O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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segunda-feira, dezembro 18, 2006

Neve nocturna

"Depois de uma noite de neve"
(foto daqui)
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Neve nocturna*

Sentindo na noite
O silêncio pesado das vítimas

De solidão

Regressar a casa, revolver um passado demasiado presente.
Inconstante, ainda assim.

As feridas que ardem,
Que jazem nos corpos em movimento

Num rodopio trôpego, soluçante.
Sempre só(brio).

Um expectante sobressalto desperta
Na acalmia passiva das mãos abertas
Esperando

Contando os dias
As noites

Em branco.

Como a neve cristalina que cobre
O negro do chão

Manchado de sangue.

E quando a estrada acabar?

*Orlando Gilberto Castro*
*(jovem estudante português; os novos autores da Lusofonia; poema retirado daqui.)

sexta-feira, setembro 01, 2006

Vida Fantasma

"Testa Fantasma"
(Óleo e carvão sobre tela,
Bruno Bernier, 1988)


Vida Fantasma*

Caminhando incertamente para um futuro
(Im)previsto
Promessa solene de incumprível exigência
Guardando com a vida (e a morte) a Sua bíblia,
O seu coração,
A sua versão
Testemunha suprema do mal (in)evitável

Contraria.

Apenas o respirar do cachimbo suave mantém a insolência dos dias
Das noites
Da concisa (i)mutabilidade das coisas
Impróprias
Para consumo
Esperando apenas partir
Quebrando o co(r)po agora vazio deixado para trás
Ao relento
Contam-se os cacos
Contam-se as vidas
Contam-se segredos
Contam-se verdades

E mentiras.

Suprimido por si próprio
Nada faz porque não quer
(Alguém que queira é o que realmente quer)
Mas o futuro aproxima-se
O passado persegue-te
E o presente arrebata-te!

*Orlando Gilberto de Castro*
*(jovem estudante português; os novos autores da Lusofonia; poema inicialmente colocado
aqui.)

quarta-feira, maio 10, 2006

Conto da vida real 3: Vislumbrar o azul

"Ilha do Fogo, Cabo Verde"
(vista da ilha de Santiago, foto de Carlos Narciso)
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Vislumbrar o azul*

Quando me levanto e confronto o mundo, quando me perguntam o quê, quando me perguntam porquê, quando me faltam as forças, quando as não consigo conter, quando conquisto o mundo, quando me deixo vencer…
Ao olhar o espelho, sorrindo a uma imagem distorcida – pelo tempo, pela emoção, pela contradição – reparo se não seria assim, caso fosse de outra maneira.
Se não fosse quem sou, não seria uma falsidade projectada da mesma forma, sob a fraude do espelho, esse salteador de memórias, que nos não vê como queremos, mas sim como quer, que não respeita o que cremos, quando cremos apenas em nós mesmos?
E poderá ser ele culpado por esta ironia do destino?
Claro que sim.
Ele, ele e não eu é o verdadeiro culpado pela discordância entre o ser e o ver.
Que seja por isso banido! Não o objecto: o que ele representa. Toda a mentira que encerra por não nos mostrar a verdade – pelo menos a que desejaríamos ver.
Então viva! Já tenho culpado para toda a frustração, toda a confusão, toda a inexplicável envolvência deste estranho lugar a que chamamos mundo, a que chamamos casa.
E a ele somente estarei eternamente grato. Sem a força – ainda que só para mim real – que me transmitiu, como poderia enfrentar esta vida sem lógica?
Talvez por isso também, sinta agora a sua falta. Muita presunção da minha parte achar que era realmente possível.
Não.
Não é, de facto, possível a vida sem a (des)ilusão.
Só espero poder um dia reaver o meu querido espelho.
Ainda que saiba que tal não será jamais possível, contento-mo com o leve e indefinido chamamento do mar.
Pois também ele me permite, agora e uma vez mais, vislumbrar o azul…

*Orlando Manuel Gilberto de Castro*
*(jovem estudante português; os novos autores da Lusofonia)