O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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terça-feira, setembro 01, 2009

Luanda

"Entrada do Porto de Luanda e o Largo 4 de Fevereiro"
(Foto Elcalmeida, Maio de 2009)


Luanda*

Gosto dela à noite
a horas esquecidas

Gosto dela quando mais
ninguém anda cá fora
e a sinto toda minha…

O sei corpo grande e negro
é quente e generoso,
e os ruídos no escuro
cães ladrando, carros longe
galos, meninos chorando…
fazem uma sinfonia
morna, calma e tropical
como se fosso o respirar
de alguém que descansa.

É por isso

Que eu gosto de Luanda
a horas esquecidas…

Olho o seu corpo, grande,
o seu corpo negro e generoso
e sinto uma ternura especial

Como se fosse o corpo conhecido
duma amante saciada e adormecida
que se olha com amor e com cansaço
e depois se recorda com saudade.

*Neves e Sousa*
*(poeta e artista plástico angolano nascido em Portugal; poema da obra “Batuque” e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)

quinta-feira, abril 19, 2007

Viagem ao Sul

"Cuanhama"
(Tela em óleo de
Francisco Gomes de Amorim)

Viagem ao Sul*

Esta beleza agonizante do Cuanhama
espraiando-se até à linha do horizonte
como um tapete estafado
que se desfaz sob os nossos pés
fala-me de guerras passadas e de reinos
......................... já dos homens olvidados…

Morrem como a terra as tradições
numa infinita tristeza
numa apática indiferença
que magoa como uma lembrança triste.

Secam as cacimbas, as talas, o capim
...............só não secam as lágrimas.
Só não morre em mim esta pungente
faculdade de sofrer junto com a terra.

É por isso que eu gosto de cá vir
e é por isso que me custa vir aqui
e ver alvejar a carcassa daquele boi
que morreu o ano passado!

E os paus caídos nos eumbos poeirentos
e os gongueiros sem folhas nem frutos
secos, secos como os braços dos mutiátis…

É por isso que me custa vir aqui!
...................Sofro e compreendo
O Cuanhama que busca em vão a esperança
que o sol inclemente lhe arrancou
da terra que lentamente se recusa
aos nossos passos.

*Neves e Sousa*
*(poeta e artista plástico angolano nascido em Portugal; poema da obra “Batuque” e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)

segunda-feira, abril 24, 2006

Poemas para Abril: Oito estrofes soltas

“Os Cravos da CPLP”
(Montagem de
elcalmeida)


Poemas para Abril: Oito estrofes soltas*
(Aceder ao integral de cada poema pelos títulos que ao lado e no fim se indicam)


Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração? (Ang – “Angolano”, Neves e Sousa)


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (Bra – “Soneto de Separação”, V. de Moraes)


O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos. (CV – “Emigrante”, Ana Júlia Sança)


A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento. (GB – “Sofrimentos”, Carlos E. Vieira)


Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos (Moç – “Sonho de Mãe Negra”, Kalungano)


Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo. (PT – “Gozo Sonhado”, Ricardo Reis)


O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais. (STP – “Onde estão…”, Alda do Espírito Santo)


Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama, poema, tempo e o espaço,
Das gerações que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver. (TL – “Pátria”; Xanana Gusmão)


*Partes de poemas de autores lusófonos*
*(Aceder ao poema integral pelos títulos: 1-“
Angolano”, Neves e Sousa, Angola; 2-“Soneto de Separação” Vinícius de Moraes, Brasil; 3-“Emigrante”, Ana Júlia Sança, Cabo Verde; 4-“Sofrimentos”, Carlos Edmison Vieira, Guiné-Bissau; 5-“Sonho de Mãe Negra”, Kalungano [Marcelino dos Santos], Moçambique; 6-“Gozo Sonhado”, Ricardo Reis, Portugal; 7-“Onde estão os Homens caçados neste vento de loucuras”, Alda do Espírito Santo, São Tomé e Príncipe; 8-“Pátria” de Xanana Gusmão, Timor-Leste;)