O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné-Bissau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné-Bissau. Mostrar todas as mensagens

domingo, março 21, 2010

Antes de Partir

"Sem Título"

(Tela de Lícínio Saraiva; daqui)


Antes de Partir*


Antes de partir

Encherei os meus olhos, a inha memória

Do verde (verde, verde!) do meu País

Para que quando tomado pela saudade

Verde seja a esperança

Do regresso breve

Antes de partir

Encherei os meus ouvidos, a minha memória

Do palpitar que esmorece, enquanto a noite

Cresce sobre a cidade e no campo

Feito o silêncio dos homens e dos rádis...


*Carlos Schwarz*

*(Poeta e músico Bissau-guineense (1949-1977; daqui)

quarta-feira, agosto 27, 2008

Pátria Mãe!

"Vila Bijagó, GB"
(Foto de autor desconhecido; retirada
daqui)

Pátria Mãe!*

Tu me viste no ventre
Tu me viste nascer
Crescer me viste
Ressurgir eu te vi
Ressurgir das entranhas coloniais.

Os teus filhos se revoltaram
Irrequietos, se levantaram
Levantaram-se firmes
Firmes numa certeza
Firmes na esperança de vencer.

Pátria Mãe, na árdua caminhada,
A vitória era único destino
A vitória era a Liberdade
A Liberdade é hoje.

Pátria Mãe, tu vives na Memória Nacional
Tu vives na Memória dos Mortos
Que te honraram com suas vidas
E por tua causa foram.

Foram e nunca mais voltarão
Nunca mais ouviremos suas vozes
Nunca mais ouviremos o eco de suas vozes
O eco de suas gargalhadas
Gargalhadas nos labirintos afins.

Nunca mais sentiremos bater o seu coração
Bater de esperança e coragem
Bater de alegria e do dever cumprido
Nunca mais lhes diremos, Camaradas!
Nunca mais contaremos o passado

O passado nos confins de Cubucaré
O passado no coração de Morés
O passado nas masmorras de Tite e afins
O passado nas submarinas da marinha
O passado nas ilhas das galinhas
O passado de reencontro da tua dignidade.

Nunca mais ouviremos a cadência de seus pés
Cadência de seus pés nas colinas de Boé
Nas lalas e matas de Nhacra
Nas matas e lalas de Guilege e Guidage
Nas matas históricas do chão de manjaco
Nunca mais mataremos saudades.

Mas um dever nos deixaram,
De vivificar a tua história heróica
De preservar as tuas conquistas
De defender a tua integridade moral e física
De construir a nação que Amílcar sonhou edificar
De preservar perenemente a tua dignidade.

E assim honrar o sacrifício superior - a morte
A morte dos teus melhores filhos
Que devemos honrar com a acção da cidadania
Honrar a Pátria que Cabral se entregou de corpo e alma
E assim, honrar perenemente a ti, oh Pátria Mãe!

*José Bacar*
*(heterónimo de José Carlos Cocamáro; poeta Bissau-guineense – Julho de 2005; retirado
daqui)

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Conto guineense 1: O candidato

"Il Candidato"
(Tela de
Ugo Pierri, 2003)

