O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

terça-feira, novembro 29, 2011

Contei meus anos...

"Volúpia I”

"Volúpia I”
(Eunice Maia, daqui)


Contei meus anos... *

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

*Mário de Andrade*
*(poeta angolano esquecido (1893-1945)poeta angolano esquecido (1893-1945)

sexta-feira, novembro 11, 2011

A Dipanda

“Angola”
(Montagem de Elcalmeida)

A Dipanda*

Ainda há
ondas no mar
azul no céu
esperança no destino
e silêncio na pedra.
Continuamos vivendo
e morrendo
como sempre.

*Teresinka Pereira*
*(poetisa angolana; Luanda,11-11-11)

segunda-feira, outubro 10, 2011

Deixem-me chorar

“Tears and Pain”
(Foto retirado daqui)

Deixem-me chorar*

Deixem-me chorar
lágrimas de esquina
que dobram o coração,
sonhos de madrugada
que amamentam
as noites do luar.

Deixem-me vaguear
nos córregos do cérebro
que bloqueiam a poesia,
que travam a sensatez.

Dobro a vida das esquinas
e encontro a ponte
que não tem margens.

Deixem-me andar por aí
como quem sabe o que faz,
mesmo quando tropeço
no sonho de apenas querer
chorar como qualquer um.

*Orlando Castro*
*(Jornalista, contista e poeta angolano-português, poema inicialmente publicado aqui)

quinta-feira, outubro 06, 2011

As Calemas do Lobito

"Calemas"
(foto ©Elcalmeida, 2010)

As Calemas do Lobito*

Nas douradas areias
ou nas duras rochas,
batem duras,
batem fortes,
ondas soberbas
em cadência;
batem, enrolam
e em alvas espumas
desmaiam e voltam.

São as nossas Calemas!

Nas delicadas areias
ou nas duras fragas,
batem e tornam a bater
duras, fortes,
enroladas,
como só elas o sabem fazer.

São as nossas Calemas!

Cíclicas, metódicas,
em finais de Setembro acodem
e em Outubro partem;
na Restinga,
no Bairro da Praia,
ou no Compão
as Calemas abrolhem.

São as nossas Calemas
que ruidosas,
estrídulas, aparatosas,
no esporão desmaiam
e o Lobito refrescam!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(6/Outubro./2011)

sábado, setembro 03, 2011

A Liberdade Tem A Marca do Meus Sangue

“Freedom of Spirit”

(Waalpaper, por walldesk)



A Liberdade Tem A Marca do Meus Sangue*


A Liberdade tem a marca do meu sangue

Pois fui eu quem defendeu

Esta nação flagelada

E pintou o verde de esperança

No rosto de quem achava impossível


Pois fomos nós
Escravos da roça
Oprimidos e sem vozes
Negros dos maminhos em vez de arroz
Pintamos o preto em branco
E tornamos esta terra em paz

A liberdade tem a marca do meu sangue

Pois fui eu

Na linha da frente

Quem alimentou esses famintos

Para que não morressem

Nas matas do deserto do Sahaara

E se reparares bem

Em cada alicerce da reconstrução

Desta nação tem a marca do meu sangue libertador.


*Sandro Feijó*

*(Poeta Universal; poeta angolano, 24 Agosto 2011)

quinta-feira, agosto 25, 2011

Os sinais antigos de quem procura eternidade

“Entardecer”
“Original de W. Mooney”


Os sinais antigos de quem procura eternidade*


Apetece confessar,

nestas folhas de memória

quem, na verdade, sou

e ousar seguir

minha procura.

Apetece confessar que estou aqui

a viver e reviver o amor.

Não apenas corpos em prazer,

mas os segredos antigos

de quem se faz eternidade.


Há viagens que são beleza,

mãos, cheiros, ouvidos, olhos

e todos os demais sentidos

que me dão a ilusão

de acrescentar a criação.

Esse humano, demasiado humano,

a que não posso ser alheio,

para que se descubra o infinito.


*José Adelino Maltez*
*(Cientista político; poeta português – poema retirado da obra “Sobre o tempo que passa”)

sábado, agosto 20, 2011

E ele acabou…

"Bigodes"
(imagem da Internet)

E ele acabou…*

E em mim quase 40 anos ele durou…

A idade o fez aparecer,
tal como uma espiga medrou,
arvorou e ceifou,
mas uma imagem no espelho astuta
o fez, de novo, recrescer.

E em mim quase 40 anos ele aturou…

Depois de avermelhado se afirmar
e em trigo depois se virar,
serodiamente,
com o tempo coabitado,
em cinza se atestou.

E em mim quase 40 anos ele aguentou…

Seja carência, afirmação ou moda,
eles os há ostentosos, afilados,
distintos, revertidos ou espetados;
e a todos que o usaram, atestou e honrou.

E em mim quase 40 anos ele teimou…

Se eu, como muitos, o ornei
nele outros se certificaram,
Hitler ou Estaline, Dali ou Gable, entre outros,
arrogantemente o pompearam.

E em mim quase 40 anos ele abarbou…

E ao fim destes anos passado
umas vezes, como um precário
outros, declaradamente extasiado,
finalmente numa tarde se vazou.
Durante 40 anos o prezei,
minha cara ornou.
Adeus, cinza bigode, o matei,
um superior lóbulo inocente ficou.

*Lobitino Almeida N’gola*
*(8/Agosto./2011)