quinta-feira, dezembro 06, 2012

Contos da vida real 12: Um Anão no Sambizanga


Sem título
(Uma pintura africana de  Isabelle Vital; daqui)

UM ANÃO NO SAMBIZANGA*

Ali à entrada do Sambila, próximo da estrada que vai para o Cacuaco, há uma pequena casa de família, que como é típico na região, tem um quintal ao lado, onde há galinhas e porcos. Esta que eu quero descrever, além de casa de família, tinha também uma dependência, com porta para a rua, que servia de Bar, com capacidade para seis ou sete mesas. Ali serviam-se Cerveja, gelada dentro do possível, jinguba, feijoada, servida em pratinhos como aperitivo e com muito jingungo.

O chefe de família, o velho Kalukembe, fazia luxo em servir com qualidade e por isso a sua casa começava a ter fama nas redondezas. De tal modo, que era muito difícil encontrar uma mesa livre.
Em frente, havia um descampado, onde se costumava organizar grandes espectáculos populares. E também, grandes farras, onde se dançava, até às quatro ou cinco da madrugada.
Aliás, aquele descampado serviu, no tempo próximo da dipanda, quando, naquela época, se atravessava um período difícil de criminalidade, para julgamentos populares e respectiva execução. As autoridades daquele tempo decidiram fazer um julgamento exemplar, para travar os homicídios por ladrões que não hesitavam em matar só para obter as bikuatas que queriam roubar. Foram apanhados seis assassinos de homens e senhoras esventrados, todos moradores ali no bairro ou nas redondezas.

Foram condenados à forca!

Nesse dia, Kalukembe, fechou a portas e janelas. Fechou as janelas de vidro, os estores e as portadas de madeira que ficavam por dentro. E ainda correu os cortinados. Apagou a luz e mandou os miúdos brincarem no quarto, autorizando-os a fazerem todo o barulho que quisessem. A mulher, podia ficar na cozinha, mas sem abrir a porta, nem sequer ir lá fora. Ele foi para a sala com o sogro. Sentaram-se, cada um no seu sofá. Ligou o rádio e estava a cantar o Dionisio Rocha com os seus Negoleiros do Ritmo. Ouviu e acalmou-se um pouco mais. Logo a seguir, começou a cantar o velho Elia Dia Kimuezo, era o seu grande ídolo de miúdo. No intervalo, entre uma música e outra, ainda ouvia gritos lá fora, mas ele tudo fazia para abafar toda aquela tragédia. Põe o som no máximo, o sogro, já bastante surdo, pensou que era por causa dele e agradeceu-lhe. Foi quando começou a cantar o Sabú e a mandar o seu charme musical habitual. 
Veio a noite e Kalu fez saber a toda a família que não queria conversas sobre os enforcamentos. Na verdade, ele não sabia se eram enforcamentos ou fuzilamentos, porque a certa altura escutou tiroteio durante algum tempo. Seja como for, ele não queria saber de nada. Apetecia-lhe esconder a cabeça na areia, para não pensar no assunto.
Passados estes anos todos, ali o largo, continuou a ser o local de convívio popular.
Agora era o circo.
Montavam uma grande tenda onde apresentavam malabaristas, palhaços, mágicos e animais amestrados.
Os altifalantes, debitavam mega decíbeis, anunciando os seus artistas.
Agora, convém dizer que era bastante amigo da família de Kalukembe, o que quer dizer que havia sempre mesa livre para mim. 
Eu saía da fábrica de confecções e tecelagem, onde era gerente, por volta das cinco e tal e, regra geral, antes das seis, já lá estava.
Tinha sempre uma pequena conversa com o meu avilo Kalukembe, e rapidamente, dentro do possível, servia uma Nocal fresca. E digo, dentro do possível, porque a energia eléctrica, faltava com muita frequência. O mais-velho, o Kalukembe, ou Kalu, como também era conhecido, tinha sempre celhas cheias de gêlo, para manter frescas as cervejas, mas quando a luz demorava a chegar, bebia-se assim mesmo!

