O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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quinta-feira, outubro 05, 2006

Stabat Mater Africa

"Sem título"
(Tela de
Eleutério Sanches, pintor angolano)

Stabat Mater Africa*

De pé mãe-África
Séculos e Séculos
Sempre vigilante
De pé stabat Mater África

Tu, mãe-África, sempre de pé
Coragem nunca te faltou
Séculos e Séculos de pé

Ao teu colo tudo me deste
O amor me gerou dentro de ti
Os teus peitos de rijos a flácidos
As tuas mãos de macias a calejadas
Quentes
Ásperas
São duas páginas de ouro
Tu Mater, meu ouro, meu diamante

*Lívio de Morais*
*(
poeta e artista plástico moçambicano, 1996; daqui)

quarta-feira, outubro 04, 2006

nº. 100: Poema

"sem título"
(Tela de
Eleutério Sanches)
.
Poema*
(a minha homenagem a um Homem de Angola, Belli Bello)

…Quando souberes que a minha hora chegou
não deves chorar
e nem sequer os braços cruzar
Quem chora
Quem cruza
Consente
E nós não devemos consentir!

*Cao Belo*
*(Um dos dois heterónimos do embaixador Carlos Alberto O. Belo “Belli-Bello”; poema publicado, em Luanda, em 1959 na colectânea poética, “Força Nova”)

sexta-feira, maio 05, 2006

Embondeiro (Mbondo)

"Alquimia da árvore (motivação Imbondeiro)"
(Óleo têmpera sem tela, do
artista angolano
Eleutério Sanches, 1991)

Embondeiro* (Mbondo)

Mbondo!
estou raquítico de forças
dê-me algo
da sua veia gordurenta.
Tenho cassenguembo.
Traga-me ndembo
e cure-me todas as feridas

Mbondo!
Lá fora
a criançada chora.
Mostre-me o seu florir
para com a flor
pormos uma criança a sorrir
com a boneca...
e não mais chorar com a dor
da ausência de um brinquedo

Mbondo!
Já sinto fome de novo
cubra-te de novo.
quero tuas folhas
verdejantes.
cubra-te de novo.
quero tuas folhas
para na falta de um jantar
encherem-me de forças

Mbondo!
Corra atrás do tempo
deixe-me cair a sua múcua
pois nesta vida crua
não quero sol
para minha pele corar.
quero o seu gelado
e minha alma refrescar

Mbondo!
Quero a sua corda
não para pendurar-me no pau
e pôr cobro à vida.
quero dela sem mal
para pôr uma calomba
apanhar um animal
trazer-me nova alegria
e poder dançar o semba

Mbondo!
Dê-me o seu jitongo
mate a nossa fome
para não ficarmos em macongo
e depois pegarmo-nos mucondo
mas estarmos sempre alegres

Mbondo!
Oferte-nos seu kibalo
para pôr água no cantil
ao passar pela nascente
em direcção à lavra
e não sofrermos de sede
por falta de água
em qualquer parte

Mbondo!
reveste-se novamente
impeça um raio solar
passar
traga-nos sua sombra
e deixe-nos repousar
solenemente
a toda hora
sem guerrear.


Alguns termos em kimbundo:
Mbondo: imbondeiro / embondeiro;
Cassenguembo: doença que origina borbulhas na língua;
Ndembo: medicamento que cura diversas doenças;
Boneca: flor do imbondeiro; nome que as crianças rurais lhe dão por ter um formato de boneca e assim brincam com ela;
Múcua: fruto do imbondeiro;
Calomba: um tipo de armadilha feita com ramas de palmeiras;
Jitongo: nome que se atribui a semente do imbondeiro;
Macongo: muitos problemas juntos;
Kibalo: a casca da múcua que na comunidade rural se utiliza como uma caneca ou como recipiente;
Mucondo: uma forma de dizer tristeza com as mãos.

*Luís Miguel*
*(poeta angolano, 14.Abril.2006)