembro)

sexta-feira, junho 06, 2008

Revolução Verde ou nova forma de gualdripar?

"Aldeia Global"
(Desenho A4 a Nanquim (tinta da China), de João Craveirinha, 1983, Principado de Andorra)


Revolução Verde ou nova forma de gualdripar?*

Que te interessa nasceres rico,
se pobre és
e pobre vives?

Que te interessa seres de país rico
se tu e teus irmãos medram
na vida que outros desamparam?

Que te importa teres longas savanas
se nada te deixam comer
a não ser pós e lamas?

África,
tens fome?
Não te preocupes!
A FAO pensou
e uma revolução verde te dará
de esperanças muitas
e retóricas maiores.

Tu produzirás,
e colherás,
o que eles já não produzem.

E eles sentidos receberão,
comerão,
o pouco que não tens,
o muito que lhes dás!

Compreendes, os seus ventres,
grandes,
não são cavos de esperança
como os dos filhos que gerastes,
mas halos na abundância!

Mas precisam que te queixes
que te continues a queixar;
porque só assim solidários serão
nas mínguas migalhas que pomposos te darão.

Porque te interessa seres rica,
se pobre és,
e escrava subalterna continuas a viver?

Chega!
É tempo de dar um grito
e grilhetas quebrar!

FAO, ONU, UE, Brasis,
contingentes e quejandos afins,
Chega!

Chega de gualdripar
o que produzimos!
Chega paladinos,
os nossos minérios extirparem!

Chega!

Têm fome?
produzam!
Querem biocombustíveis?
em casa demandem!

Não mais somos,
nem mais seremos
os vossos marginais!
Queremos igualdade,
impomos,
ser tratados como iguais!


*Lobitino Almeida N’gola*

*(feito no Dia do Meio Ambiente; 5/Junho/2008)

quinta-feira, junho 05, 2008

NEGRO…

"O feitiço misterioso de Néngue uá iNssuna"
(Desenho de João Craveirinha, sob verso de José Craveirinha, 1968 - ver explicação infra*
)

NEGRO:
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)*


Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!

*João Craveirinha*
*( Poeta, contista e artista plástico moçambicano; poema inédito que também pode ser lido aqui; feito em 02.06.2008)
* Desenho de João Craveirinha (sobrinho) feito com esferográficas vermelha e preta em 1968 no campo de treino político-militar da Frente de Libertação de Moçambique em Nachingwea. Sul de Tanzânia. Nengue uá iNssuna era um feiticeiro muito conhecido em toda a região a Sul do Rio Save de Moçambique. Viveu (anos 1950) na zona fronteiriça com o Zimbabué repleta de elefantes e de outra fauna bravia. Muitos brancos portugueses iam às suas consultas, sobretudo caçadores, e outros da então cidade colonial de Lourenço Marques.
Glossário do xiRonga:
....................Néngue = perna
....................uá = de
....................iNssuna = mosquito

quarta-feira, junho 04, 2008

Na planura onde o capim secou

"Uma acácia perdida no meio do capim"
(foto retirado
daqui)

Na planura onde o capim secou*

na planura onde o capim secou

a poeira fina
cobre as carcaças
que
a morte caprichosa
foi espalhando

murchos estão os seios
que
o menino agarra
e
das árvores esquálidas
pendem papéis velhos e trapos

das esperanças promessas e palavras
..........................................de um tempo
sobra
o silêncio vazio e amargo
..........................da morte

na planura onde o capim secou

*Arlindo Barbeitos*
*(poeta angolano; do livro “Na leveza do luar crescente”, 1998)

Identidade

"Palanca Negra"
(uma identidade angolana)


A identidade*

a identidade
ou

o voo esquivo
de pássaros nocturnos
em torno da lua

identidade
é cor
de burro fugindo.
*Arlindo Barbeitos*
*(poeta angolano; do livro “Angola, Angolê, Angolema”, 1976)

domingo, junho 01, 2008

Pelo Dia Mundial da Criança: Os Meninos do Meu País

"O Futuro tem de lhes sorrir"
(Foto da José Silva Pinto "
Tonspi", Abril 2008)

Os Meninos do Meu País*

Os meninos do meu País,
paridos numa obtusa guerra,
sob a endémica enfermidade
e na sombra da fome
brotaram,
cresceram,
sobreviveram!

Os meninos do meu País,
durante tempos a fio
tiveram na inseparável kalashnikov
de ferro, ou de pau,
o garfo,
a colher,
a pena
que a fome matava
e a cultura calava.

Os meninos do meu País,
anos corridos
na rua se fizeram,
na guerra cessaram,
e nos destinos corridos da discórdia
simplesmente pulularam.

Os meninos do meu País,
muitos anos,
demasiados anos,
os estreitos sapatos do destino
os desprezaram.

Os meninos do meu País,
a fome,
a guerra,
a doença
a todos por tu os tratou!

Os meninos do meu País,
a vida penaram;
mas os doces sorrisos de criança,
quais maravilhosos chilrados
nos sibilinos bandos livres
nunca esmoreceram!

Mas os meninos do meu País
estão a querer ganhar
uma nova vida
um novo destino
um novo rumo!

Os meninos do meu País,
querem ser os Homens
que no próximo amanhã
a fome ceifarão,
a guerra suprimirão,
a doença aniquilarão
e quais alegres bandos de pássaros
sob um luminoso sorriso de catraio
o País iluminarão!

Assim os Homens do meu País
o percebam
e aos meninos do meu País
a vida lhes devolvam!

*Lobitino Almeida N´gola*
*(escrito em Lisboa, 31-Maio-2008; publicado também aqui)