O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

domingo, junho 10, 2007

Portugal colonial

“Kores de África”
(Tela de
António Miranda)

Portugal colonial*

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci
nem a morte
que depois comi
nem a vida
repartida
pelos cães
nem a notícia
curta
a dizer-te
que morri.
Nada te devo
Portugal
colonial
cicatriz
doutra pele
apertada.

*David Mestre*
*(Poeta angolano (1948-1998); este poema foi escrito quando, em Portugal, em 1975, se afirmava que tinha sido morto por tropas sul-africanas; do livro "Subscrito a Giz – 60 Poemas Escolhidos")

quarta-feira, junho 06, 2007

Uma só mulher

“Mil Emoções Mil Paisagens Culturais”
(Acrílico sobre tela de
Don Sebas Cassule)

Uma só mulher*
(para ti)

Eis uma mulher
Uma elegia única
De todas as eleitas
Compondo a vida
Em estrofes poderosas
Iluminando a penumbra baça
Onde se espojam os nús

De quantos homens foi feita?

De sua majestade
Faíscam as evidências
Da tempestade
Que agita o céu de breu
E o mundo cão
Que a rodeia

Emudecem as musas
Por vulgares e
NADA!

Nem o artifício subtil
De suas dádivas
Pode ocultar
A arte de um só poema

NADA! – Só tu
Entre tantas vidas
Sem sentido


Luanda, Julho de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Poesia Virgem

“Mãe África”
(Óleo sobre tela de
Valeiro Alberto Luís)

Poesia virgem*

Que poesia espera
A virgem negra
Guardiã de Pandora
Para colocar na ara
Dos sacrifícios
Sua mística de inocência
Seu tesouro
Único e mudo?

Que silêncio é a arte
Profana do sacerdote
Tomando as primícias?

Que silêncio este que explode
Em cada corpo impoluto?
Que vãs palavras
Vãs no perímetro da minha voz
E teu sentir
Poderão seduzir
De ouvido
O que só a magia estática
Do indizível
Pode murmurar?

Luanda, 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

Palavras como resgate

“Mdemba Fragmentos”
(Óleo sobre tela de
Tozé)

Palavras como resgate*

Eis aberto meu baú
de manhãs de oiro
que ofereço como resgate

eis
transbordante
o cálice da cicuta
profecia desta água
que beberei de um só trago
para que ninguém mais
prove sua amargura

rompi da escuridão
com o segredo deste destino
para escrever no mundo
minha busca dos limites da saudade

(e como os pássaros de Octávio Paz
canto sem o saber
meu entendimento é a garganta).

Luanda, Agosto de 2006

*Manuel Dionísio*
*(poeta luso-angolano; poema inédito a publicar no seu próximo livro “Palavras como resgate”)

quinta-feira, maio 24, 2007

Encurralado

“Summer Interior”
(Tela em óleo de
Edward Hopper (1882-1967), de 1909)

Encurralado*

penso
enquanto assisto ao assassinato
de mais um ser aflito
na tv
que pouco me resta a fazer
que não seja risco
ou riso

voaria se me dessem asas

não mas dão

recorro então à solução
mais rápida

e morro
em meio a um silêncio
vão

*Márcia Maia*
*(Poetisa brasileira, retirado
daqui)

Primavera

"Spring"
(Tela de Lawton Parker)
.
Primavera*

Todo o amor que nos prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

*David Mourão-Ferreira*
*(Poeta português (1927-1996))

quinta-feira, maio 17, 2007

Ode ao Poeta Bernardo Lúcio

“Fernando Pessoa”
(Um poeta da Lusofonia pintado por outro; tela do luso-santomense Almada Negreiros)


Ode ao Poeta Bernardo Lúcio*

Morreu um poeta.
Ficamos em silêncio pelo poeta.
Segurei o Choro, pelo poeta.
Não disse mais nada pelo poeta.

Importa como foi? O que aconteceu?
Não importa. Infelizmente Morreu o poeta.
Na Zambézia a música fica órfã.
A palavra fica muda
Morreu o poeta Mor.

Silêncio por favor silêncio
Morreu o poeta principal.

Morreu um grande amigo da família.
.
*Suzete Madeira*
*(moçambicana; poema inédito, Maio/2007)