O Candidato*

Nhu Djoca di Pilum levantou-se cedo naquela manhã de segunda feira, bem antes do sol raiar. Ia para a bicha do Ministério das Finanças para ver se conseguiria, finalmente, receber a sua pensão que há muito tardava a cair. Embora ainda estivesse fresco, com o sereno por levantar, Djoca di Pilum sentia a camisa molhada e o suor a correr-lhe pelo rosto. Não era de calor que transpirava, mas de angústia por não saber o que fazer se não conseguisse voltar a casa com algum dinheiro. Limpou a testa com o velho lenço que trazia na algibeira das calças e acelerou o passo. Bem que tinha deixado a sua pedra a marcar o lugar na noite anterior, mas algum chico esperto poderia vir tomar-lhe a vez. Enquanto caminhava em direcção à praça, Djoca procurava encontrar alternativas à eventualidade, mais que certa, de não receber a pensão nesse dia. Há mais de uma semana que lá ia esperar e regressava sempre ao fim da manhã depois de ter ouvido as desculpas do funcionário, prometendo que no dia seguinte, sem falta, seriam pagos.
Eram difíceis os tempos! A vida tornara-se impossível. Já com a mísera reforma paga todos os meses era uma ginástica aguentar o mês inteiro. Agora que nada caía era impossível aquecer as pedras do fogão todos os dias... Como fazer para alimentar a família que contava com, nada mais, nada menos, dezasseis bocas? Os donetes que Sábado, sua velha companheira dos bons e maus momentos, fazia e vendia já não davam os lucros do início. Pois, era normal que assim fosse, os clientes também sobreviviam com dificuldades. O taxi, que a muito custo comprara em eneésima mão, dera o que tinha a dar. Nem na sucata conseguira vendê-lo e agora jazia diante da porta de casa, servindo de fornecedor de peças sobressalentes para quem quisesse servir-se dele. Ainda se metera num negócio de venda de cervejas no clandô[1], mas as coisas correram-lhe mal por ter sido enrolado pelo pretenso sócio entretanto desaparecido, sem deixar traços, com o dinheiro para a compra da mercadoria no Senegal. Os tempos estavam difíceis, sim senhor! Mas não para todos! Na praça via gente que prosperava, passeando em novos carros e construindo belíssimas casas nas novas zonas urbanizadas nos arredores de Bissau. Como faziam eles, se eram todos funcionários do mesmo estado que não pagava a ninguém? Talvez fizessem negócios, pensou, mas... que negócios? E onde? Não via na cidade qualquer indício de prosperidade económica compatível com aquele luxo. O feijão tinha toucinho e ele teria que descobri-lo!
Nestas cogitações chegou ao Ministério. Já lá estavam alguns dos habituais daquela luta. Afastou a sua pedra e sentou-se no chão, deixando escapar um suspiro que demonstrava grande desânimo.
- Mais um dia de aldrabices! – disse-lhe um homem que estava sentado ao seu lado.
- É verdade, não tenho ilusões nenhumas – retorquiu Djoca, coçando a barbicha. – O pior é que não sei o que fazer se não receber hoje a minha pensão...
- E ver que esses tipos andam por aí a passear em Pajeros e roncar basofaria[2]! – completou o outro – e depois vêm dizer que não há dinheiro! Sabe uma coisa? Agora só se safa quem chega ao poleiro! Esses aí estão garantidos! Já disse ao meu filho que, se ele se quer safar, tem que criar um partido.
- Um partido? Para fazer o quê? – perguntou Djoca com espanto.
- Fazer política... ou confusão. É a mesma coisa!
- Não entendo...
- Oh homem! Quando se cria um partido, das duas uma: ou o partido ganha as eleições e o seu dono chega ao poleiro ou perde-as e o dono faz tamanha confusão que acaba por ser convidado para o poleiro!
- Hã... estou a ver... então ganha-se sempre!
- Bem, não é bem assim. É preciso puxar-se uns certos cordelinhos, dar-se um jeito aqui, outro ali e sobretudo não fazer inimizade com os próprios adversários. Há que deixar sempre uma porta aberta...
- E é preciso dinheiro para criar um partido? Paga-se imposto?
- Nada disso homem. Chamas a tua família, os teus amigos e os teus vizinhos e crias o teu partido. Depois vais lá dar o nome no tribunal, pagas os selos e fica tudo legal.
- É só isso?
- O resto é só mandar bocas!
Djoca di Pilum arregalou os olhos. Eis uma maneira de se safar de vez! Se os outros conseguiram por que ele não haveria de conseguir? Por que nunca pensara nisso? Naquele mesmo dia iria convocar os próximos para a criação de um partido! PBUP, Partido do Bairro Unido de Pilum, seria o seu nome. O mais difícil já estava feito e agora faltava apenas reunir os moradores de Pilum, os de cima e os de baixo.
Tão mergulhado nos seus projectos, Djoca nem dera conta da vinda do funcionário que mais uma vez anunciara que “amanhã sem falta” seriam pagos. Quando caiu em si, já os outros se tinham dispersado. Levantou-se e rumou com destino a Pilum, desta vez com um sorriso a bailar nos lábios enquanto já se via a subir, num Pajero, a avenida Amilcar Cabral em direcção ao palácio presidencial... Sim, seria Presidente da República, outra coisa estava excluída! O chefe é o que come primeiro e se sobrar os outros partilham os restos. É, presidente da república seria mais seguro. Isso mesmo, iria candidatar-se a presidente da república, ora nem mais. Ouvira dizer que haveria eleições presidenciais lá para o fim daquele ano. Mãos à obra a caminho da vitória, disse para consigo ao chegar ao seu bairro.
Foi fácil criar o PBUP. Todos estavam fartos daquela vida de miséria e com o Djoca na presidência ninguém iria ficar esquecido. O futuro sorria e prometia belos dias aos fervorosos militantes do PBUP. A campanha foi lançada num dia de grande festa. Não se sabe de onde saira, mas havia comida e bebida a fartar! É o prenuncio da fartura que o PBUP vai trazer ao povo desta terra, diziam uns já alegremente animados pelo calor do vinho de cajú! Nunca mais iremos para as bichas, retorquiam outros. Viva o PBUP! Viva o Presidente Djoca di Pilum! Viva!!!
O resultado das eleições foi esperado com ânsia e nervosismo pelo povo de Pilum. O seu destino estava em jogo naquele escrutínio. Tomara que Djoca ganhasse! E Djoca di Pilum ganhou mesmo! O povo inteiro o aclamou quando apareceu na varanda do palácio. O novo presidente contemplou a avenida que se deitava a seus pés tal um tapete de honra nas grandes ocasiões. Aquela fora a sua grande ocasião e ele soubera agarrá-la. Terminadas as infindas esperas à porta do Ministério para receber a pensão! Terminadas as dores de cabeça à procura de como alimentar a família! Terminadas....
- Djoca! Djoca! Acorda!
- Hã?! O que há, Sábado?
- Levanta-te, homem. Hoje é segunda feira. Tens que ir às Finanças fazer a bicha para a tua pensão!