Eu ficava acompanhado na mesa, por colegas da fábrica que vinham de boleia comigo e que moravam ali perto, para saborear uma boa conversa, onde falávamos dos mambos do dia.
Desde que o circo estava ali montado e que começava o espectáculo por volta das oito da noite, eu notava que, de tarde, aparecia um individuo, pequenino, com uma bengala, onde se apoiava, e bebia a sua cerveja. Ficava de pé, sozinho  sem conversar, olhando para o chão, com semblante triste. Triste e preocupado. Era o Anão do circo. O artista do grupo de palhaços, pensava eu.
Um dia, ele entrou, eu, como estava só, na mesa, convidei-o para se sentar. Ele aceitou.
E começou a conversa de circunstância. Como se costuma começar qualquer conversa sem rumo. Perguntei-lhe se morava ali no Sambizanga. Aquela pergunta, parecia uma torneira que eu tinha aberto. O Anão, começou a falar e a contar toda a sua vida. Dava a impressão, que tinha vivido isolado no mundo e que, de repente, tinha chegado a um povoado, cheio de gente, onde ele podia falar à desfilada. 

“Não senhor, eu nasci no Saurimo, mas depois, por causa da guerra, fui para o Huambo. No Huambo, conheci um Namibiano e fui para Windhoek e ali, o dono dum circo quis contratar-me e eu aceitei. Então passei a ser o Homem-bala. De princípio eu tive medo, mas a vontade de sair da miséria era tanta, que aceitei imediatamente. Quando me disparavam, eu no ar, sentia-me voar para a nova vida. De tal modo me sentia bem que, no ar, eu fazia o meu corpo, parecer uma bela ave, voando para a liberdade.”
Eu interrompi-o, só para lhe dar oportunidade de ele respirar e então, disse, “julguei que fizesse parte do grupo de palhaços.”

“Na verdade há outro anão no circo e esse é palhaço. É mais importante que eu. Quer dizer, era! Na verdade, as pessoas começaram a gostar mais de mim e eu comecei a ser o artista mais pretendido. Mas, infelizmente, qualquer dia vou ser despedido.”
Despedido?, porquê?, perguntei espantado. Então, estão a gostar tanto de si...
Eu ainda não disse, mas o anão chama-se Karbolovulokiala. Por questão de princípios, não gosto de gozar com ninguém! Mas, olhei para o anão, tão pequeno, mas com um nome tão grande, que tive de fazer força para não mostrar cara de gozo.

Deixem-me tratá-lo por “Karbo”, para simplificar as coisas. Ele já ia em quatro ou cinco Ekas, a cerveja que ele gostava. Começava a arrastar as palavras. Eu achava que ele tinha que parar, eu então o canhão ficava sem munição...
Ele, não me respondeu logo. Olhou para o chão, limpou o nariz com as costas da mão e bebeu mais um gole.
Então, de que tem medo?, insisti.
Ele olhou para mim, depois olhou ao redor, parecia ter medo que o ouvissem e balbuciou algo que não percebi nada.
Desculpe KarbolovuloKiala, (conforme pronunciava o nome, esforçava-me por parecer natural) não entendi.

“Estou a crescer!”, disse-me ele quase ao ouvido e já deitando um bafo de cerveja, capaz de embebedar qualquer um!

De facto, um anão só tem emprego num circo por ser pequeno. Quanto mais pequeno, melhor.
“Estou a crescer quase todos os dias!”
Verdade?, mas olhe que eu tenho-o visto há uma semana todos os dias e não noto nada. 
“Mas eu sei!”disse perentoriamente!
Karbo, deixe-me tratá-lo por Karbo, pode ser?
“Claro!”
Olhe, você vá descansar um pouco, porque logo tem trabalho e você não pode faltar. Aí, sim, pode ser despedido. Ele concordou e foi embora, pegando na sua bengala de madeira e cambaleando um pouco.
Fiquei a matutar no assunto e em conversa com Kalukembe, contei a estória do anão. “Eh pá, ele já é kota e bem kota, já não pode crescer!”

