O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

sexta-feira, março 31, 2006

conto brasileiro 2: “Sonhando te espero”

"Asleep with Lamb"
(Óleo sobre tela de
Robert Cronin, 2002)
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Sonhando te espero*
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Foi num dia chuvoso. Uma semana havia se passado sem que ele a visse.
Horas e horas, milhas e milhas rodadas com seu corpo inerte no banco daquele ônibus. Todos os dias ele fazia a mesma coisa: descia, dirigia-se até a frente do velho prédio, apoiava o corpo contra a parede e, sob a inadequada luz do poste abria um livro e começava a ler.
De tempos em tempos ele erguia o olhar sobre as letras e mirava a escuridão da rua. Não importava quanto tempo ele esperasse, ela não mais aparecia.
Todos os dias, após algumas horas lendo em pé e esperando, ele guardava o livro na mochila e dirigia-se para a porta do bar. Lá ele não entrava, apenas permanecia parado do lado de fora observado o movimento e imaginando se aquele recado que ele havia deixado no mural ainda estava lá.
O recado dizia mais ou menos assim: te amo, por isso te espero. Te espero amando cada minuto e sorvendo esse cálice de angústia como se fosse conhaque que nada mais faz do que aquecer meu peito. Um dia estaremos juntos, mesmo que já não me reconheças. Um dia, naquela mesma mesa em que sentamos, você irá olhar nos meus olhos e irá, se pronunciar uma única palavra, mostrar-me tudo aquilo que eu preciso saber.
Não estava assinado. Seu amor por ela era anônimo e óbvio, ridículamente escondendo-se como pessoas escondem-se no silêncio das palavras apenas para revelar seus sentimentos em olhares.
Mas já havia uma semana que ele não mesclava seu campo de visão ao dela. O que fazer? Durante toda sua vida ele segurou frouxamente a mão da sanidade. Não lhe custaria nada largá-la agora.
Ele preferiu um método novo. Saiu dali para não mais voltar, decidiu fazer como um pintor que muda suas tintas e com rápidas pinceladas recobre sua arte mudando as tonalidades de seus sentimentos. "Não mais irei amá-la" - pensou ele.Acreditando nesta prerrogativa, foi ao encontro de uma nova vida onde mais tarde nem ele mesmo se reconheceria. Amou intensamente, mas sempre sonhou com ela ao fechar os olhos. Acordava já vestido com a máscara que decidira usar e sem perceber essa mesma máscara iria deformando suas verdadeiras feições, transformando-o no cruel e triste personagem que ele havia criado. Suas mentiras iam caindo uma a uma, seu castelo de areia transformaria em lágrimas, tantas lágrimas que pensaria em morrer. E na verdade, parte do que ele era morreu, mas não matou seu amor por ela.
Todas as noites ele entrava num mundo onde o tempo havia parado e lá ele ainda era aquele jovem sonhador descobrindo novidades em livros que foram escritos muito antes dele nascer. Naquele mundo ele ainda tinha o frescor na pele e o brilho no olhar, que só uma paixão juvenil é capaz de trazer, e sentia todo seu corpo como se fosse coberto por zonas de sensíveis ao prazer do toque dela.
Acordar só não era insuportável pois a lembrança de seus sonhos logo se esvanecia ante a visão da vida que construiu.
Enlouquecido após tanto tempo flertando com a falsidade, procurou uma saída. Ergueu-se violentamente, sem notar que a maior violência aflingiria a sí mesmo conforme suas ações. Mas nenhuma violência seria maior do que continuar ali como estava.
Para alcançar a liberdade foi capaz de rasgar sua obra, uma tela que lhe custara tão caro que tivera de pagar com a essência de sua juventude. E ele não deixou transparecer nenhuma dor enquanto desconstruia a si mesmo publicamente, embora estivesse em terrível agonia por dentro.
A primeira coisa que ele quis fazer, foi mais uma vez tentar consertar aquele pequeno grande engano que cometera de maneira estúpida e infantil a tantos - agora anos - atrás. Bobo, nem ao menos percebeu que havia se transformado e que jamais voltaria a ser o que era. Por mais que tentasse.
Quando percebeu isso, tornou-se mais seco que areia do deserto. E agora seu sorriso é desprovido de qualquer amor.
Restou-lhe o desejo. Mas desejo nada mais é do que fumaça, que rapidamente lhe dá a vida, para em seguida tirar.
Ele queria muito renascer nela. Mas nem mesmo ela existe para que ele possa renascer.
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*Zohguy*
*(Conto de um autor brasileiro e retirado daqui)

sexta-feira, março 24, 2006

Um dia Lindo

"Pôr de sol na Galé"
(Foto de elcalmeida)
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Um dia Lindo*
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Está um dia lindo
E as crianças brincam lá fora
O mal não é bem-vindo
Sacode-os debaixo dos sapatos agora.
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Está um dia lindo
E a vida tem (muita) graça
Está um dia lindo
E eu te convido na dança.
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Está um dia lindo...
Está um dia lindo!!!

*Noé Guill*
*(24-Mar-2006; Inédito; a nova poesia angolana)

segunda-feira, março 20, 2006

Dia Mundial da Poesia: Regresso Eterno

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“Timor-Lorossae, a esperança”
(título meu, foto retirado
daqui)

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(21 de Março, Dia Mundial da Poesia)
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Regresso Eterno*

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.

A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentido
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

*Ruy Cinatti*
*(Poeta luso-timorense (1915-1986) esquecido por alguns e amado por muitos outros)

Dia Mundial da Poesia: Canção dos Rapazes da Ilha

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“Jangada em alto mar”
(Acrílico sobre tela de
Oscar Araripe)
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(21 de Março, Dia Mundial da Poesia)
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Canção dos Rapazes da Ilha*

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.


*Aguinaldo Fonseca*
*(Poeta cabo-verdiano)

domingo, março 19, 2006

Poema para meu pai

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"Father and child"
(Desenho retirado daqui)
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Poema para meu pai*

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

*Ivo Barroso*
*(Poeta brasileiro)

sábado, março 18, 2006

Conto moçambicano 1: Conto do pequeno Édipo

“Perdidos en el recuerdo”
(Pastel sobre cartão de Ana María Aguilar)
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Conto do pequeno Édipo*

O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta:
- Uma cerveja.
Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime.
A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos.
- Vá brincar lá dentro - berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca.
O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante.
- Que tal? - perguntou a mulher, tentando animá-lo.
Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino.
- Que tal, é boa?
O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o "chapa" e a casa, uma pausa para relaxar.
À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo:
- Boa.
A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza.
O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera.
- Suca daqui! - ordenou a viúva.
Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe…
- Dá-lhe um pacote de "Maria" - disse o cara. E acrescentou, peremptório: - na minha conta.
Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço.
À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou:
- Boa como a própria dona?
Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra.
- Xixi cama! - berrou o homem.
O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões:
- Rua-rua-rua!
Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.

*Suleiman Cassamo*
*(moçambicano (n.1962), retirado de "Poesia e Contos de Autores Africanos")

Conto angolano 5: Kerere, a galinha de angola

"Galinha d’Angola"
(Artesanato brasileiro
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Kerere, a galinha de Angola*
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Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!».
Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se.
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos...
Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere?
Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia!
Naquela época Kerere era toda preta...
Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim".
Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse a trás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito.
Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar.
Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas...
Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada.
Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência!

Nota: Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, Etu ou Galinha de Angola.

*Tata riá Nkissi Nkassuté*
*(retirado da secção de Contos tradicionais de Angola, do
Sanzalangola)