O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
Mostrar mensagens com a etiqueta Tomaz Vieira da Cruz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tomaz Vieira da Cruz. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Eterna sentinela

"Cosmogonia do Imbondeiro"
(Tela de Filomena Conquenão, 1989,
daqui)


Eterna sentinela*

Abandonado e só,
o Imbomdeiro,
figura milenária do sertão,
tem a dolorosa expressão
de quem foi condenado
por toda a vida
a sofrer na costa de África
o seu destino maldito.

Não conhece os milagres do amor,
e junto a si jamais teve o carinho
ou a ternura saudável
da mais humilde flor.

Imbondeiro desgraçado,
filósofo triste e pensativo,
filósofo da paisagem,
mártir e santo que alguém tivesse encontrado
no inferno de Dante
e conduzisse a este sol abrasador:

- Tu és a estátua gigante
da minha dor!

*Tomaz Vieira da Cruz*
*(poeta luso-angolano; poema da obra Quissange, ed. Lello, 1971)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Surucucu

"A maior e mais bela surucucu que conheço"
.
Surucucu*
.
Fui mordido sem remédio,
quem me mordeu foste tu...
E agora morro de tédio,
veneno surucucu.
.
Foi numa triste cubata,
mais longe do que a distência,
mais longe do que a saudade,
que é tempo morto que mata.
.
Nunca mais posso esquecer
a tua boca sem fala,
quando um leão, que era rei,
assustava e complicava
os murmúrios da sanzala.
.
Uma palmeira
à luz da Lua, parecia que rezava
naquele mundo profano!...
.
Fui mordido... - Foste tu! -
Nunca mais posso esquecer-te,
- veneno surucucu.

*Tomaz Vieira da Cruz*
*(poeta nascido português mas que assumiu Angola como sua onde foi enterrado a seu pedido - poesia retirada da compilação "Quissange", edição Lello, 1971)