sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Punhal na alma... pelas costas

"Barco Moliceiro, Turismo na Ria de Aveiro"
(Foto de ©Elcalmeida, Verão de 2008)


Punhal na alma... pelas costas*

Na vida das esquinas
encontrei esquinas
que me apontaram a vida
que, afinal, estava mesmo
ao dobrar da esquina.
Apesar disso chorei
quando senti o punhal
entrar-me pela alma
sem verter uma gota de sangue
porque esse jazia
sonolento num corpo perdido
na madrugada que anoitecia
sem se lembrar da poesia
que nascera décadas antes
nos córregos sinuosos
de uma saudade castigadora
bem mais lancinante
do que o punhal que me feriu
a alma e que, mais uma vez,
foi espetado pelas costas.

*Orlando Castro*
*(jornalista, poeta e contista angolano-português; poema originalmente publicado
aqui)

Foi aquém e foi além

"Fenda da Tundavala, Huila, Angola"
(Foto de ©Nuno Silva Leal, ‘visitando o Lubango’;
daqui)

Foi aquém e foi além*

Aqui, onde quem estou, serei.
Onde meu corpo é sinal de procura,
sinal de um mar para onde vou.
Onde o verso me dará quem sou.
Onde versos e versos me levam ao segredo.

Sim, deixa dizer em segredo deste pedaço de procura,
deste resto de música que, de mais além me dá sinal.
Deixa dizer meu sonho
e seguir o sonho de um mar por cumprir.

Porque, para os outros que me lêem,
não posso dizer tudo quem sou.
Os breves recantos onde me guardo.
Os sinais que me dão segredo.

*José Adelino Maltez*
*(Cientista político; poeta português – poema retirado
daqui)