Glosário:
[1] Comércio clandestino
[2]
Vangloriar-se

*Filomena Embaló*
*(Guineense nascida em Angola e filha de pais cabo-verdianos; retirado
daqui)

quarta-feira, maio 24, 2006

Dia de África: Ilha

"Sem título"
(tela de José da Silva, na exposição “Versatilidades” na Galeria Geraldes da Silva)
.
Ilha*

Tu vives - mãe adormecida –
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…
Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos –
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!
Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura –
rochas escarpadas tapando os
horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as
nossas ânsias!
.
*Larbac*
*(pseudónimo literário de Amílcar Cabral, guineense e um Homem de África)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Cantos do meu País

"Gritos en silencio"
(Tela de Susana Weingast, 1998)
.
Cantos do meu País*

Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas Américas

Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País.

*Julião Soares Sousa*
*(poeta guineense; da obra “Um novo amanhecer”)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Conto da vida real 1: "Bissau 1998 - a mulher abandonada"

Uma mulher bosquímano
(um povo africano em busca do respeito perdido)


Bissau, 1998 - a mulher abandonada*

Tenho sentimentos contraditórios relativamente à história que vou contar. Vacilo entre o pudor e a vaidade mas, como já perceberam, vou contar…
Por razões óbvias, vou alterar o nome da principal protagonista. Chamo-lhe Nininha…
Tinha vinte e poucos, talvez até menos, e uma barriga avantajada de 7 meses de gravidez. Tinha sido abandonada por todos. Primeiro, pelo marido português que fugiu da guerra, logo aos primeiros tiros, evacuado no “Ponta de Sagres”, um navio cargueiro que, debaixo de fogo, tirou alguns milhares de pessoas de Bissau. Depois, foi abandonada pelos vizinhos que não quiseram arriscar a fuga com o contrapeso de uma grávida que já não podia correr. Acabou por ficar quase só, na cidade deserta. No bairro onde morava, Chão de Papel, havia meia dúzia de casas habitadas. Alguns homens tinham ficado, para evitar pilhagens. Mas eram poucos.
Nininha descobriu-nos e passou a ser visita assídua. Comia da nossa comida, pagava com risos. De noite, ia para casa.
Ao fim de dois meses, abandonámos Bissau, rendidos por outra equipa de reportagem. Nunca mais soube dela. Ainda durante a guerra, voltei a Bissau mais três vezes, mas nunca mais a vi, ninguém soube dar notícias dela. Havia cada vez menos gente na cidade.
No final da guerra, a Marta Jorge (jornalista da RTP, sedeada em Bissau) contou-me o resto da história…
Andava ela em reportagem, retratando a difícil situação dos habitantes de Bissau que tinham ficado sem morada, porque as suas casas tinham sido destruídas, quando encontrou uma negra jovem que vivia na rua com um filho bebé. O miúdo era muito claro, quase branco. A mulher contou que tinha ficado sem casa, queimada por um obus que lhe rebentou com o telhado. A repórter perguntou-lhe, depois, pelo pai da criança. Respondeu que era um português que tinha fugido. A repórter perguntou, então, como se chamava o bebé. Ela respondeu… "Carlos Narciso". A Marta teve um arrepio. Passou-lhe pela cabeça que eu seria o pai do miúdo… mas, logo de seguida, a mulher disse-lhe que, quando o bebé tinha nascido, lhe tinha dado o nome da única pessoa que a tinha ajudado durante aquele período.
Gosto desta história, até porque não termina aqui.
Mais tarde, Nininha conheceu um médico francês, voluntário dos Médecins Sans Frontiéres. Apaixonaram-se. Nininha vive, hoje, em Bordéus, com o marido e o filho.
Espero que seja feliz.


*Carlos Narciso*
*(jornalista, retirado
daqui, com a devida vénia e autorização do autor)