terça-feira, outubro 30, 2007

Contos da vida real 10: A Efémera Árvore

"Imbondeiro de Angola"
(Foto de
Paulo Arroteia)

A Efémera Árvore*

Qual é a diferença que existe entre um especulador imobiliário e um tubarão?
Nenhuma, são imprevisíveis.
Tinha talvez vinte anos quando a despediram da vida. Era muito atraente, oferecia, tinha ainda muitos promissores frutos proeminentes em frente. Cheios e cheia de saúde e assim morrer tão prematuramente… os frutos saborosos com que nos deliciava e a sua sombra, a frescura terminaram no reino inglório do lixo.
Era uma árvore, uma mangueira altiva e muito orgulhosa, nunca se deitava e não se cansava de viver sempre em pé. Convivia, participava, acompanhava as nossas vidas. Fincou raízes nas traseiras de três prédios, num grande largo que a juventude utilizava para disputar campeonatos de futebol. Junto dela vivia um homem de idade avançada, numa modesta habitação, e porque a saúde lhe desistia contactou um general para a sua venda. Feito o negócio, ainda se sentia o frio das notas bancárias e já alguns militares, mais um arquitecto, e um engenheiro começam a rodear a mangueira. Com curiosidade, olham-na de cima a baixo. Depois faíscam-na como inimiga, soldados trepam-na, e a rir como a festejar grande vitória contra um inimigo poderoso, tratam de esquartejar primeiro os seus ramos mais pesados, mais volumosos. A árvore rapidamente sente o fim aproximar-se, e entre suspiros e lamentos, gritos silenciosos, como só as árvores fazem, sons que os seres humanos não ouvem, não querem ouvir.
E a árvore continua a resistir ao assédio. Heroicamente resiste a cada golpe que sem piedade lhe assestam os seus inimigos poderosos. Já estava quase careca, desnuda. Creio que se sentia muito envergonhada, da sua nudez. Restava apenas o tronco que teimosamente insistia em estar ligado à Terra Mãe, aquela que a viu nascer. E a Terra sentia-se ferida. E num ronco descomunal surgiu uma fera de metal, que lançava fumo por todos os lados, como um dragão invencível… e com uma pá de aço, mergulhou nas entranhas da Terra e retirou as raízes, o esqueleto, o pouco que restava da pobre árvore, deixando lá uma cratera, o que alegrou os militares, habituados aos despojos no campo de batalha.
Depois, entre o tilintar de copos de bebida, o general, os seus soldados, o arquitecto e o engenheiro, beberam à saúde de mais um inimigo aniquilado. A seguir veio a niveladora, nivelou a terra, apagou os vestígios da descomunal batalha. Seguiu-se outra máquina que despejou cimento e areia. Os tijolos e demais materiais já aguardavam para iniciar mais uma obra da especulação imobiliária. Passados poucos dias já ninguém se lembrava que ali existiu uma árvore, uma mangueira. No seu lugar cresceria mais uma árvore de cimento e areia.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Outubro de 2007)

3 comentários:

Susana Charrua disse...

Olá!

Ficaria muito grata se divulgassem o meu blogue, que ainda há dias comecei.
Relacionado com preocupações sobre o que afecta o bem-estar da humanidade, dos portugueses, dos povos lusófonos e dos povos de todo o mundo.
Espero que vos agrade aquilo que gostaria de vos apresentar e somente tem por objectivo alertar os menos avisados, despertando-lhes as consciências.
Venham até ao “DESPERTAR CONSCIÊNCIAS” e participem!

Madalena Barranco disse...

Olá Gil, adorei seu texto sobre a indefesa árvore e a morte de mais um pulmão da Terra... Parabéns pelo terno alerta à degradação do meio ambiente. Abraços.

Paulo Arroteia disse...

Infelizmente, esta é uma historia real para a qual pouco ou nada podemos fazer para combater e lutar contra esta devastação da naturesa.
Esta historia repete-se em todo o mundo e, por todo o lado existem Generais e Soldados a festejar e, ao mesmo tempo muitos a chorar a morte de mais um elemento vivo da naturesa, eu sou um deles.
Paulo Arroteia - www.arroteias.net