O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Contratados

"Contratados"

(Bailundos contratados para a exploração do café, em Quitexe; foto retirada daqui)


Contratados*


Longa fila de carregadores

domina a estrada

com os passos rápidos


Sobre o dorso

levam pesadas cargas


Vão

olhares longínquos

corações medrosos

braços fortes

sorrisos profundos como águas profundas


Largos meses os separam dos seus

e vão cheios de saudades

e de receio

mas cantam


Fatigados

esgotados de trabalhos

mas cantam


Cheios de injustiças

calados no imo das suas almas

e cantam


Com gritos de protesto

mergulhados nas lágrimas do coração

e cantam


Lá vão

perdem-se na distância

na distância se perdem os seus cantos tristes


Ah!

eles cantam...

*Agostinho Neto*

*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)

terça-feira, setembro 30, 2008

Quitandeira

"Mulheres com farinha de trigo"
(Uma tela a óleo, de Lívio de Morais, representando quitandeiras;
daqui)

Quitandeira*

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

*Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)

domingo, janeiro 14, 2007

Sinfonia

"Sinfonia"
(Colagem de técnica mista de
Susana Boettner)

Sinfonia*

A melodia crepitante das palmeiras
lambidas pelo furor duma queimada

Cor
estertor
angústia

E a música dos homens
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias

Sorrisos
dor
angústia

E a luta gloriosa do povo

A música
que a minha alma sente


*Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979);escrito em 1948 e retirado da obra Sagrada Esperança)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Comboio africano

"Comboio angolano"
(CFB – Ponte da Variante do Cubal, foto de
C.Pires)

Comboio africano*

Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assentam os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Lento caricato e cruel
o comboio africano…

*António Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); poema retirado da obra Sagrada Esperança)

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O Choro de África

"África"
(desenho a tinta da china, de Malangatana, 1981)

O Choro de África*

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

O choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós!

E amor
e os olhos secos.

*António Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); poema retirado da obra Sagrada Esperança)