Tens razão, deve ser um problema na cabeça do sócio KarbolovuloKiala! (ao pronunciar o nome, o velho Kalu, começou a rir bué e não conseguia parar) Sabes como é são estas coisas desta gente diferente. Têm complexos que chega! Vamos tentar ajudá-lo, coitado. Vamos medi-lo todos os dias, que dizes?
“Boa! Vou fazer umas marcas na parede com a fita métrica.”

Bem, o circo tem sido um sucesso há meses.Todos os dias com enchentes e o Homem-Bala era o maior sucesso. Mas Karbo, continuava triste apesar de nós o medirmos todos os dias e nem um centímetro crescia! Aliás, fizemos a marca da altura dele e da bengala.
“Como pode ser isso, se eu sinto a bengala mais baixa e o Maló nota que eu estou mais alto?!, se eu estou mais alto, é porque ele está mais baixo, porra!", quase que gritava com desespero!

Óh pá, isso é outra coisa! Já podias ter dito!, com o convívio, já nos tratávamos por tu! Esta conversa fazia-me pensar noutra coisa entre os anões. Os sapatos, têm sempre um salto muito alto, para disfarçar a sua pequena estatura, por isso eles usam duas bengalas; uma mais alta, para fora do circo, outra, mais baixa, para quando estão no circo.
Karbo, tu achas que o Maló está mais baixo que tu?
“Claro, ele já fez a medição várias vezes, no quarto onde dormimos os dois e ele está mais baixo que eu!”
Bem, nesse caso, estás a crescer, não há dúvida!
Kalu olhou para mim e fez uma careta, dando a impressão que duvidava. Quando Karbo se foi embora para o trabalho, perguntei ao Kalukembe o que ele pensava. 
“Então pensa comigo, nós há quase um ano que medimos o kamba Karbo todos os dias e ele não cresceu nem um milímetro, como é que o outro está mais baixo que ele? Só se é o outro que está a minguar, o que não acredito. Portanto, aqui há coisa...”
Fazia sentido isto! Fui para casa pensar no assunto.

No dia seguinte, Karbo não apareceu. Nem nos dias seguintes.

Um dia cheguei ao Bar, um pouco mais cedo, porque lá na fábrica não se pôde trabalhar, porque a luz faltou e não voltou. Mais um dia sem trabalho, mais prejuízo para a nação. Sentei-me na mesa habitual com os meus colegas e esperámos pelo pitéu para pancarmos.
Veio o velho Kalukembe, a disparatar com a mulher porque ela estava a demorar a fazer a feijoada e o pessoal à espera do panquê. Ele sentou-se connosco e ficou ao meu lado enquanto o empregado veio atrás dele com a cerveja para todos. “Hoje vamos beber, como está, melhor não há!”, rimos todos com a piada dele. Não perdi tempo e dei-lhe uma cotovelada para ele olhar para mim e disse-lhe que era preciso falar do Karbo.

Entretanto D. Maiomona, trouxe a desejada feijoada. Cheirava que era uma delícia. Enquanto nos servíamos, vejo pela janela que ficava à minha frente, o pequeno Karbo, quase sem bater com bengala no chão, muito sorridente, atravessando a rua na nossa direcção.
Ao entrar, mandei-lhe uma boca chata, daquelas que não dão tempo de pensar, “não me digas que agora encolheste!”, ele e os outros olharam para mim como que a reprovar o que disse, enquanto eu fazia um sorrizinho estúpido, metendo o gargalo da garrafa, como se isso trouxesse de volta a palavra já dita.

KarbolovuloKiala, com o ar mais feliz de sempre, falava a gritar, tal era o entusiasmo.
“Descobri!, o sacana do Maló, invejoso do meu sucesso, estava a tentar que eu fosse despedido. Ele estava a serrar, de vez em quando, a minha bengala, para eu pensar que eu estava a ficar mais alto.”
Mas nós avisámos-te que não estavas a crescer!, nós medimos-te, nós sabíamos!
“Pois, mas ele não aguentou a pressão e notou que vocês me ajudariam cada vez mais, e sentiu a ameaça que a qualquer hora seria descoberto”.

