terça-feira, março 30, 2010

Meu Moçambique

“Sem Título”

(Téc.acrilíco s/papel de Ilídio Candja, 2008; daqui)


Meu Moçambique*


Minha África suburbana.

Eu sei-me Moçambique,

cisterna no pecúlio dos deuses.

Um Zambeze inteiro escala a língua

escorre-me pelas pernas

ramifica nos canhoneiros,

laça os peixes inquietos nas sementes

engolfa-se nos mpipis bêbados nas timbilas.

Eu sei-me Moçambique,

no cume das árvores, na sede incontinente

da minha falange, do Rovuma ao Incomati,

no xigubo terrestre dos pés descalços

e em todos os tambores que surdem

das mãos coloridas nos braços em chaga.


*Tania Tome*

*(poetisa e cantora moçambicana; poema retirado do Showesia)

O Aroma

Sem título

(Ilustração de Manuela Pontes retirado do livro "Seios Ilhéus")


O Aroma*


O aroma sabe a zigue-zague
Os sentidos aguardam o silêncio.
Inspira-se um gesto
Os lábios acariciam ao de leve
A porcelana fina de café.
Sorve-se com divina lentidão
Como a seiva libertada de tantos seios da Ilha.
Sem dúvida… é de São Tomé.

*António Bondoso*
*(poeta santomese; do livro “Seios Ilhéus”)

Poema Vivo

Sweet Temptations
(Tela de Irene Sheri, pintora ucraniana)

Poema Vivo*


Queda-se o corpo neste poema
Uma entrega, entrega-se toda
com um desígnio imenso da semente na flor
despindo os versos um a um no centro deste poema

E onde o som nasce, cresce uma palavra devorando lentamente
as metáforas num gesto iniciado de luz e vida
Existe um tortuoso labirinto por entre as sílabas cheio de lustre
por onde brotam os rios e os lábios no mesmo momento de partida

Amá-las bem depressa, bem devagarinho deve ser o caminho
E a pontuação se eleva na subtileza dos versos,
da métrica, da rima, no âmago do silêncio
E há um desejo insano de desfigurar a branca página,
Com cor do olhar que percorre intenso para o outro lado do espelho
onde o mundo acontece sua estrela bailante

E dentro das palavras há melodia,
dependurando-se sobre as arestas do verso
e dançando os murmúrios constantes do voo das aves

E o poema ganha rosto:
uma árvore cheia de cabelos ao vento como teias da aranha,
onde nos pés das raízes habitam os sarcófagos diversos no húmus da loucura
E onde as mãos de asas são janelas,
por onde as pupilas escancaram o mundo entre os dedos

*Tania Tome*

*(poetisa e cantora moçambicana; poema retirado do Showesia)

domingo, março 21, 2010

Teias da memória

"Olhos brancos de farinha de milho"

(Óleo sobre Tela de Bertina Lopes "Mama B.", 1965; daqui)



Teias da Memória*



Na baça melancolia do tecto

bilros de teia bordam solidão

enquanto meigos sussurros de sombra

no brilhante mutismo do espelho

recitam estrofes de poeira.


*Noémia de Sousa*

*(Poetisa moçambicana (1928-2002); daqui)

Desejos

"Três Filósofos"

(Acrílico sobre Tela de Jayr Peny; daqui)


Desejos*


Queria ser um poema lindo

cheirando a terra

com sabor a cana


Queria ver morrer assassinado

um tempo de luto

de homens indignos


Queria desabrochar

— flor rubra —

do chão fecundado da terra

ver raiar a aurora transparente

ser r´beira d´julion

em tempo de são João

nos anos de fartura d´espiga d´midje


E ser

riso

flor

fragrante

em cânticos na manhã renovada


*Vera Duarte*

*(Poetisa cabo-verdiana; daqui)

Antes de Partir

"Sem Título"

(Tela de Lícínio Saraiva; daqui)


Antes de Partir*


Antes de partir

Encherei os meus olhos, a inha memória

Do verde (verde, verde!) do meu País

Para que quando tomado pela saudade

Verde seja a esperança

Do regresso breve

Antes de partir

Encherei os meus ouvidos, a minha memória

Do palpitar que esmorece, enquanto a noite

Cresce sobre a cidade e no campo

Feito o silêncio dos homens e dos rádis...


*Carlos Schwarz*

*(Poeta e músico Bissau-guineense (1949-1977; daqui)

Roça

"Pico Cão Grande"

(Visto da Roça de Porto Alegre; daqui)


Roça*


A noite sangra

no mato,

ferida por uma aguda lança

de cólera.

A madrugada sangra

de outro modo:

é o sino da alvorada

que desperta o terreiro.

E o feito que começa

a destinar as tarefas

para mais um dia de trabalho.


A manhã sangra ainda:

salsas a bananeira

com um machim de prata;


capinas o mato

com um machim de raiva;

abres o coco

com um machim de esperança;

cortas o cacho de andim

corn um machim de certeza.


E à tarde regressas

a senzala;

a noite esculpe

os seus lábios frios

na tua pele

E sonhas na distância

uma vida mais livre,

que o teu gesto

há-de realizar.


