quarta-feira, agosto 27, 2008

Picada de marimbondo

"Elefante solitário"
(Foto de autor angolano desconhecido; retirada da Net;
que o marimbondo não o apoquente...)

Picada de marimbondo*

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo
foi branco que inventou...

*Ernesto Lara Filho*
*( poeta angolano – poesia publicada na Antologia de poesia da Casa dos Estudantes do Império - Angola e S. Tomé e Príncipe; retirado daqui)

Pátria Mãe!

"Vila Bijagó, GB"
(Foto de autor desconhecido; retirada
daqui)

Pátria Mãe!*

Tu me viste no ventre
Tu me viste nascer
Crescer me viste
Ressurgir eu te vi
Ressurgir das entranhas coloniais.

Os teus filhos se revoltaram
Irrequietos, se levantaram
Levantaram-se firmes
Firmes numa certeza
Firmes na esperança de vencer.

Pátria Mãe, na árdua caminhada,
A vitória era único destino
A vitória era a Liberdade
A Liberdade é hoje.

Pátria Mãe, tu vives na Memória Nacional
Tu vives na Memória dos Mortos
Que te honraram com suas vidas
E por tua causa foram.

Foram e nunca mais voltarão
Nunca mais ouviremos suas vozes
Nunca mais ouviremos o eco de suas vozes
O eco de suas gargalhadas
Gargalhadas nos labirintos afins.

Nunca mais sentiremos bater o seu coração
Bater de esperança e coragem
Bater de alegria e do dever cumprido
Nunca mais lhes diremos, Camaradas!
Nunca mais contaremos o passado

O passado nos confins de Cubucaré
O passado no coração de Morés
O passado nas masmorras de Tite e afins
O passado nas submarinas da marinha
O passado nas ilhas das galinhas
O passado de reencontro da tua dignidade.

Nunca mais ouviremos a cadência de seus pés
Cadência de seus pés nas colinas de Boé
Nas lalas e matas de Nhacra
Nas matas e lalas de Guilege e Guidage
Nas matas históricas do chão de manjaco
Nunca mais mataremos saudades.

Mas um dever nos deixaram,
De vivificar a tua história heróica
De preservar as tuas conquistas
De defender a tua integridade moral e física
De construir a nação que Amílcar sonhou edificar
De preservar perenemente a tua dignidade.

E assim honrar o sacrifício superior - a morte
A morte dos teus melhores filhos
Que devemos honrar com a acção da cidadania
Honrar a Pátria que Cabral se entregou de corpo e alma
E assim, honrar perenemente a ti, oh Pátria Mãe!

*José Bacar*
*(heterónimo de José Carlos Cocamáro; poeta Bissau-guineense – Julho de 2005; retirado
daqui)

Descifrar a dor e o amor

"Sombras"
(Foto de Luís Costa, Agosto 2008; retirada
daqui)

Descifrar a dor e o amor*

Sei que existe o céu, e que há estrelas, nuvens e noite
Sei que há chuva, frio e calor
E que há perfume nas flores. Cores? Não sei, mas sei que há sabor
E sei que há noites, manhãs e dor
Sei que há sorrisos, desencontros, sons e silêncio
Sei até que há degraus, que você sobe, desce, para!
E conheço sua voz.
E que quando suas mãos apalpam meu corpo, sinto medo
Mas quando ouço sua voz… sinto a calmaria dos campos
Alimento minha alma de amor, tolerância e fidelidade…
Mesmo quando estou só.
E lembro que…
Quando amanhece, e o sol brinca de secar o orvalho de meu corpo,
Deito no chão macio, e sorrio, mesmo que só!
Não sei falar com as mesmas palavras que você.
Mas conheço algumas, e as vezes até decifro
E mais ainda, você conhece todas as minhas
Quando estou perto de você , tratada por você …
Meu olhar explica o que sinto no corpo e na alma.
Acho que a dor e o amor se misturam
Sinto minha alma se misturar a sua
Num misto de gratidão e alegria
Que não sei se sou gente ou bicho
Sei apenas que perto de você
Não sinto mais solidão nem dor.
.
*Lira Vargas*
*(poesia brasileira; retirado
daqui)

Durmo sem sonhar

"The Dream"
(Tela de
Henri Rousseau, 1910)

Durmo sem sonhar*

Nasci na África triste, ou triste Africana
Evito encontrar-me, fujo de mim
Durmo sem sonhar
Até os pesadelos me abandonaram
Sonho de olhos abertos e vejo milhares de naus
Multidões nas praias que me perseguem
E escondo-me no que resta da civilização

Tento suavemente sentir a sensação
Da profunda escuridão
Depois das dramáticas batalhas de cada minuto
Para não encurtar a minha vida
Nos muitos anos de guerra
Porque os desígnios da minha existência paradoxal
Nunca serão lembrados

No beiral areal, real lixeira de corpos desumanos
Sou como os palhaços, rio, faço rir
Dentro de mim estou triste
Rio para esconder a minha tristeza
Tenho o direito ancestral de ficar calada
Os dias antecedem a bruma das noites
Negra escuridão dos tempos perdidos,
jamais recuperados
Receio que tenha de partir para longe,
já que aqui não vejo ninguém por perto

Revolução de contínuos descontinuada
Na apanha da bebedeira ficam três dias a dormir.
Alguns não acordam
Era o colonialismo, a seguir vieram os descolonizadores
Depois o neocolonialismo. Que será o que se segue?
África, berço e túmulo da humanidade.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; retirado
daqui)