Eh pá, isso não pode ser meu kamba, tu mesmo disseste que ele estava mais baixo! Portanto, não pode ser, não venhas agora endrominar-nos.
Karbo, olhou para nós, bebeu uns bons goles, com um à-vontade nunca visto. Todos ficámos à espera, ansiosos, da resposta dele. Ele levantou-se, isto é, colocou-se de pé em cima da cadeira, e disse com voz grave e calma:

“Ele, para garantir que ficava mais baixo, serrava os tacões dos seus próprios sapatos, para eu ter a impressão que estava mais alto que ele. Ao mesmo tempo, serrava a minha bengala, para eu ter de me curvar cada vez mais e ter a sensação de estar mais alto.”

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GLOSSÁRIO
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Avilo---------companheiro
Bikuatas --- seus pertences
Bué-----------muito
Jindungo ---picante
jinguba------amendoim
Kamba------amigo
Kota---------velho
Pancar------comer
Panquê-----comida
Sambila----gíria do nome do bairro Sambizanga

*João Pessoa*
*(contista angolano)

terça-feira, setembro 18, 2012

Poema

“Amendoeira em flor”
(Árvores de Portugal; foto daqui)

Poema*


Os lagos secaram

Da argila do fundo
Fundiram-se
Pétalas
Criando a flôr

Efémera

Feita de segundos

Liberta de lama
Repleta de amor.


*Alberto Estima de Oliveira*
(poeta português (1934-2008); um dos poemas do livro “Infraestruturas”, 1987)

quinta-feira, agosto 30, 2012

O Gorila Solitário e a panela de barro

Gorila do Maiombe
(Foto da Inernet)

O Gorila Solitário e a panela de barro*

Era uma vez, um gorila faminto que deambulava pela floresta em busca de alimentos. Como estava muito velho, vivia sozinho na Mata Grande do Maiombe e nem os netos queriam saber dele. A época era de escassez, porque choveu pouco e as colheitas perderam-se nos dias tórridos e secos. Apesar de velho e abandonado, o Gorila Solitário ainda tinha o faro aguçado e sentiu o cheiro de comida, vindo da direcção da buala bu Sinda. Foi andando no rasto daquele aroma bom, até que chegou a um acampamento de caçadores.

Quando a panela de barro começou a largar aquele aroma que abria o apetite, um caçador disse para os outros:

- Tuemdia tua buila mbiuma muntamba! Vamos apanhar uma jibóia na armadilha!

Os amigos concordaram e foram para a mata à procura da casa das jibóias, enquanto a panela de barro continuava a apurar o suculento manjar.

Quando o Gorila Solitário chegou à fonte do cheiro a comida, viu que o acampamento estava vazio. Mas no centro do descampado estava uma fogueira fumegante e em cima das brasas, uma panela de barro. Era dali que saía o cheiro a manjar dos deuses!

O Gorila Solitário tirou a panela do fogo, abraçou-a, meteu lá dentro a sua grande cabeça e começou a devorar tudo com sofreguidão, tal era a sua fome!

Enquanto comia, começou a sentir um grande calor nas mãos, nos braços, no peito e nas beiças. A panela de barro estava muito quente e assim continuou enquanto o Gorila Solitário se banqueteava.

O gorila nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras no corpo como um inimigo invisível que lhe queria tirar a comida. E começou a bramir tão alto, que os morcegos gigantes adormecidos nos braços frondosos das mafumeiras acordaram e voaram cegos em direcção ao esplendor da luz do Sol, por cima das copas das árvores frondosas do Maiombe.

Quanto mais alto rugia, mais o gorila apertava a panela quente contra o seu imenso corpo e mais o barro lhe transmitia o calor. O Gorila Solitário pensava em tudo, menos largar a sua presa. E a panela queimava-o cada vez mais.

Os caçadores ouviram os guinchos e urros do Gorila Solitário e ficaram cheios de medo.

- Vamos para o acampamento antes que os gorilas nos matem! – disse um caçador. Todos concordaram e regressaram apressadamente ao acampamento, perseguidos pelo eco dos gritos cada vez mais dolorosos do faminto gorila.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, viram o Gorila Solitário encostado a uma árvore, já sem forças para gritar, mas sempre agarrando a panela de barro, com unhas e dentes. Nenhuma força do céu ou da terra lha conseguia tirar!

