O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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terça-feira, setembro 01, 2009

Presença

"Mulher Bosquimane e filho"
(Pintura de Toia Neuparth; descaradamente ximunada
daqui)

Presença*

E apesar de tudo
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
Filha eterna de quanta rebeldia
Me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra,
puro e incerto!

– A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul…
A do dendém
nascendo dos braços das palmeiras…
A do Sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas…
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas…

Sim! Ainda sou a mesma…
– A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundo s e dormentes
(Rua 11… Rua 11…9
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…

Sem dores nem alegrias
de tronco nu e corpo musculoso
a raça escreve a prumo,
a força destes dias…

E eu, revendo ainda
e sempre, nela,
aquela,
longa história inconsequente…

Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias
dos dongos,
dos cólios baloiçando
mansamente… mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto
ao aceno do teu Povo!...

*Alda Lara*
*(poetisa angolana; poema publicado no Jornal de Benguela e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)

terça-feira, outubro 30, 2007

Testamento

"Noiva Muíla"
(Tela de Toia Neuparth)


Testamento*

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo,
oferece-o àquele amigo
que não acredita em deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

*Alda Lara*
*(poeta angolana; poema publicado incialmente no “ABC – Diário de Luanda” e retirado da Antologia Poética Angolana I, col. Imbondeiro, 1963)

quinta-feira, abril 19, 2007

Momento

"La Polìtica"
(Aguarela de
Maugdo Vásquez López)
.
Momento*


Nos olhos dos fuzilados
dos sete corpos tombados
de borco, no chão, impuro,
eis!
… sete mães soluçando…

Nas faces dos fuzilados,
nas sete faces torcidas
do espanto ainda e receio,
… sete noivas implorando…

E do ventre de além-mundo,
sete crianças gritando
na boca dos fuzilados…
sete crianças gritando
ecos de dor e renúncia
pela vida que não veio…

Na boca dos fuzilados
vermelha de baba e sangue
… sete crianças gritando!...

*Alda Lara*
*(poetisa angolana, poema inicialmente publicado no“ABC – Diário de Angola” e transcrito na “Antologia Poética Angolana I”, col. Imbondeiro, 1963)

sexta-feira, maio 05, 2006

Presença Africana

"Maio, o mês de África e do coração"
.
Presença Africana*

E apesar de todo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do Sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...)
pelos meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...

E eu revendo ainda,
e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...

Terra!
Minha, eternamente ...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos colios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou
a que num canto novo
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

*Alda Lara*
*(poetisa angolana, poema publicado inicialmente no Jornal de Benguela, com o título "Presença" e transcrito na Antologia Poética Angolana I, ed. Pub. Imbondeiro)

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Prelúdio

"Mãe Negra"
(tela de N'Tangu – pintor angoano)
...
Prelúdio*
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…
.
*Alda Lara*
*(poetisa angolana um pouco esquecida; uma feliz ideia, vinda daqui; do livro Poemas, 1966)