O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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quinta-feira, agosto 25, 2011

Os sinais antigos de quem procura eternidade

“Entardecer”
Original de W. Mooney


Os sinais antigos de quem procura eternidade*


Apetece confessar,

nestas folhas de memória

quem, na verdade, sou

e ousar seguir

minha procura.

Apetece confessar que estou aqui

a viver e reviver o amor.

Não apenas corpos em prazer,

mas os segredos antigos

de quem se faz eternidade.


Há viagens que são beleza,

mãos, cheiros, ouvidos, olhos

e todos os demais sentidos

que me dão a ilusão

de acrescentar a criação.

Esse humano, demasiado humano,

a que não posso ser alheio,

para que se descubra o infinito.


*José Adelino Maltez*
*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

A terra vermelha, o embondeiro

"Bocóio, Terra Vermelha"

"Foto de DaSilva, Lili"


A terra vermelha, o embondeiro*


Não! Já não tenho saudades do império.

Apenas, a memória que reprimo,

nos muitos pedaços de uma guerra

que não deveria ter acontecido.

Tão bárbara como todas as guerras,

sempre inconscientes

nos seus próprios mortos.

Sobretudo, no dia seguinte

ao fim da guerra,

nessa ilusão de tratados,

a que chamam paz.


A manga que cai da árvore,

os jacarés da barra do Kwanza

a terra vermelha, o embondeiro,

nesta terra de tórridas saudades,

e o recanto mais recôndito

de todos os recontros.

Verão de Angola sabe a sumo de papaia,

em hora de pequeno almoço.


*José Adelino Maltez*

*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Foi aquém e foi além

"Fenda da Tundavala, Huila, Angola"
(Foto de ©Nuno Silva Leal, ‘visitando o Lubango’;
daqui)

Foi aquém e foi além*

Aqui, onde quem estou, serei.
Onde meu corpo é sinal de procura,
sinal de um mar para onde vou.
Onde o verso me dará quem sou.
Onde versos e versos me levam ao segredo.

Sim, deixa dizer em segredo deste pedaço de procura,
deste resto de música que, de mais além me dá sinal.
Deixa dizer meu sonho
e seguir o sonho de um mar por cumprir.

Porque, para os outros que me lêem,
não posso dizer tudo quem sou.
Os breves recantos onde me guardo.
Os sinais que me dão segredo.

*José Adelino Maltez*
*(Cientista político; poeta português – poema retirado
daqui)

domingo, dezembro 23, 2007

Natal



Natal*

Já não sei dizer Natal como sabia,
quando meu Natal, em minha aldeia,
era um presépio de musgo e de areia
e um menino adorando o Deus menino.

A família inteira, sentada ao borralho,
fazendo horas para a missa do galo
nessa noite fria cujo fogo nos aquecia
e nos dava alento para o ano inteiro.

Vou reaprender a dizer Natal, este Natal,
para que possa voltar a ser
alma de pássaro criança,
nestas memórias de infância.

Para que Deus me dê
nova estrela de Belém
que nos leve ao mais além.

Mas serão precisos muitos desses dias
para que, mais uma vez, possa nascer,
em figura humana, o meu Messias.

*José Adelino Maltez*
*(politólogo, ensaísta e poeta português; do livro de poesia“
Sphera, Spera, Sperança”)

terça-feira, janeiro 17, 2006

Ser é escrever-me

“Bodegón”
(Óleo de Ruben Prieto, 2005)

Ser é escrever-me *

Quando, em noites de solidão,
peregrinamos
o prazer da criação,
eis que as palavras
voltam a ser nascente,
águas vivas
da memória que resiste.
As palavras necessárias
que, às vezes, ganham sentido,
quando, sem procurar porquê,
a poesia acontecer.
Retomo a velha pena
de escrever-me
que recatara,
no tombo dos feitos
nunca findos.
Lavo, de seu aparo dourado,
restos secos,
de tinta sofrida,
e logo volta a fluidez
navegante
dos poemas por fazer.
A proa da caneta
riscando fina
a breve rugosidade do papel,
os manuscritos que resguardo
nas gavetas vivas do passado,
e os livros, companheiros,
que, lendo e relendo,
vou recriando
em madrugadas de espera.
*José Adelino Maltez*
*(Do livro de poesias Sphera, Spera, Sperança, Livro I "Das palavras imperfeitas")