Este foi o último combate do Gorila Solitário, pela sobrevivência. Acabou por morrer, vítima das queimaduras que sofreu.

Em todo o Maiombe houve luto, porque tinha acabado de falecer um dos seus filhos mais queridos, que durante muitos anos chefiou a sua numerosa família.

Moral da história: Na nossa vida, muitas vezes, abraçamos coisas e causas que julgamos serem importantes. Algumas fazem-nos gemer de dor, queimam-nos por fora e por dentro. Mas mesmo assim, ainda as consideramos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo coloca-nos numa situação de sofrimento e de desespero. Apertamos coisas frívolas e desnecessárias contra os nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, em que tanto acreditamos e valentemente defendemos. Mulu zingu luitu ngumbu ziumbu tueti zinguitilanga mana lete tuvana zimpaci tueti balilanga mauo undjinzi ma vuizi ay muna zimpaka tuti fua ay teti muna zinpaci muna lianbu likambuizi ndando.

* Esta história foi contada por José Casimiro, em Cabinda, e publicada no Jornal de Angola (versão online) de 26/Agosto/2012

domingo, junho 17, 2012

Contos da vida real 13: Foi ela que nos adoptou…

(foto ©elcalmeida)

Os animais continuam a mostrar que são eles que nos adoptam e não nós que o fazemos. Já conheço* – assim o penso, isto porque eles estão sempre a surpreender-nos, – esta gata há cerca de 6 anos.

Quase tantos quantos os que, periodicamente e sempre que posso, vou até ao Algarve ver e sentir o ar do nosso Continente Africano que a maresia nos oferece através de pequeninas e saborosas gotículas.

Pois ela vem ter sempre connosco no primeiro ou segundo dia, fica na varanda deitada, por vezes olha para a porta e para a portada abertas mas nunca, mas nunca, alguma vez, colocou uma pata que fosse no beiral delas.

Por vezes damos-lhe alguma coisa que coma e come como não quisesse fazer desfeita e volta a deitar-se.

Quando considera que já nos fez a sua companhia, vai se embora e volta no dia seguinte.

Até aqui, nada demais, se…

Se não fosse o facto de no dia que nos vamos embora, por regra, nunca aparecer à varanda como se procurasse evitar despedidas e soubesse que na próxima etapa aí estaremos de novo e, de novo, ela virá cumprimentar-nos.

E, complementarmente, a gata parece ser muda, mas, quando algum outro similar aparece onde ela considere não oportuno, não tem problemas em, diria… grunhir!

Todavia é interessante como ela é meiga e demonstra algum carinho com alguns dos que por lá andam, nomeadamente uma que tem todas as características semelhantes, como se fosse filha, com a particularidade de ser muda e quase cega.

Ainda desta última vez e no último dia, logo pela manhã, lá estava deitada entre a entrada e a porta junto ao muro-floral.

Discreta, muda, sossegada.

Se lhe derem alguma coisa de comida – o que aconteceu –, aceita, come, fica um pouco ali como que a fazer companhia agradecendo o gesto e vai-se embora.

À tarde, por volta do almoço, como que tendo percebido que nos iríamos embora e como não gostando de despedidas nem por lá passou.

Ou seja, continuou discreta, muda e sossegada desta vez num qualquer outro lugar que tenha adoptado.

Até uma próxima vez…

*Eugénio Costa Almeida*
*(feito algures no Algarve, Portugal, em Junho de 2012)

quarta-feira, março 21, 2012

Dia Mundial da Poesia: “Algures”

"Palavras"
(retirado da Internet)

(retirado da Internet)


Algures*

São inúteis as palavras
Porque nascerão num outro dia
Entre a manhã e a noite abrupta
Algures momentaneamente
Silenciosas, vagamente
Dilaceradas
De inutilidade…

*Maria Paula Raposo*
*(poetisa portuguesa, retirado da II Antologia de Poetas Lusófonos)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Isto

“Isto ou aquilo, 2”
(Fotomontagem de Dobroslav Foll)

Isto*

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



*Fernando Pessoa*
*(poeta português)