O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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terça-feira, dezembro 11, 2007

A minha Casa

"Caminho de Casa"
(Tela de
José G. Pereira Neto)

A minha Casa*

A minha casa
É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das malambas
É fácil de localizar concerteza,

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!

Glossário:
Becos: ruelas tipicas dos musseques, dos bairros pobres
Kambas: amigos
Malambas: tristezas, amarguras, conversas, palavras
Kaporroto: bebida caseira angolana
Kimbombo: bebida caseira angolana


*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra “Fúria do Mar”; retirado
daqui)

Conversas com um Kamba

"Amigos"
(Tela de
Rui Cabrita)

Conversas com um Kamba*

Outro dia vi-te, algures num canto qualquer
Falavas asneiras
E baboseiras
À mistura
Pensei, talvez loucura
Bem me lembro, vi-te num dia qualquer a não esquecer

Falavas amargurado e revoltado
De coisas que se pensam
E não se falam
Falavas amargurado
E sonhavas com um passado há muito enterrado
Com um passado há muito passado!

Falavas também de um futuro que nunca existiu
Um futuro com que sonhaste um dia
Um futuro utopia
Que até se cansou e desistiu
De ser o futuro adiado
Cansou e desistiu de ser o futuro abortado!

E te revoltavas com a dor vinda dos outros
Pois como sonhador
Já não sentias a tua dor
Mas era a dor dos outros que te afligia
Era a dor dos outros que te atingia
E te revoltavas com a dor vinda dos nossos

Falavas destas coisas, amargurado
Falavas de futuros doutores
Futuros pensadores
Nas ruas feitos ambulantes
Torrados por raios de sol escaldantes
Torrados por porretes de fiscais malvados!

Falavas também a amargura, das tuas manas bonitas
Das tuas manas feitas prostitutas
Feitas kitatas
Numa qualquer esquina da Mutamba
Vindas dos musseques do Cazenga, Rangel, Samba…
Falavas destas coisas meu kamba

Depois lastimaste o estado das estradas
Gerações e gerações de buracos
A prosperarem
Gerações e gerações de crateras a se multiplicarem
E a imundice dos musseques e seus becos
E das suas gentes cansadas!

Depois meu amigo, não mais ouvi de ti
Não mais te vi numa qualquer esquina de Luanda
Ou mesmo desta Angola
Desta terra bela
Depois, recebi uma missiva em que dizias lacónico, “parti
E sou um frustrado fora da banda!”

Glossário:
Kamba: amigo, companheiro

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra "Os Meus Pés Descalços";
daqui)

segunda-feira, agosto 06, 2007

Os meus pés descalços

"Estrada da samba"
(Tela sobre Acrílio, de
Mário Tendinha “paterhu”)

Os meus pés descalços*

Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus pés ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantar voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!

Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas de alimentos!

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema retirado da obra “Os Meus Pés Descalços”)

Carta de um Angolano no estrangeiro

"The First Wave of the Great Migration"
(Tela sobre a
história da emigração africana nos EUA, de Jacob Lawrence [1917-2000])

Carta de um Angolano no estrangeiro*

Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!

*Décio Bettencourt Mateus*
*(poeta angolano; poema da obra "A Fúria do Mar”)