O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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quarta-feira, maio 24, 2006

É Dia de África

"Julgamento"º
(Acrílico sobre comprensado de madeira, de Malangatana, 1966)
.
É Dia de África*

Olh'é Dia de África!!!
Pois é…
como se o 25 de Maio
fosse o único dia
que África necessita
neste sistema sapal
onde muitos
se engendram,
parecem
e são
filantes ou sipaios,
corruptos e decrépitos,
ditadores ou senis.

É Dia de África!!!
Pois é…
tal como os outros dias
onde a vergonha
e falta de pudicícia
a apreensão e a sedição,
a míngua e a penúria,
o nepotismo e a corrupção,
a doença e a falta de prevenção
vivem em harmonia perfeita.

É Dia de África!!!
Pois é…
com um povo famélico que clama,
a o Mundo que observa
impávido e pacato
sempre pronto nas oferendas
que nunca,
ou tarde,
chegam…

É Dia de África!!!
Pois é…
para um Continente rico
em petróleo
e recursos hídricos,
em veios auríferos
e rios diamantíferos
mas…
uma cólera que se espalha
o sida que não pára
um paludismo endémico
um qualquer vírus que germina
um Continente mais que epidémico.

É Dia de África!!!
Pois é…
mas como gostava
que África
fosse notícia,
sempre novidade,
não por este dia,
não pela miséria,
não pela enfermidade
não pela corrupção;
que fosse
porque este dia,
é só,
deve ser,
mais um
entre 365 fúteis dias
de alguma normal reprodução
de um qualquer frívolo almanaque.

É Dia de África!!!
Pois é…
é tudo isso,
e muito mais que se não diz…
Mas é a minha África!!!!

*Lobitino Almeida N’gola
(Lisboa, 24.Maio.2006)
º (Pintura retirada do catálogo "Malangatana, Pintura" da Galeria Municipal Artur Bual, Amadora, 2000)

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O Choro de África

"África"
(desenho a tinta da china, de Malangatana, 1981)

O Choro de África*

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

O choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós!

E amor
e os olhos secos.

*António Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); poema retirado da obra Sagrada Esperança)