*Manuela Margarido*

*(Poetisa santomenses (1925-2007); daqui)

Não Mais Sob a Árvore de Bô

"Lagoa de Maubara, Timor-Leste"

(Foto reproduzida daqui)


Não Mais Sob a Árvore de Bô*


Não mais a pureza de Ramahyana

o incenso e o sândalo

os pés nus nas pedras do templo

.

enquanto eles comerem na minha mesa

na velha casa de Dili

não mais me sentarei sob a árvore de Bô


*Jorge Lauten*

*(Poeta timorense)

Mar e Lua

"Mar de Lua-cheia"

(Tela de Manuel Figueiredo; daqui)


Mar e Lua*


Amaram o amor urgente

As bocas salgadas pela maresia

As costas lanhadas pela tempestade

Naquela cidade

Distante do mar

Amaram o amor serenado

Das noturnas praias

Levantavam as saias

E se enluaravam de felicidade

Naquela cidade

Que não tem luar

Amavam o amor proibido

Pois hoje é sabido

Todo mundo conta

Que uma andava tonta

Grávida de lua

E outra andava nua

Ávida de mar


E foram ficando marcadas

Ouvindo risadas, sentindo arrepios

Olhando pro rio tão cheio de lua

E que continua

Correndo pro mar

E foram correnteza abaixo

Rolando no leito

Engolindo água

Boiando com as algas

Arrastando folhas

Carregando flores

E a se desmanchar

E foram virando peixes

Virando conchas

Virando seixos

Virando areia

Prateada areia

Com lua cheia

E à beira-mar


*Chico Buarque de Holanda*

*(Poeta e cantor brasileiro, retirado daqui)

Nós Somos

"Marrabenta Jaz Som do Povo"

(Tela do moçambicano Ilídio Candja; daqui)


Nós Somos*


O Começar

De uma nova caminhada

A força para erguer

Esta terra

Ainda a certeza

Nesta incerteza


O Firme fundamento das

Coisas que não se vêem

E a certeza das coisas

Que se esperam

A juventude.


*Sandro Feijó*

*(Poeta Universal; poeta angolano, Março de 2010)

Aos mesmos

"Simplicidade?"

(Tela de Ana Saborida; daqui)


Aos mesmos*


De insípida sessão no inútil dia

Juntou-se do Parnaso a galegage;

Em frase hirsuta, em gótica linguage,

Belmiro um ditirambo principia.


Taful que o português não lhe entendia,

Nem ao resto da cómica salsage,

Saca o soneto que lhe fez Bocage,

E conheceu-se nele a Academia.


Dos sócios o pior silvou qual cobra,

Desatou-se em trovões, desfez-se em raios,

Dando ao triste Bocage o que lhe sobra.


Fez na calúnia vil cruéis ensaios,

E jaz com grandes créditos a obra

Entre mãos de marujos e lacaios.


*Manuel Maria B. du Bocage*

*(Poeta português do século XVIII (1765-1805); retirado daqui)

250 - Mudo

"Pescador"

(Foto de Lobitanga)


Mudo*


A sombra da razão que não existe,

O rosto da incerteza que em mim ficou

É o grito mudo e nulo

Desta minha gente

Que tanta lágrima chorou.


*Niki Menezes*

*(poetisa e jornalista angolana; pseudónimo de Eunice Carla M. de Menezes; poema do livro “Entre a sombra e o corpo”, 2008 )

quinta-feira, março 11, 2010

Responda

Reflexos e reflexões...

(Foto de Sueli Suzigan, 2001)


Responda*


Porque é que eu sou

O que você mais

Odeia num homem!?


Porque é que eu sou

Simplesmente uma gota

No seu oceano!?


Porque é que você

Me Despreza

Depois me deseja

E acaba deixando-me

Confundido!?


Porque choro

Pelo seu amor

Se você nem mesmo

Valoriza as minhas lágrimas!?

Porquê!?

Não importa

O que dirás

Responda simplesmente.


Porque é que você

Prefere ser usada

Do que amada

Palanca!?


Porque é que eu

Amo-te

E só você não vê!?

És tão cega assim!?

Não importa

O que dirás

Responda simplesmente…


Porque desconheces

O amor

E dilaceras

O meu muxima de tanta dor

Porquê!?

Não importa

O que dirás

Responda simplesmente.


*Sandro Feijó*

*(Poeta Universal; poeta angolano)

terça-feira, março 09, 2010

Ilha nua

"Profundidade - s/título"

(Foto de Carlo Porcedda, para a Navetur)


Ilha nua*


Coqueiros e palmares da Terra Natal

Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos

Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.

Verdura, oceano, calor tropical

Gritando a sede imensa do salgado mar

No deserto paradoxal das praias humanas

Sedentas de espaço e de vida

Nos cantos amargos do ossobô1

Anunciando o cair das chuvas

Varrendo de rijo a terra calcinada

Saturada do calor ardente

Mas faminta da irradiação humana

Ilhas paradoxais do Sul do Sará

Os desertos humanos clamam

Na floresta virgem

Dos teus destinos sem planuras...


*Alda Espírito Santo*

*(Poetisa santomense (1926.2010); da obra “É nosso o solo sagrado da terra”; 1978)

quinta-feira, março 04, 2010

É Preciso

O verde pede paz

(Pintura a óleo de Mário Célio)


É Preciso*

Chorar para descarregar

Os fardos pesados da alma


Amar-nos uns aos outros

Independentemente da riqueza

Cor

Raça

Língua

Religião ou partido político


Servir a nação

Sem segundo interesses pessoais


Evitar a guerra

E fabricar a paz

Que os sonhos estejam

Distantes como o mar

Para que possamos lutar

Pela sua conquista


Preservamos

A nossa identidade cultural

Como cidadãos do mundo

Que mudemos a mentalidade

As atitudes e cultivemos

O espírito auto-crítico


Que se dê oportunidade

A quem nunca teve

Que se valorize

O que é nacional

Porque é autêntico

Que se cultive o espírito

De união e ajuda mútua


Morrer e não perder a vida

Valoriza a vida

Porque é um recurso não renovável!


*Sandro Feijó*

*(Nova poesia angolana num Poeta Universal; Março de 2010)